Câncer de orofaringe: o que é e como o HPV está relacionado

O câncer de orofaringe — região que inclui amígdalas, base da língua e palato mole — é hoje o tumor de garganta mais frequente, e na maioria dos casos está ligado ao vírus HPV. Saiba como reconhecer os primeiros sinais, quando procurar um oncologista e por que o diagnóstico precoce muda completamente o prognóstico.

Por Dr. Hugo Tanaka — CRM-SP 163.241 | RQE 100.689 — Oncologia Clínica | Atualizado em maio de 2026

O câncer de orofaringe é um tumor que se desenvolve na parte média da garganta — região que abrange as amígdalas (tonsilas palatinas), a base da língua, o palato mole (céu da boca posterior) e as paredes laterais e posteriores da garganta. Nas últimas duas décadas, esse tipo de tumor passou a ser o mais comum entre os cânceres de garganta no mundo, principalmente por causa de sua forte associação com o papilomavírus humano (HPV). Diferentemente do que ocorria há 30 anos — quando tabagismo e álcool dominavam as causas — hoje a maioria dos novos diagnósticos está ligada ao vírus, atinge adultos relativamente jovens (40 a 60 anos) e, felizmente, responde muito bem ao tratamento.

Entender o que é o câncer de orofaringe, reconhecer os sinais de alerta e saber quando buscar um oncologista pode fazer toda a diferença no resultado final. Este guia foi preparado para pacientes e familiares, com linguagem acessível e baseado em evidências de instituições de referência como INCA, National Cancer Institute (NIH) e American Cancer Society.

O que é o câncer de orofaringe?

A orofaringe é a porção média da faringe — o tubo muscular que vai do fundo do nariz até o esôfago. Quando uma pessoa abre bem a boca e a luz incide sobre a parte de trás da cavidade oral, é justamente a orofaringe que aparece. Quase todos os tumores dessa região começam no revestimento mucoso (a camada mais superficial), formado por células chamadas escamosas. Por isso, mais de 90% dos casos correspondem a um subtipo chamado carcinoma espinocelular.

O câncer de orofaringe faz parte de um grupo maior conhecido como tumores de cabeça e pescoço. Para uma visão completa desse grupo, você pode consultar o conteúdo dedicado ao câncer de cabeça e pescoço em nosso site, que aborda também tumores de boca, laringe, tireoide e glândulas salivares. Se ainda há dúvidas mais básicas sobre como tumores se formam, vale a leitura prévia do artigo o que é câncer e como ele se desenvolve.

Câncer de orofaringe e HPV: a principal conexão atual

A relação entre câncer de orofaringe e o HPV (papilomavírus humano) é hoje o aspecto epidemiológico mais relevante dessa doença. Existem mais de 100 subtipos de HPV; a maioria é inofensiva, mas alguns — em especial o HPV 16 — têm capacidade oncogênica, ou seja, podem causar câncer. Quase todas as pessoas entram em contato com o vírus em algum momento da vida, e o sistema imunológico costuma eliminá-lo espontaneamente. Em uma minoria, porém, o vírus persiste por anos no tecido das amígdalas e da base da língua, induzindo mutações genéticas que dão origem ao tumor.

Segundo a American Cancer Society, cerca de 70% dos cânceres de orofaringe nos Estados Unidos estão relacionados ao HPV. No Brasil, dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) também apontam crescimento sustentado de casos HPV-positivos. A boa notícia é que tumores HPV-positivos respondem melhor ao tratamento e têm sobrevida significativamente maior do que os HPV-negativos — fato tão relevante que motivou um sistema de estadiamento próprio, separado dos demais.

A vacina contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS dentro do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, é hoje a estratégia mais eficaz de prevenção primária dessa forma de câncer.

Quais são os sintomas do câncer de orofaringe?

Os sintomas iniciais costumam ser sutis e fáceis de confundir com infecções comuns. Por isso, qualquer alteração que persista por mais de duas a três semanas merece avaliação. Os sinais mais característicos incluem:

  • Caroço indolor no pescoço, geralmente abaixo da mandíbula (linfonodo aumentado por células tumorais);
  • Dor de garganta persistente, frequentemente de um lado só;
  • Dor de ouvido unilateral sem causa aparente (otalgia reflexa);
  • Amígdala assimétrica — uma maior ou com formato diferente da outra;
  • Mancha branca ou avermelhada em amígdala, palato ou base da língua;
  • Dificuldade ou dor para engolir;
  • Sangramento pela boca ou escarro com sangue;
  • Rouquidão prolongada;
  • Perda de peso involuntária.

Em muitos pacientes, o caroço no pescoço é o primeiro e único sinal — fato comum em tumores HPV-positivos, em que o tumor primário pode ser muito pequeno e passar despercebido. Tumores próximos à laringe podem se confundir com câncer de laringe, e tumores anteriores à orofaringe podem ser parte do espectro do câncer de boca — daí a importância da avaliação por um especialista.

Quem tem mais risco?

Os principais fatores de risco para o câncer de orofaringe são:

  • Infecção persistente pelo HPV (especialmente o HPV 16) — atualmente o fator de risco número um;
  • Tabagismo (cigarros, charutos, cachimbo, tabaco mascado);
  • Consumo excessivo de álcool, sobretudo combinado ao tabaco;
  • Sexo masculino (homens têm 4 a 5 vezes mais risco);
  • Idade acima de 40 anos;
  • Múltiplos parceiros sexuais ao longo da vida, pelo aumento da exposição ao HPV;
  • Imunossupressão (transplantados, pacientes com HIV).

