Adenocarcinoma: o que é, tipos e em quais órgãos pode surgir

Recebeu um laudo com a palavra adenocarcinoma e não sabe o que ela quer dizer? Ela conta de que tipo de célula o tumor nasceu, não em qual órgão. Entenda, com exemplos do dia a dia, o que é, quais são os tipos, onde pode surgir e o que acontece quando a origem não aparece nos exames.

Poucas palavras de um laudo de biópsia causam tanta dúvida quanto adenocarcinoma. Ela aparece em resultados de intestino, pulmão, estômago, próstata e mama, e a pergunta seguinte costuma ser sempre a mesma: afinal, que câncer é esse? A resposta é mais simples do que parece. O adenocarcinoma não é a doença de um órgão específico, e sim um sobrenome que descreve de qual tipo de célula o tumor nasceu.

Este texto explica, em linguagem do dia a dia, o que essa palavra significa, quais são os tipos, em quais órgãos ele pode surgir, como o patologista chega a esse diagnóstico e o que acontece na situação menos conhecida, quando a doença é encontrada já espalhada e a origem não aparece nos exames.

O que é adenocarcinoma?

Adenocarcinoma é um câncer que se forma no tecido glandular, isto é, nas células que revestem certos órgãos por dentro e que fabricam e liberam substâncias como muco, sucos digestivos e outros líquidos. Essa é a definição do National Cancer Institute (NCI), o instituto de câncer do governo norte-americano.

O nome ajuda a entender. “Adeno” vem do grego e quer dizer glândula. “Carcinoma” é o câncer que nasce no epitélio, a camada de células que forra a pele e o interior dos órgãos. Juntando as duas partes, o nome significa câncer nascido nas células de glândula de um revestimento.

Dúvidas sobre adenocarcinoma?

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliar o seu caso, agende uma consulta com o Dr. Hugo Tanaka.

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Uma comparação útil é imaginar o interior do corpo como um prédio cheio de pequenas fábricas. Muitas paredes são revestidas por azulejos, que só protegem. Outras têm, embutidas, minúsculas fábricas que produzem muco para lubrificar, enzimas para digerir ou leite, no caso da mama. O câncer glandular é o que começa nessas fábricas, quando algumas de suas células passam a se multiplicar sem controle e invadem o que está em volta.

Adenoma e adenocarcinoma são a mesma coisa?

Não. O adenoma é um tumor benigno que nasce do mesmo tipo de célula, mas não invade os tecidos vizinhos nem se espalha. Alguns adenomas, como certos pólipos do intestino, podem se transformar em câncer ao longo de anos, e por isso costumam ser retirados durante a colonoscopia. É a lógica do rastreamento: tirar a fábrica defeituosa antes que ela vire um problema.

Qual a diferença entre adenocarcinoma, carcinoma e carcinoma espinocelular?

Carcinoma é o nome da família inteira dos cânceres que nascem no revestimento dos órgãos. Dentro dela há dois grandes ramos. Um nasce das células de glândula, as fábricas. O outro, o carcinoma espinocelular, também chamado de escamoso ou epidermoide, vem das células achatadas que funcionam como azulejos de proteção, comuns na pele, na boca, na garganta, no esôfago e no colo do útero.

Essa distinção não é detalhe de laboratório. No pulmão, no esôfago e no colo do útero, por exemplo, os dois tipos podem aparecer no mesmo órgão, mas têm causas, comportamentos e tratamentos diferentes. Existem ainda outros tipos de câncer que não pertencem a essa família, como os sarcomas, que nascem de músculo, gordura e osso, os linfomas e os tumores e carcinomas neuroendócrinos, cada um com regras próprias.

Em quais órgãos o adenocarcinoma pode surgir?

Segundo o NCI, a maior parte dos cânceres de mama, pulmão, esôfago, estômago, cólon, reto, pâncreas, próstata e útero é do tipo adenocarcinoma. Na prática, isso quer dizer que boa parte dos tumores mais frequentes no Brasil pertence a esse grupo. A Estimativa 2026-2028 do INCA prevê cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no país, com próstata, mama, intestino, pulmão e estômago entre os primeiros lugares.

Os parágrafos abaixo dão uma visão rápida de cada órgão. Os detalhes de sintomas, estágios e tratamento estão nas páginas específicas de cada tipo de câncer.

Pulmão

O adenocarcinoma é o tipo mais comum de câncer de pulmão e o que mais aparece em pessoas que nunca fumaram. Costuma nascer na periferia do pulmão e é o tipo em que mais se encontram alterações genéticas tratáveis com remédios de alvo, como EGFR e ALK.

Intestino grosso e reto

Quase todos os casos de câncer colorretal pertencem a esse grupo, em geral nascidos de um pólipo que cresceu devagar durante anos. É o melhor exemplo de como o rastreamento com colonoscopia evita a doença.

