Tratamento do glioblastoma: o que esperar em cada etapa

O glioblastoma é o tumor cerebral primário mais agressivo em adultos. Receber esse diagnóstico é impactante — mas entender as opções de tratamento pode ajudar você e sua família a tomar decisões mais seguras. Neste artigo, explicamos de forma clara como funciona o tratamento do glioblastoma, quais etapas são esperadas e o que a ciência oferece hoje.

O tratamento do glioblastoma é um dos maiores desafios da oncologia moderna. O glioblastoma — também chamado de GBM ou glioblastoma multiforme — é o tumor cerebral primário mais comum e mais agressivo em adultos. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), os tumores do sistema nervoso central representam aproximadamente 4% de todos os cânceres diagnosticados no Brasil, com cerca de 11.100 novos casos estimados por ano. O glioblastoma responde pela parcela mais significativa dos casos de alto grau.

Se você ou alguém próximo recebeu esse diagnóstico, é natural sentir medo, dúvidas e uma necessidade urgente de informação. Este artigo explica, em linguagem acessível, como é feito o tratamento do glioblastoma, quais etapas são esperadas e o que as diretrizes médicas internacionais recomendam. Para entender melhor o que é esse tumor e como ele se manifesta, confira também o artigo sobre câncer de cérebro: tipos e características disponível neste site.

O que é o glioblastoma e por que seu tratamento é complexo?

O glioblastoma é classificado como tumor de grau IV pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o que significa que possui células altamente agressivas e de crescimento rápido. Diferente de outros tumores, o GBM não forma uma massa isolada e bem delimitada: ele emite ramificações microscópicas que invadem o tecido cerebral saudável ao redor, tornando impossível sua remoção cirúrgica completa.

Por isso, o tratamento do glioblastoma é sempre multimodal, ou seja, combina diferentes abordagens — cirurgia, radioterapia e quimioterapia — de forma coordenada. Essa estratégia é padronizada internacionalmente por entidades como a American Society of Clinical Oncology (ASCO) e a European Society for Medical Oncology (ESMO), além de ser seguida pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Cirurgia: o primeiro passo no tratamento do glioblastoma

A cirurgia é, na maioria dos casos, o ponto de partida do tratamento do glioblastoma. O objetivo principal é remover a maior quantidade possível do tumor — o que os médicos chamam de ressecção máxima segura — sem causar danos às funções cerebrais essenciais do paciente, como fala, movimento e memória.

Estudos demonstram que quanto mais completa for a remoção da parte visível do tumor (ao menos 98% da área realçada na ressonância magnética com contraste), maior tende a ser a sobrevida do paciente. Isso não significa cura — as células microscópicas permanecem — mas reduz significativamente a carga tumoral antes das próximas etapas do tratamento.

Tipos de cirurgia para glioblastoma

Craniotomia convencional: é o procedimento mais realizado. O neurocirurgião abre parte do crânio para acessar e remover o tumor. Pode durar de 4 a 12 horas, dependendo da localização e complexidade. O tempo médio de internação é de 3 a 4 dias.

Craniotomia com o paciente acordado (awake craniotomy): indicada quando o tumor está próximo a áreas do cérebro responsáveis pela fala ou movimento. O paciente é acordado durante parte da cirurgia para interagir com a equipe e garantir que funções essenciais sejam preservadas.

Craniotomia com RM intraoperatória: permite ao cirurgião visualizar em tempo real o quanto do tumor foi removido, aumentando a precisão da ressecção.

Cirurgia guiada por fluorescência: o paciente ingere uma substância que é absorvida pelas células tumorais antes da cirurgia. Essas células ficam rosas sob luz especial, ajudando o cirurgião a distinguir tumor de tecido saudável.

Terapia térmica por laser (LITT): opção minimamente invasiva para tumores em localizações de difícil acesso ou que não respondem à radiocirurgia. O procedimento é feito por uma pequena incisão no couro cabeludo e costuma exigir apenas uma noite de internação.

Saiba mais sobre os sintomas de tumor cerebral que costumam anteceder o diagnóstico.

Radioterapia no tratamento do glioblastoma

Após a cirurgia, e após um período de recuperação de aproximadamente 2 a 4 semanas, o paciente inicia a radioterapia combinada com quimioterapia — etapa conhecida como radioquimioterapia concomitante. Esse padrão foi estabelecido como o tratamento do glioblastoma de referência a partir de um estudo fundamental publicado em 2005 (protocolo de Stupp), adotado mundialmente até hoje.

