Tipos de câncer

Câncer de Garganta

O HPV, o tabagismo e o consumo de álcool estão entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença

A garganta é o caminho por onde passam tanto o ar que respiramos quanto os alimentos que engolimos. O termo câncer de garganta reúne tumores que se desenvolvem em quatro regiões distintas: a orofaringe (parte média, que inclui as amígdalas, o palato mole e a base da língua); a nasofaringe (localizada atrás do nariz); a hipofaringe (parte inferior, próxima ao esôfago); e a laringe, popularmente conhecida como “caixa de voz”. A grande maioria desses tumores é do tipo carcinoma de células escamosas, que se origina no revestimento interno dessas estruturas. Segundo o National Cancer Institute (NIH), a localização exata do tumor influencia diretamente o tratamento e o prognóstico.

Ilustração anatômica da faringe dividida em nasofaringe, orofaringe, hipofaringe e laringe, mostrando a localização de cada região no trato aerodigestivo superior.
As quatro regiões da faringe: a nasofaringe (atrás da cavidade nasal), a orofaringe (amígdalas, palato mole e base da língua), a hipofaringe (transição para o esôfago) e a laringe (a “caixa de voz”).

Por afetar funções essenciais como falar, respirar e engolir, esses tumores fazem parte do grupo dos cânceres de cabeça e pescoço. No Brasil, os números reforçam a importância do tema: segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP), estima-se cerca de 39.550 novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano no triênio 2023–2025, somando cavidade oral, laringe e tireoide. Boa parte dos diagnósticos ainda acontece em fases avançadas, o que reforça o valor de reconhecer os sinais cedo.

Tipos de câncer de garganta

Como a garganta abrange várias regiões, o câncer de garganta não é uma doença única: entender qual delas foi afetada é fundamental, porque cada tipo tem características, causas e tratamentos próprios.

  • Câncer de orofaringe: parte média da garganta, que inclui as amígdalas, o palato mole e a base da língua. É hoje o tipo com maior crescimento de casos, principalmente por sua relação com o HPV;
  • Câncer de nasofaringe: localizado atrás do nariz. É raro no Brasil, mais frequente em algumas regiões da Ásia e associado à infecção pelo vírus Epstein-Barr;
  • Câncer de hipofaringe: fica na parte inferior da garganta, próxima ao esôfago. Costuma ser diagnosticado em fases mais avançadas e, muitas vezes, é tratado de forma semelhante ao tumor de laringe;
  • Câncer de laringe: afeta a “caixa de voz”. A rouquidão persistente costuma ser um dos primeiros sinais, e o tabagismo e o álcool são os principais fatores de risco.

Sintomas do câncer de garganta

Os sintomas podem ser confundidos com infecções comuns, como uma dor de garganta prolongada. Por isso, qualquer alteração que persista por mais de duas a três semanas merece avaliação médica. Alguns dos sinais que podem indicar a doença são:

  • Caroço indolor no pescoço — muitas vezes o primeiro e único sinal; entenda melhor em nosso artigo sobre caroço no pescoço;
  • Dor de garganta persistente, frequentemente de um lado só;
  • Dor de ouvido unilateral sem causa aparente (otalgia reflexa);
  • Rouquidão ou alteração da voz por mais de duas a três semanas;
  • Dificuldade ou dor para engolir (disfagia e odinofagia);
  • Sensação de “bolo” ou corpo estranho na garganta;
  • Sangramento pela boca ou garganta;
  • Perda de peso involuntária.

Alguns sinais exigem avaliação mais urgente, sem esperar as duas semanas: dificuldade progressiva para engolir, emagrecimento sem causa, alteração persistente da voz e sangramento devem ser investigados com prioridade. Ter um desses sintomas não significa, necessariamente, ter câncer — mas apenas o médico pode esclarecer a causa.

Fatores de risco do câncer de garganta

A doença é mais comum em homens, geralmente diagnosticado após os 50 anos — embora os tumores relacionados ao HPV possam surgir em adultos mais jovens, não fumantes e não etilistas. Os principais fatores de risco para desenvolver a doença são:

  • Infecção pelo HPV (papilomavírus humano): principal causa do aumento de casos de câncer de orofaringe nas últimas décadas;
  • Tabagismo: cigarro, charuto, cachimbo e tabaco mascado aumentam muito o risco de tumores de laringe e faringe;
  • Consumo de álcool: segundo o INCA, o álcool está associado a sete tipos de câncer, incluindo os de garganta e laringe;
  • Tabaco associado ao álcool: a combinação potencializa o risco de forma expressiva;
  • Vírus Epstein-Barr: relacionado especificamente ao câncer de nasofaringe;
  • Refluxo crônico e exposições ocupacionais (poeiras e substâncias químicas), sobretudo para a laringe;
  • Histórico de outros cânceres de cabeça e pescoço.

Diagnóstico do câncer de garganta

A investigação começa com o exame clínico e a nasofibrolaringoscopia: um aparelho fino e flexível, introduzido pelo nariz, permite visualizar diretamente a faringe e a laringe no próprio consultório. A confirmação vem sempre pela biópsia, único exame capaz de comprovar o diagnóstico. Nos tumores de orofaringe, o teste de HPV (p16 por imuno-histoquímica) é indicado, pois define o estadiamento e o prognóstico.

Exames de imagem como tomografia computadorizada, ressonância magnética e PET-CT ajudam a avaliar a extensão do tumor e a presença de metástases. Como não há política de rastreamento populacional para esses tumores, o diagnóstico precoce depende de procurar o médico assim que surgirem sintomas persistentes.

É possível prevenir?

