A garganta é o caminho por onde passam tanto o ar que respiramos quanto os alimentos que engolimos. O termo câncer de garganta reúne tumores que se desenvolvem em quatro regiões distintas: a orofaringe (parte média, que inclui as amígdalas, o palato mole e a base da língua); a nasofaringe (localizada atrás do nariz); a hipofaringe (parte inferior, próxima ao esôfago); e a laringe, popularmente conhecida como “caixa de voz”. A grande maioria desses tumores é do tipo carcinoma de células escamosas, que se origina no revestimento interno dessas estruturas. Segundo o National Cancer Institute (NIH), a localização exata do tumor influencia diretamente o tratamento e o prognóstico.

Por afetar funções essenciais como falar, respirar e engolir, esses tumores fazem parte do grupo dos cânceres de cabeça e pescoço. No Brasil, os números reforçam a importância do tema: segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP), estima-se cerca de 39.550 novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano no triênio 2023–2025, somando cavidade oral, laringe e tireoide. Boa parte dos diagnósticos ainda acontece em fases avançadas, o que reforça o valor de reconhecer os sinais cedo.
Como a garganta abrange várias regiões, o câncer de garganta não é uma doença única: entender qual delas foi afetada é fundamental, porque cada tipo tem características, causas e tratamentos próprios.
Os sintomas podem ser confundidos com infecções comuns, como uma dor de garganta prolongada. Por isso, qualquer alteração que persista por mais de duas a três semanas merece avaliação médica. Alguns dos sinais que podem indicar a doença são:
Alguns sinais exigem avaliação mais urgente, sem esperar as duas semanas: dificuldade progressiva para engolir, emagrecimento sem causa, alteração persistente da voz e sangramento devem ser investigados com prioridade. Ter um desses sintomas não significa, necessariamente, ter câncer — mas apenas o médico pode esclarecer a causa.
A doença é mais comum em homens, geralmente diagnosticado após os 50 anos — embora os tumores relacionados ao HPV possam surgir em adultos mais jovens, não fumantes e não etilistas. Os principais fatores de risco para desenvolver a doença são:
A investigação começa com o exame clínico e a nasofibrolaringoscopia: um aparelho fino e flexível, introduzido pelo nariz, permite visualizar diretamente a faringe e a laringe no próprio consultório. A confirmação vem sempre pela biópsia, único exame capaz de comprovar o diagnóstico. Nos tumores de orofaringe, o teste de HPV (p16 por imuno-histoquímica) é indicado, pois define o estadiamento e o prognóstico.
Exames de imagem como tomografia computadorizada, ressonância magnética e PET-CT ajudam a avaliar a extensão do tumor e a presença de metástases. Como não há política de rastreamento populacional para esses tumores, o diagnóstico precoce depende de procurar o médico assim que surgirem sintomas persistentes.
Sim, boa parte dos casos pode ser evitada. A vacinação contra o HPV — disponível gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos — é a estratégia mais eficaz de prevenção dos tumores de orofaringe. Além disso, não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool e manter acompanhamento médico e odontológico regular reduzem significativamente o risco. Tumores próximos, como o câncer de boca e o câncer de esôfago, compartilham vários desses fatores de risco.
Para determinar o estágio da doença, o médico avalia três características: a extensão do tumor (T), a presença ou não de células cancerosas nos linfonodos do pescoço (N) e se há metástase em órgãos distantes (M). A combinação desses fatores define estágios que vão de 0 a IV:
Uma observação importante: os tumores de orofaringe associados ao HPV têm um sistema de estadiamento próprio e, em geral, apresentam prognóstico melhor do que os tumores não relacionados ao vírus. Após o tratamento, o acompanhamento é intenso nos primeiros anos, com consultas e exames periódicos para detectar precocemente qualquer recorrência.
Desde o diagnóstico, o tratamento do câncer de garganta requer uma equipe multidisciplinar. Entre os profissionais que costumam acompanhar o paciente estão oncologistas clínicos, radioterapeutas, cirurgiões de cabeça e pescoço, dentistas, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos. A escolha da estratégia depende da localização, do estágio e do estado geral de cada pessoa.
Em tumores iniciais, a cirurgia pode ser o único tratamento necessário. Técnicas modernas, como a cirurgia robótica transoral (TORS) e a microcirurgia a laser, buscam remover o tumor preservando ao máximo a fala e a deglutição. Quando há linfonodos comprometidos, pode ser feito o esvaziamento cervical (retirada dos gânglios do pescoço).
A radioterapia é uma das principais armas contra esse tumor e, muitas vezes, permite preservar o órgão. Pode ser usada isoladamente em tumores iniciais ou combinada à quimioterapia em casos mais avançados. A técnica de intensidade modulada (IMRT) concentra a dose no tumor, poupando tecidos saudáveis ao redor.
A quimioterapia costuma ser associada à radioterapia nos tumores localmente avançados, potencializando o efeito do tratamento. Em situações selecionadas, pode ser usada antes das demais terapias para reduzir o volume do tumor.
A terapia-alvo atua sobre moléculas específicas das células tumorais. Nesses tumores, o principal representante é o cetuximabe, um anticorpo dirigido contra a proteína EGFR, empregado em casos selecionados, em associação à radioterapia ou em doença avançada.
A imunoterapia fortalece as defesas do próprio organismo contra o câncer. Os inibidores de checkpoint imunológico são uma das frentes mais promissoras, especialmente em tumores avançados ou que retornaram após o tratamento inicial.
Nos tumores associados ao HPV, que respondem muito bem, há estudos de “desintensificação” do tratamento — que buscam manter as altas taxas de cura reduzindo os efeitos colaterais a longo prazo. Diretrizes de instituições como a ASCO, a American Cancer Society e a SBOC orientam essas decisões.
Sim. Quando diagnosticado em estágios iniciais, a doença apresenta altas chances de cura. Tumores associados ao HPV, em especial, costumam responder muito bem ao tratamento. O diagnóstico precoce é o fator mais importante para um bom resultado.
Os sinais iniciais mais comuns são um caroço indolor no pescoço, dor de garganta ou de ouvido em apenas um lado que não melhora, rouquidão persistente e dificuldade para engolir. Sintomas que duram mais de duas a três semanas devem ser avaliados.
Não. O câncer em si não é transmitido de pessoa para pessoa. O que pode ser transmitido é o HPV, um vírus muito comum que, em alguns casos, aumenta o risco de câncer de orofaringe anos depois. A vacina contra o HPV ajuda a prevenir essa situação.
A grande maioria das dores de garganta é causada por infecções e melhora em poucos dias. Porém, uma dor persistente por mais de duas a três semanas, sobretudo se for de um lado só e associada a rouquidão ou caroço no pescoço, merece avaliação médica.
Pessoas que fumam, consomem álcool em excesso ou foram infectadas pelo HPV têm risco aumentado. Homens acima dos 50 anos também são mais afetados. Ainda assim, tumores relacionados ao HPV podem surgir em adultos mais jovens e sem esses hábitos.
O diagnóstico começa com o exame clínico e a nasofibrolaringoscopia, que visualiza a região por dentro. A confirmação vem sempre pela biópsia, complementada por exames de imagem como tomografia, ressonância e PET-CT para avaliar a extensão da doença.
A vacina protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer de orofaringe e é a principal ferramenta de prevenção. É mais eficaz quando aplicada antes do início da vida sexual, por isso o SUS a oferece a adolescentes de 9 a 14 anos.

