Receber o resultado de uma biópsia de tumor cerebral pode ser assustador — e mais ainda quando o laudo vem cheio de siglas como IDH-mutante, codeleção 1p/19q, ATRX ou TP53. Esses termos fazem parte da classificação molecular dos gliomas, a forma moderna de entender esses tumores não apenas pela aparência das células ao microscópio, mas pela sua “impressão digital” genética.
Entender a classificação molecular dos gliomas ajuda você e sua família a participarem das decisões sobre o tratamento com mais clareza e menos angústia. Neste artigo, o Dr. Hugo Tanaka explica, de forma acessível, o que cada um desses marcadores significa, por que eles importam tanto e como influenciam o prognóstico. Para uma visão geral antes de continuar, vale ler também o artigo o que é glioma, seus tipos e tratamento.
O que é a classificação molecular dos gliomas
Os gliomas são os tumores cerebrais primários malignos mais comuns em adultos. Eles nascem das células gliais — as células que dão suporte, nutrição e proteção aos neurônios. Durante décadas, esses tumores foram classificados apenas pela aparência das células no microscópio (o exame histológico).
Isso mudou de forma definitiva em 2021. Naquele ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma nova classificação dos tumores do sistema nervoso central que passou a exigir, além do exame ao microscópio, a análise das alterações genéticas do tumor. Em outras palavras: dois tumores que parecem idênticos ao microscópio podem, hoje, receber diagnósticos e prognósticos diferentes dependendo do seu perfil genético. É por isso que a classificação molecular dos gliomas se tornou obrigatória — ela permite um diagnóstico mais preciso, ajuda a prever como o tumor vai se comportar e orienta a escolha do tratamento mais adequado para cada pessoa.
Por que o perfil genético do tumor passou a importar tanto
A grande virada veio em 2008, quando pesquisadores identificaram que muitos gliomas carregavam uma alteração em um gene chamado IDH. Logo se percebeu que essa mutação não era um detalhe: ela é um dos eventos mais precoces na formação do tumor e divide os gliomas em grupos com comportamentos muito distintos. A partir daí, ficou claro que cada alteração genética funciona como uma peça de um quebra-cabeça que, montado, revela o tipo exato de glioma, sua agressividade provável e até as terapias às quais ele pode responder melhor. Essa é a essência da classificação molecular dos gliomas.
Os principais marcadores moleculares explicados de forma simples
A seguir, os marcadores que mais aparecem nos laudos — e o que cada um significa na prática.
Mutação IDH (a divisória de águas)
A presença ou ausência da mutação no gene IDH (isocitrato desidrogenase) é o marcador mais importante. De maneira geral:
- IDH-mutante: tende a ocorrer em pessoas mais jovens, costuma crescer mais devagar e está associado a um prognóstico mais favorável. Inclui os astrocitomas e os oligodendrogliomas.
- IDH-selvagem (sem a mutação): é a marca do glioblastoma, o glioma mais agressivo em adultos.
Para entender melhor essa fronteira, leia as diferenças entre glioma e glioblastoma.
Codeleção 1p/19q (a assinatura do oligodendroglioma)
A codeleção 1p/19q é a perda simultânea de dois pedaços de cromossomos (chamados 1p e 19q). Esse achado, sempre acompanhado da mutação IDH, define o oligodendroglioma — um glioma que geralmente responde bem à quimioterapia e tem prognóstico relativamente melhor. Quando o tumor tem IDH mutado, mas não tem a codeleção, trata-se de um astrocitoma.
ATRX e TP53 (marcadores do astrocitoma)
As alterações nos genes ATRX e TP53 costumam andar juntas e são típicas dos astrocitomas com mutação IDH. O TP53 é conhecido como o “guardião do genoma”, porque normalmente protege a célula contra danos no DNA; quando ele falha, o tumor ganha vantagem para crescer. Para aprofundar, veja o artigo sobre o astrocitoma e suas diferenças em relação ao glioblastoma.
TERT, EGFR e CDKN2A/B (marcadores de agressividade)
Alguns marcadores ajudam a identificar tumores mais agressivos:
- Mutação do promotor TERT, amplificação do gene EGFR e o ganho do cromossomo 7 combinado à perda do cromossomo 10 (+7/−10) estão fortemente ligados ao glioblastoma IDH-selvagem. Pela classificação atual, certos tumores que parecem de grau mais baixo ao microscópio podem ser classificados como glioblastoma só pela presença dessas alterações.
- Deleção do CDKN2A/B: quando presente, indica comportamento mais agressivo e, nos astrocitomas IDH-mutantes, define o grau 4 mesmo quando a aparência ao microscópio sugeriria um grau mais baixo.
Os três grandes grupos de gliomas em adultos
Reunindo essas peças, a classificação molecular dos gliomas organiza a maioria dos casos em adultos em três grandes grupos:
- Astrocitoma IDH-mutante — IDH mutado, com alterações em ATRX/TP53, sem codeleção 1p/19q. Atinge adultos mais jovens e tem prognóstico melhor que o glioblastoma.
- Oligodendroglioma IDH-mutante com codeleção 1p/19q — o grupo com melhor resposta à quimioterapia entre os gliomas.
- Glioblastoma IDH-selvagem — o mais agressivo e mais comum em adultos acima dos 50 anos.