A modalidade mais utilizada é a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), que direciona múltiplos feixes de radiação com intensidades diferentes diretamente sobre a região do tumor, preservando ao máximo o tecido cerebral saudável.

Como funciona o tratamento com radioterapia

Antes de iniciar as sessões, o paciente passa por uma simulação com tomografia, durante a qual é confeccionada uma máscara termoplástica personalizada que mantém a cabeça na posição exata a cada sessão. O tratamento dura em média 6 semanas, com sessões de segunda a sexta-feira. Cada sessão tem duração total de cerca de 30 minutos, sendo a irradiação propriamente dita realizada em apenas 5 a 10 minutos.

Os efeitos colaterais mais comuns na segunda metade do tratamento incluem fadiga, queda de cabelo na área irradiada, leve irritação da pele e, em alguns casos, inchaço cerebral temporário que pode intensificar sintomas neurológicos. Na maioria das vezes, esses efeitos são transitórios e manejáveis com medicações.

Quimioterapia: temozolomida no tratamento do glioblastoma

O quimioterápico padrão no tratamento do glioblastoma é a temozolomida (TMZ), administrada em comprimidos. Ela é usada de duas formas: durante as 6 semanas de radioterapia (fase concomitante) e, depois, em ciclos mensais por até 6 meses (fase de manutenção). Ao contrário do que muitos pensam, a temozolomida geralmente não causa queda de cabelo significativa — efeito esse associado a outros quimioterápicos.

Pacientes cujo tumor apresenta a metilação do promotor MGMT — uma característica molecular detectada pelo exame anatomopatológico — tendem a responder melhor à temozolomida. Essa informação é obtida na biópsia e pode influenciar as decisões sobre o tratamento. Segundo o National Cancer Institute (NIH), a análise molecular do tumor é uma etapa essencial para orientar o tratamento personalizado.

Os efeitos colaterais mais comuns da quimioterapia incluem náuseas, fadiga, alterações no sangue (redução de plaquetas e leucócitos) e maior suscetibilidade a infecções. Por isso, exames de sangue são realizados regularmente durante o tratamento para ajustar as doses quando necessário.

Para entender mais sobre o papel dos tratamentos sistêmicos, veja o artigo sobre câncer cerebral: sintomas, diagnóstico e opções de tratamento.

Campos elétricos alternados (tumor treating fields)

Outra modalidade aprovada para o tratamento do glioblastoma recém-diagnosticado é o uso de campos elétricos alternados (TTFields), também chamados de campos de tratamento tumoral. O dispositivo consiste em uma touca adesiva aplicada ao couro cabeludo raspado, conectada a um aparelho portátil que emite ondas de radiofrequência capazes de interferir na divisão das células tumorais.

O paciente deve usar o equipamento por pelo menos 18 horas por dia para obter benefício. Os efeitos colaterais são geralmente leves: irritação do couro cabeludo e sensação de formigamento. Estudos clínicos mostraram que essa terapia, quando associada à temozolomida de manutenção, aumenta o tempo de sobrevida em comparação ao uso isolado de quimioterapia.

Tratamento do glioblastoma recorrente

Infelizmente, todos os glioblastomas recorrem em algum momento. O tumor retorna porque células microscópicas sempre permanecem após a cirurgia e o tratamento. Quando isso acontece, a equipe médica reavalia as opções disponíveis: uma nova cirurgia, radioterapia paliativa para controle de sintomas, quimioterapia alternativa ou participação em ensaios clínicos.

Para o glioblastoma recorrente, não existe um padrão universalmente estabelecido, e as decisões são individualizadas. Grandes centros de referência em oncologia cerebral oferecem programas extensos de ensaios clínicos para essa situação, incluindo imunoterapia e tratamentos personalizados baseados nas características moleculares do tumor.

No Brasil, pacientes podem buscar informações sobre ensaios clínicos disponíveis através da SBOC e do sistema de registro de pesquisas do Ministério da Saúde. Além disso, a plataforma da American Cancer Society oferece recursos em inglês sobre ensaios clínicos internacionais acessíveis a pacientes brasileiros.

Cuidados de suporte durante o tratamento do glioblastoma

A qualidade de vida durante o tratamento é tão importante quanto o controle do tumor. A equipe de suporte multidisciplinar — incluindo neurologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e nutricionistas — desempenha papel fundamental desde o diagnóstico.