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do câncer de orofaringe começa com avaliação clínica detalhada e segue uma sequência bem estabelecida — também explicada de forma acessível pela Associação de Câncer de Boca e Garganta (ACBG Brasil), entidade nacional voltada ao apoio de pacientes com tumores dessa região:

  • Nasofibrolaringoscopia: exame de consultório com uma fibra óptica fina introduzida pelo nariz, que permite visualizar diretamente toda a orofaringe e a laringe;
  • Biópsia: retirada de uma amostra do tumor para análise pelo patologista — único método que confirma o diagnóstico;
  • Teste de HPV (p16 por imuno-histoquímica): obrigatório em todos os tumores de orofaringe, pois define o estadiamento e o prognóstico;
  • Tomografia computadorizada e/ou ressonância magnética do pescoço, para avaliar tamanho do tumor e linfonodos;
  • PET-CT (tomografia por emissão de pósitrons): útil para detectar metástases a distância;
  • Avaliação odontológica e fonoaudiológica antes do tratamento.

Estadiamento: HPV-positivo é diferente

Por sua melhor resposta terapêutica, o câncer de orofaringe HPV-positivo ganhou um sistema de estadiamento próprio, descrito pelo NCI. Um tumor que seria classificado como avançado no sistema antigo pode hoje ser considerado estágio I ou II quando o p16 é positivo — refletindo a grande chance de cura desses casos.

Tratamento do câncer de orofaringe

O tratamento é sempre planejado por uma equipe multidisciplinar (oncologista clínico, radioterapeuta, cirurgião de cabeça e pescoço, fonoaudiólogo, dentista oncológico, nutricionista). As principais modalidades são:

  • Cirurgia robótica transoral (TORS): remove o tumor pela boca, sem cortes externos, com recuperação muito mais rápida — preferida nos tumores iniciais;
  • Radioterapia (IMRT, VMAT ou prótonterapia) — frequentemente combinada com quimioterapia (radioquimioterapia) em tumores localmente avançados;
  • Quimioterapia com cisplatina, geralmente concomitante à radioterapia;
  • Imunoterapia (pembrolizumabe, nivolumabe) — aprovada para casos recorrentes ou metastáticos, conforme as diretrizes da ASCO/Cancer.Net;
  • Terapia-alvo (cetuximabe) em situações selecionadas.

Em tumores HPV-positivos iniciais, há estudos de desintensificação buscando reduzir a dose de radioterapia e a toxicidade sem perder eficácia — um avanço importante para preservar deglutição, voz e qualidade de vida. Quando a doença se dissemina, vale conhecer o que significa o câncer metastático.

Como prevenir

A prevenção do câncer de orofaringe combina três eixos:

  1. Vacinação contra o HPV — disponível gratuitamente no SUS para crianças e adolescentes;
  2. Não fumar e evitar exposição ao tabaco passivo;
  3. Reduzir o consumo de álcool — especialmente associado ao tabaco.

Higiene bucal cuidadosa e consultas odontológicas regulares também ajudam a identificar precocemente lesões suspeitas.

Perguntas frequentes câncer de orofaringe e HPV (FAQ)

1. Câncer de orofaringe tem cura?

Sim. A maioria dos tumores HPV-positivos tem alta taxa de cura — superior a 80% em estágios iniciais. Mesmo casos avançados respondem bem ao tratamento combinado de radioterapia e quimioterapia.

2. O HPV oral sempre causa câncer?

Não. A maioria das infecções pelo HPV é eliminada espontaneamente pelo organismo em 1 a 2 anos. Apenas uma pequena fração das pessoas desenvolve infecção persistente, que é a condição necessária — mas não suficiente — para que o câncer surja décadas depois.

3. Existe exame para detectar HPV na garganta?

Não há rastreamento populacional para HPV oral, pois ainda não existe teste validado para uso preventivo. O HPV é pesquisado apenas no tecido tumoral, depois da biópsia, pelo marcador p16.

4. Beijar pode transmitir HPV e causar câncer de orofaringe?

O HPV oral é transmitido principalmente por contato íntimo, incluindo sexo oral e, com menor frequência, beijos profundos. Mas é importante reforçar: a maioria das pessoas infectadas nunca desenvolverá câncer.

5. Quem teve câncer de orofaringe pode voltar a ter outro?

Sim. Pacientes tratados de câncer de orofaringe têm risco aumentado de desenvolver um segundo tumor de cabeça e pescoço, esôfago ou pulmão — sobretudo se continuarem fumando ou bebendo. Por isso, o acompanhamento oncológico é essencial nos primeiros 5 anos.

6. A vacina contra o HPV serve para adultos?

A indicação prioritária do PNI é para crianças e adolescentes (9–14 anos). Adultos até 45 anos podem se vacinar na rede privada após avaliação médica individual, segundo orientação da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

7. Após o tratamento, posso voltar a comer e falar normalmente?

Na maioria dos casos, sim — especialmente com cirurgia robótica e radioterapia moderna. O acompanhamento com fonoaudiólogo durante e após o tratamento é fundamental para preservar a deglutição e a voz.

Quando procurar um oncologista

Se você apresenta qualquer sintoma persistente — caroço no pescoço, dor de garganta unilateral por mais de 3 semanas, alteração em amígdala ou dor de ouvido sem causa aparente — agende avaliação especializada. O diagnóstico precoce do câncer de orofaringe é o fator mais importante para um tratamento menos agressivo e com maior chance de cura.

Para conhecer outros tipos de tumores e entender melhor os caminhos do tratamento oncológico personalizado, visite a página completa de tipos de câncer do nosso portal.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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