Sim, boa parte dos casos pode ser evitada. A vacinação contra o HPV — disponível gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos — é a estratégia mais eficaz de prevenção dos tumores de orofaringe. Além disso, não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool e manter acompanhamento médico e odontológico regular reduzem significativamente o risco. Tumores próximos, como o câncer de boca e o câncer de esôfago, compartilham vários desses fatores de risco.

Estágios do Câncer

Para determinar o estágio da doença, o médico avalia três características: a extensão do tumor (T), a presença ou não de células cancerosas nos linfonodos do pescoço (N) e se há metástase em órgãos distantes (M). A combinação desses fatores define estágios que vão de 0 a IV:

  • Estágio 0 (carcinoma in situ): as células anormais estão restritas à camada mais superficial, sem invadir tecidos vizinhos;
  • Estágios I e II: tumores iniciais, geralmente pequenos e localizados, sem comprometimento de linfonodos;
  • Estágio III: tumores maiores ou já com um linfonodo acometido do mesmo lado do pescoço;
  • Estágio IV: doença localmente avançada (invasão de estruturas vizinhas ou vários linfonodos) ou com metástase a distância.

Uma observação importante: os tumores de orofaringe associados ao HPV têm um sistema de estadiamento próprio e, em geral, apresentam prognóstico melhor do que os tumores não relacionados ao vírus. Após o tratamento, o acompanhamento é intenso nos primeiros anos, com consultas e exames periódicos para detectar precocemente qualquer recorrência.

Tratamento do câncer de garganta

Desde o diagnóstico, o tratamento do câncer de garganta requer uma equipe multidisciplinar. Entre os profissionais que costumam acompanhar o paciente estão oncologistas clínicos, radioterapeutas, cirurgiões de cabeça e pescoço, dentistas, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos. A escolha da estratégia depende da localização, do estágio e do estado geral de cada pessoa.

Cirurgia

Em tumores iniciais, a cirurgia pode ser o único tratamento necessário. Técnicas modernas, como a cirurgia robótica transoral (TORS) e a microcirurgia a laser, buscam remover o tumor preservando ao máximo a fala e a deglutição. Quando há linfonodos comprometidos, pode ser feito o esvaziamento cervical (retirada dos gânglios do pescoço).

Radioterapia

A radioterapia é uma das principais armas contra esse tumor e, muitas vezes, permite preservar o órgão. Pode ser usada isoladamente em tumores iniciais ou combinada à quimioterapia em casos mais avançados. A técnica de intensidade modulada (IMRT) concentra a dose no tumor, poupando tecidos saudáveis ao redor.

Quimioterapia

A quimioterapia costuma ser associada à radioterapia nos tumores localmente avançados, potencializando o efeito do tratamento. Em situações selecionadas, pode ser usada antes das demais terapias para reduzir o volume do tumor.

Terapia-alvo ou direcionada

A terapia-alvo atua sobre moléculas específicas das células tumorais. Nesses tumores, o principal representante é o cetuximabe, um anticorpo dirigido contra a proteína EGFR, empregado em casos selecionados, em associação à radioterapia ou em doença avançada.

Imunoterapia

A imunoterapia fortalece as defesas do próprio organismo contra o câncer. Os inibidores de checkpoint imunológico são uma das frentes mais promissoras, especialmente em tumores avançados ou que retornaram após o tratamento inicial.

Nos tumores associados ao HPV, que respondem muito bem, há estudos de “desintensificação” do tratamento — que buscam manter as altas taxas de cura reduzindo os efeitos colaterais a longo prazo. Diretrizes de instituições como a ASCO, a American Cancer Society e a SBOC orientam essas decisões.

Perguntas frequentes sobre câncer de garganta

  1. Câncer de garganta tem cura?

Sim. Quando diagnosticado em estágios iniciais, a doença apresenta altas chances de cura. Tumores associados ao HPV, em especial, costumam responder muito bem ao tratamento. O diagnóstico precoce é o fator mais importante para um bom resultado.

  1. Quais são os primeiros sintomas do câncer de garganta?

Os sinais iniciais mais comuns são um caroço indolor no pescoço, dor de garganta ou de ouvido em apenas um lado que não melhora, rouquidão persistente e dificuldade para engolir. Sintomas que duram mais de duas a três semanas devem ser avaliados.

  1. Câncer de garganta é contagioso?

Não. O câncer em si não é transmitido de pessoa para pessoa. O que pode ser transmitido é o HPV, um vírus muito comum que, em alguns casos, aumenta o risco de câncer de orofaringe anos depois. A vacina contra o HPV ajuda a prevenir essa situação.

  1. Dor de garganta que não passa pode ser câncer?

A grande maioria das dores de garganta é causada por infecções e melhora em poucos dias. Porém, uma dor persistente por mais de duas a três semanas, sobretudo se for de um lado só e associada a rouquidão ou caroço no pescoço, merece avaliação médica.

  1. Quem tem maior risco de desenvolver câncer de garganta?

Pessoas que fumam, consomem álcool em excesso ou foram infectadas pelo HPV têm risco aumentado. Homens acima dos 50 anos também são mais afetados. Ainda assim, tumores relacionados ao HPV podem surgir em adultos mais jovens e sem esses hábitos.

  1. Como é feito o diagnóstico do câncer de garganta?

O diagnóstico começa com o exame clínico e a nasofibrolaringoscopia, que visualiza a região por dentro. A confirmação vem sempre pela biópsia, complementada por exames de imagem como tomografia, ressonância e PET-CT para avaliar a extensão da doença.

  1. A vacina contra o HPV previne o câncer de garganta?

A vacina protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer de orofaringe e é a principal ferramenta de prevenção. É mais eficaz quando aplicada antes do início da vida sexual, por isso o SUS a oferece a adolescentes de 9 a 14 anos.

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