  • Reabilitação motora e de fala: muitos pacientes iniciam fisioterapia e fonoaudiologia já no dia seguinte à cirurgia.
  • Corticosteroides: frequentemente utilizados para controlar o edema cerebral e aliviar sintomas neurológicos durante o tratamento.
  • Anticonvulsivantes: indicados para pacientes que tiveram crises epilépticas como manifestação da doença.
  • Suporte nutricional: pacientes em tratamento oncológico têm necessidades nutricionais específicas. Um nutricionista oncológico deve integrar a equipe.
  • Suporte psicológico: o diagnóstico impacta também os familiares. O apoio psicológico é recomendado para toda a família.

Leia também: Mitos comuns sobre o glioblastoma — desvendando verdades.

Perspectivas e avanços no tratamento do glioblastoma

A pesquisa no campo do tratamento do glioblastoma avança rapidamente. Estudos em imunoterapia, vacinas tumorais, terapias com células CAR-T e vírus oncolíticos estão em andamento em centros de referência ao redor do mundo. Embora nenhum desses tratamentos seja ainda considerado padrão, os resultados iniciais de alguns ensaios são promissores.

A American Brain Tumor Association (ABTA) mantém um banco de dados atualizado sobre pesquisas e ensaios clínicos para glioblastoma. No Brasil, a busca por uma segunda opinião médica especializada pode ser determinante para identificar opções de tratamento mais atualizadas e adequadas ao perfil individual do tumor.

Entender o funcionamento do câncer metastático — embora o glioblastoma raramente se dissemine para fora do sistema nervoso central — pode ajudar a compreender os conceitos gerais da biologia tumoral e as razões pelas quais o tratamento multimodal é necessário.

Perguntas frequentes sobre o tratamento do glioblastoma

1. O glioblastoma tem cura?

Até o momento, o glioblastoma não tem cura estabelecida. O objetivo do tratamento é aumentar ao máximo o tempo de sobrevida com qualidade de vida. Alguns pacientes vivem anos além do prognóstico médio com tratamento adequado e acompanhamento rigoroso. A pesquisa médica está em constante evolução, e novos tratamentos surgem a partir de ensaios clínicos.

2. Qual é a sobrevida média de quem tem glioblastoma?

Com o tratamento padrão atual (cirurgia + radioterapia + temozolomida), a mediana de sobrevida é de aproximadamente 14 a 16 meses. Porém, uma parcela de pacientes — especialmente aqueles com metilação do MGMT — apresenta sobrevida significativamente maior, chegando a 2 anos ou mais. Cada caso é único.

3. Qual remédio é usado para tratar o glioblastoma?

O quimioterápico padrão é a temozolomida (TMZ), usada em comprimidos durante e após a radioterapia. Em casos selecionados, outros esquemas de quimioterapia como bevacizumabe, CCNU (lomustina) ou PCV podem ser utilizados, especialmente em recidivas. A terapia com campos elétricos alternados (TTFields) também é aprovada como complemento.

4. O glioblastoma é sempre fatal?

O glioblastoma é um tumor de alta gravidade e com prognóstico desafiador. No entanto, não é correto afirmar que todos os casos evoluem da mesma forma. Fatores como idade do paciente, estado clínico geral, extensão da ressecção cirúrgica e características moleculares do tumor influenciam diretamente no prognóstico. Há casos documentados de sobreviventes de longo prazo.

5. Celular causa glioblastoma?

Não há evidência científica que comprove relação causal entre o uso de celular e o desenvolvimento de glioblastoma. Múltiplos estudos de grande porte falharam em demonstrar essa associação. A taxa de diagnósticos de glioblastoma permaneceu estável ao longo das décadas, mesmo com o crescimento exponencial do uso de telefones celulares.

6. O glioblastoma é hereditário?

Na grande maioria dos casos, o glioblastoma surge de forma espontânea, sem relação com herança genética familiar. Apenas em síndromes genéticas muito raras, como a síndrome de Li-Fraumeni, existe risco aumentado de tumores cerebrais. O diagnóstico de glioblastoma em um familiar não representa, por si só, aumento de risco para outros membros da família.

7. Quais são os primeiros sintomas do glioblastoma?

Os sintomas variam conforme a localização do tumor. Os mais comuns incluem dor de cabeça persistente (especialmente pela manhã), convulsões de início recente em adultos, fraqueza progressiva de um lado do corpo, alterações de memória ou comportamento e dificuldade na fala. Para conhecer os sinais de alerta com mais detalhes, acesse: Sintomas de câncer cerebral — sinais de alerta.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

Matérias relacionadas

Olá! Para mais informações, preencha seu nome e e-mail para iniciar uma conversa.