Estômago e esôfago

A grande maioria dos casos de câncer de estômago é desse tipo. No esôfago, o tipo glandular aparece sobretudo na parte de baixo, perto do estômago, e tem relação com refluxo de longa data e com o esôfago de Barrett.

Pâncreas e vias biliares

O tipo mais comum de câncer de pâncreas é o adenocarcinoma ductal, que nasce nos canais que levam o suco digestivo até o intestino. O colangiocarcinoma, câncer dos canais da bile, também costuma ser glandular.

Próstata

Praticamente todo câncer de próstata é desse tipo, já que a próstata é, ela mesma, uma glândula. Muitos crescem devagar, o que explica por que nem todos precisam de tratamento imediato.

Mama

Os carcinomas ductal e lobular da mama nascem das glândulas que produzem leite e dos canais que o conduzem, e por isso pertencem a essa família, embora no laudo raramente apareçam com esse nome.

Útero, colo do útero e ovário

O câncer do corpo do útero (endométrio) é, na maior parte das vezes, glandular. No colo do útero, o tipo glandular é menos frequente que o tipo escamoso, mas também tem relação com o HPV. No ovário, os tipos mais comuns, como o seroso, também pertencem a esse grupo.

Outros locais

Esse tipo de câncer também pode surgir no intestino delgado, nas glândulas salivares, na tireoide e no rim, onde recebe nomes próprios, como carcinoma papilífero ou carcinoma de células renais.

Quais são os tipos de adenocarcinoma?

Além do órgão de origem, o laudo costuma trazer outras informações que dividem esse câncer em tipos. As três mais comuns são o grau de diferenciação, o padrão ao microscópio e se o tumor já invadiu ou não os tecidos.

Bem, moderadamente ou pouco diferenciado

Diferenciação é o quanto as células do tumor ainda se parecem com as células normais. Pense em funcionários de uma empresa: no tumor bem diferenciado, eles ainda usam o uniforme e seguem a rotina, formando glândulas quase normais; no pouco diferenciado, já perderam o uniforme e não lembram mais a função original. Em geral, quanto menos diferenciado, mais rápido o crescimento. O grau, porém, é só uma das peças e nunca é avaliado isoladamente.

Padrão ao microscópio

Alguns nomes que aparecem no laudo descrevem o desenho que as células formam ou o que produzem: mucinoso (produz muito muco), células em anel de sinete (a célula fica tão cheia de muco que o núcleo é empurrado para o lado, como a pedra de um anel), papilífero (forma pequenas dobras em forma de dedo), seroso (comum no ovário) e acinar (comum na próstata). Esses padrões ajudam o patologista a suspeitar do órgão de origem, mas raramente bastam sozinhos para confirmá-lo.

In situ ou invasivo

A forma in situ é aquela em que as células doentes ainda estão restritas ao revestimento, sem ter atravessado a camada de base. É uma fase muito inicial, com chance alta de cura quando tratada. O invasivo é aquele que já ultrapassou essa barreira e pode alcançar vasos e gânglios.

Como o laudo chega ao diagnóstico?

O diagnóstico só é feito com uma biópsia, a retirada de um pequeno pedaço do tumor para análise. Ao microscópio, o patologista reconhece esse câncer pelas estruturas em forma de glândula que as células doentes tentam montar. Esse olhar, porém, mostra o tipo de célula, e não de qual órgão ela veio: um tumor de intestino e um de pulmão podem ser muito parecidos na lâmina.

Para descobrir a origem, entra a imuno-histoquímica, um exame que usa corantes especiais para marcar proteínas da célula. Funciona como reconhecer o sotaque de uma pessoa: mesmo morando em outra cidade, ela continua falando como na terra natal. Algumas combinações apontam com força para um órgão. CDX-2 positivo, com CK20 positivo e CK7 negativo, sugere intestino; TTF-1 e CK7 positivos sugerem pulmão; GATA3 sugere mama; PSA sugere próstata; PAX8 sugere rim ou ovário, conforme os demais marcadores.

Em seguida, quando a doença está avançada, costuma ser feito o perfil molecular do tumor, que procura alterações genéticas capazes de orientar terapia alvo ou imunoterapia. A ASCO, sociedade americana de oncologia clínica, recomenda esse tipo de teste genômico do tumor para pacientes com câncer metastático ou avançado sempre que houver tratamento aprovado que dependa do resultado.

E quando o tumor de origem não é encontrado?

Na grande maioria das vezes, o tumor primário, aquele por onde a doença começou, aparece logo nos primeiros exames. Em uma parcela pequena, cerca de 2% de todos os cânceres, a doença é descoberta já espalhada, em gânglios, fígado, pulmões ou ossos, e o ponto de partida não aparece. É como receber uma carta sem remetente: o conteúdo está ali, mas o envelope não diz de onde veio. Esse tipo de câncer responde por aproximadamente 70% desses casos, que a American Cancer Society chama de câncer de sítio primário desconhecido.