Vale uma observação que costuma gerar confusão: tipo molecular e grau são duas coisas diferentes. Dentro de cada um desses grupos ainda existe um grau (por exemplo, astrocitoma IDH-mutante pode ser grau 2, 3 ou 4), e é a combinação do tipo molecular com o grau que define, na prática, o prognóstico e o tratamento. Para entender o que esperar em cada etapa do tratamento do glioblastoma, veja o artigo dedicado.
E os gliomas em crianças e adultos jovens?
Os gliomas que ocorrem principalmente em crianças e jovens — chamados de “tipo pediátrico” — têm bases genéticas diferentes dos tumores de adultos, mesmo quando parecem semelhantes ao microscópio. Um exemplo importante é o glioma difuso da linha média, H3 K27-alterado, que envolve alterações em genes das histonas (as proteínas que organizam o DNA). Por definição, ele é classificado como grau 4 e tem prognóstico reservado, independentemente da aparência ao microscópio. Por isso, a classificação molecular dos gliomas pediátricos é feita de forma separada na classificação da OMS.
O que esses marcadores significam para o tratamento e o prognóstico
Os marcadores moleculares não servem apenas para nomear o tumor — eles ajudam a guiar decisões reais:
- Definem qual é o diagnóstico exato e, portanto, qual protocolo seguir.
- Ajudam a estimar o prognóstico de forma individualizada (a mutação IDH, por exemplo, é um sinal favorável).
- Indicam resposta provável a tratamentos. Além da boa sensibilidade do oligodendroglioma à quimioterapia, ganhou destaque o uso de inibidores de IDH — em especial o vorasidenibe (Voranigo), uma terapia-alvo oral aprovada para gliomas de grau 2 com mutação IDH (astrocitoma ou oligodendroglioma) após a cirurgia. No estudo de fase 3 INDIGO, o vorasidenibe mais que dobrou o tempo sem progressão da doença (de cerca de 11 para 28 meses) em comparação ao placebo, permitindo adiar a radioterapia e a quimioterapia em casos selecionados. A evidência em tumores de grau 3 e 4 ainda é limitada.
- Orientam a escolha da quimioterapia. A metilação do promotor MGMT, por exemplo, indica maior chance de resposta ao quimioterápico temozolomida — informação especialmente útil no glioblastoma.
- Orientam o acompanhamento, já que algumas alterações sinalizam maior risco de o tumor voltar de forma mais agressiva.
Vale lembrar: nenhum marcador, sozinho, decide tudo. A conduta sempre combina o perfil molecular com a idade, o estado clínico, a localização do tumor e a extensão da cirurgia, em avaliação por uma equipe multidisciplinar.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), os tumores do sistema nervoso central representam cerca de 4% de todos os cânceres diagnosticados no Brasil, com aproximadamente 11.100 novos casos por ano. Diretrizes de entidades como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), a American Society of Clinical Oncology (ASCO / Cancer.Net), a American Cancer Society e o National Cancer Institute (NIH)reforçam que a análise molecular é hoje parte essencial do diagnóstico de gliomas.
Perguntas frequentes sobre a classificação molecular dos gliomas
O que significa glioma IDH-mutante?
Significa que o tumor possui uma mutação no gene IDH. Esse achado caracteriza astrocitomas e oligodendrogliomas, costuma surgir em pessoas mais jovens e, em geral, está associado a um prognóstico mais favorável do que o glioblastoma IDH-selvagem.
O que é a codeleção 1p/19q no glioma?
É a perda simultânea de partes dos cromossomos 1p e 19q. Quando aparece junto da mutação IDH, define o diagnóstico de oligodendroglioma — um glioma que costuma responder bem à quimioterapia.
Qual a diferença entre glioblastoma e astrocitoma na nova classificação?
A principal diferença é molecular: o astrocitoma tem mutação IDH (IDH-mutante), enquanto o glioblastoma não tem (IDH-selvagem). Por isso, hoje sabe-se que o glioblastoma não evolui de um astrocitoma de baixo grau, como se pensava antigamente.
O perfil molecular do glioma muda o tratamento?
Sim. Os marcadores moleculares ajudam a definir o diagnóstico, estimar o prognóstico e orientar a escolha entre cirurgia, radioterapia, quimioterapia e terapias-alvo, como os inibidores de IDH (vorasidenibe) em tumores IDH-mutantes de grau 2.
Glioma com mutação IDH tem melhor prognóstico?
Em geral, sim. A presença da mutação IDH é considerada um marcador de prognóstico favorável em comparação aos gliomas IDH-selvagens. Ainda assim, o prognóstico depende de vários outros fatores combinados.
Como é feito o exame de classificação molecular do glioma?
A análise é feita em uma amostra do tumor retirada durante a cirurgia ou biópsia. No laboratório, técnicas de imuno-histoquímica e biologia molecular identificam mutações (como IDH e TP53), perdas cromossômicas (como a codeleção 1p/19q) e, em alguns casos, o perfil de metilação do DNA.
O que é metilação do MGMT e por que importa?
A metilação do gene MGMT é um marcador que indica maior chance de resposta ao quimioterápico temozolomida, especialmente no glioblastoma. Por isso, costuma ser avaliado para ajudar a planejar o tratamento.