Hoje, a imuno-histoquímica e testes que leem a impressão digital genética do tumor conseguem apontar a origem provável na maior parte das vezes, e o tratamento passa a seguir as regras desse órgão. Como é feita essa investigação, quais exames ajudam e como fica o tratamento está explicado no artigo sobre câncer de origem desconhecida.

Adenocarcinoma tem cura?

Pode ter, e a resposta honesta é que depende principalmente de três coisas: o órgão de origem, o estágio em que a doença foi descoberta e o perfil molecular do tumor. Um tumor de intestino retirado ainda dentro de um pólipo e um de pâncreas já espalhado têm o mesmo sobrenome, mas histórias completamente diferentes.

Quando o tumor está localizado, a cirurgia, às vezes associada a quimioterapia ou radioterapia, pode curar. Quando já se espalhou, o objetivo passa a ser controlar a doença pelo maior tempo possível com boa qualidade de vida, e em vários tipos isso já significa anos de tratamento.

Como é o tratamento do adenocarcinoma?

Não existe um tratamento único. A escolha segue as regras do órgão de origem e pode combinar cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapia alvo e imunoterapia. As diretrizes da SBOC, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, organizam essas condutas para cada tipo de tumor.

A seleção do tratamento também depende das outras doenças que a pessoa tem, da idade e do performance status, que é a medida de quanto ela consegue manter as atividades do dia a dia. Por isso o caso costuma ser discutido por uma equipe multidisciplinar, com oncologista, cirurgião, radioterapeuta e patologista olhando os mesmos exames. Quando o tumor está espalhado, as opções seguem as mesmas linhas descritas no texto sobre câncer metastático.

Em parte dos casos vale também investigar se existe uma síndrome de câncer hereditário na família, sobretudo em pessoas jovens ou com vários parentes afetados.

Quando procurar um oncologista e pedir segunda opinião

O ideal é procurar um oncologista assim que a biópsia confirmar o diagnóstico, de preferência levando o laudo completo, incluindo a imuno-histoquímica, e as imagens dos exames. Uma segunda opinião é especialmente útil quando o laudo usa termos como “compatível com” ou “favorece”, quando a origem do tumor não foi definida, quando o perfil molecular ainda não foi pedido ou quando o tratamento proposto deixa dúvidas.

Perguntas frequentes sobre adenocarcinoma

Adenocarcinoma é câncer maligno?

Sim. É sempre um câncer maligno, porque tem capacidade de invadir os tecidos vizinhos e de se espalhar. O tumor benigno nascido do mesmo tipo de célula se chama adenoma.

Adenocarcinoma tem cura?

Pode ter. As chances dependem do órgão em que o tumor nasceu, do estágio no diagnóstico e do perfil molecular do tumor. Tumores descobertos cedo e retirados por cirurgia têm as maiores chances de cura.

Qual a diferença entre adenoma e adenocarcinoma?

Os dois nascem de células de glândula. O adenoma é benigno e não invade nem se espalha; o adenocarcinoma é maligno. Alguns adenomas, como pólipos do intestino, podem virar câncer com os anos, por isso são retirados.

O que significa adenocarcinoma pouco diferenciado?

Significa que as células do tumor já se parecem pouco com as células normais do órgão. Costuma indicar crescimento mais rápido, mas o grau é apenas uma das informações usadas para definir o tratamento.

Adenocarcinoma se espalha rápido?

Depende do órgão e do tipo. Muitos tumores de próstata crescem devagar, enquanto o de pâncreas tende a ser mais agressivo. O grau de diferenciação e o estágio ajudam a estimar o comportamento de cada caso.

Adenocarcinoma é hereditário?

Na maioria das vezes, não. Uma parte pequena dos casos, principalmente de intestino, estômago, mama, ovário, pâncreas e próstata, está ligada a alterações genéticas herdadas, e o aconselhamento genético é indicado quando há sinais de alerta na família.

Adenocarcinoma aparece no exame de sangue?

Não. Nenhum exame de sangue confirma esse diagnóstico. Marcadores como CEA, CA 19-9 e CA 125 podem estar alterados e ajudam a acompanhar o tratamento, mas o diagnóstico só é feito com biópsia.

Dúvidas sobre adenocarcinoma?

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliar o seu caso, agende uma consulta com o Dr. Hugo Tanaka.

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Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM-SP 163.241 | RQE 100.689 | Oncologia Clínica

Oncologista clínico, doutor e mestre em Oncologia Clínica pela FMABC, com fellowship em tumores neuroendócrinos no A.C. Camargo Cancer Center e observership no Princess Margaret Cancer Centre, em Toronto. Dedica-se ao tratamento de tumores gastrointestinais e neuroendócrinos.

Revisor ad hoc do Brazilian Journal of Oncology, revista científica oficial da SBOC, e coautor de pesquisas publicadas em periódicos nacionais e internacionais. Atende em Moema, no Itaim Bibi e online. Conheça a trajetória do Dr. Hugo

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