Tumor neuroendócrino avançado: tratamentos sistêmicos que controlam a doença

Entenda como é o tratamento do tumor neuroendócrino avançado e metastático bem diferenciado (graus 1 e 2) de origem gastrointestinal: quando apenas acompanhar, quando usar análogos de somatostatina, a terapia PRRT com Lutécio-177, as terapias-alvo e a cirurgia.

Receber o diagnóstico de um tumor neuroendócrino avançado costuma gerar muitas dúvidas — e uma das primeiras é: “qual será o tratamento?”. A boa notícia é que a maioria desses tumores, quando bem diferenciados e de graus 1 (G1) ou 2 (G2), cresce devagar e responde bem às terapias disponíveis hoje. Mesmo na doença mais extensa, é possível controlar o tumor por anos, preservando a qualidade de vida.

Neste texto, você vai entender, em linguagem clara, como funciona o tratamento do tumor neuroendócrino avançado de origem gastrointestinal — ou seja, o que se faz quando a doença já está localmente avançada ou se espalhou (metástase). Vamos da opção de apenas observar até medicamentos injetáveis, terapia com radioisótopos (PRRT), terapias-alvo e cirurgia. As condutas seguem diretrizes de instituições como o INCA, a SBOC e a ASCO, e devem sempre ser individualizadas pelo seu oncologista.

O que muda quando o tumor neuroendócrino é avançado?

Os tumores neuroendócrinos nascem de células que combinam funções nervosas e hormonais, distribuídas pela parede do tubo digestivo — estômago, intestino delgado, apêndice, cólon e reto. Dizemos que se trata de um tumor neuroendócrino avançado quando ele cresce além do ponto de origem (localmente avançado) ou quando se espalha para outros órgãos, mais comumente o fígado (metastático). Diferentemente do tumor neuroendócrino do pâncreas, que tem comportamento próprio, o de origem gastrointestinal segue regras específicas.

Esses tumores são classificados pela diferenciação (o quanto as células ainda lembram células normais) e pelo grau, medido por um marcador chamado Ki-67. Quando o tumor é bem diferenciado e de grau 1 ou 2, costuma ter comportamento indolente — cresce lentamente, com prognóstico favorável. Para entender a base, veja o que é o tumor neuroendócrino, se ele é benigno ou maligno e conheça o tumor neuroendócrino grau 1.

Como o médico decide o tratamento do tumor neuroendócrino avançado

Não existe um único tratamento para todos os pacientes. A escolha leva em conta três fatores principais:

  • os sintomas que o paciente apresenta;
  • o volume da doença, ou seja, quanto tumor existe no corpo;
  • as características do tumor — em especial se ele possui receptores de somatostatina na superfície.

Esse último ponto é avaliado por um exame de imagem chamado PET-CT com Gálio-68 DOTATATE. Quando o tumor “acende” nesse exame, dizemos que ele é receptor de somatostatina positivo (SSTR-positivo) — e isso abre caminho para tratamentos bastante eficazes.

Quando apenas observar é a melhor escolha

Mesmo em doença avançada, para quem tem pouco volume de tumor e nenhum sintoma, a recomendação pode ser a vigilância ativa, em vez de iniciar tratamento de imediato. Como esses tumores crescem devagar, acompanhar de perto permite conhecer o ritmo da doença e evitar efeitos colaterais desnecessários. Na prática, o oncologista solicita exames de imagem (tomografia ou ressonância) em intervalos definidos — por exemplo, aos 3 e aos 6 meses — e depois os espaça conforme a estabilidade.

Análogos de somatostatina: o tratamento de base

Para a maioria dos pacientes com tumor neuroendócrino avançado SSTR-positivo, com sintomas ou maior volume de doença, o tratamento inicial são os análogos de somatostatina — a octreotida de liberação prolongada (LAR) e a lanreotida, injeções aplicadas, em geral, uma vez por mês.

Eles têm duas funções importantes: controlam o crescimento do tumor e aliviam os sintomas hormonais da síndrome carcinoide, como diarreia e rubor facial. Estudos de grande porte (PROMID e CLARINET) mostraram que aumentam o tempo sem progressão da doença, com poucos efeitos colaterais — os mais comuns são leves, como alterações digestivas e maior chance de cálculos na vesícula.

PRRT com Lutécio-177: radiação que mira o tumor

Quando o tumor é SSTR-positivo, mais ativo (grau 2 mais alto, com Ki-67 entre 10% e 20%) ou volumoso, pode-se acrescentar a PRRT — terapia com radionuclídeos peptídicos usando Lutécio-177 DOTATATE. É uma forma de medicina nuclear: o radioisótopo é acoplado a uma molécula parecida com a somatostatina, que se liga ao tumor e entrega radiação por dentro das células, poupando os tecidos saudáveis.

O estudo NETTER-2 demonstrou que associar a PRRT ao análogo de somatostatina melhora o controle da doença frente a doses altas de octreotida. Entenda em detalhe como funciona a terapia com Lutécio-177 (PRRT).

Everolimo e cabozantinibe: as terapias-alvo

Para tumores que não captam somatostatina (SSTR-negativos) ou que progrediram após outros tratamentos, há duas terapias-alvo em comprimido: o everolimo e o cabozantinibe. Ambos bloqueiam mecanismos que o tumor usa para crescer e formar vasos sanguíneos. Estudos de fase 3 (RADIANT-4 e CABINET) confirmaram que prolongam o tempo sem progressão. Cada um tem seu perfil de efeitos colaterais, discutido caso a caso.

Cirurgia e tratamentos direcionados ao fígado

O fígado é o local mais comum de metástase. Quando a doença está concentrada ali e pode ser removida, a cirurgia (metastasectomia) pode oferecer controle duradouro. Em outros casos, usam-se tratamentos por cateter, como a embolização hepática e a radioembolização. Veja as opções específicas para a metástase hepática de tumor neuroendócrino.

E quando a doença progride? A segunda linha de tratamento

Se o tumor voltar a crescer, o próximo passo depende do que já foi feito:

  • quem usou apenas análogo de somatostatina costuma se beneficiar de acrescentar a PRRT;
  • quem já fez análogo + PRRT pode trocar para uma terapia-alvo (everolimo ou cabozantinibe) ou, em casos selecionados, repetir a PRRT;
  • nos tumores SSTR-negativos ou que progrediram rapidamente, opta-se por everolimo ou cabozantinibe.

Havendo piora dos sintomas hormonais, é possível ajustar a dose do análogo de somatostatina; a diarreia que não cede pode melhorar com um medicamento oral chamado telotristate. Vale destacar que a quimioterapia tradicional raramenteé usada nesses tumores bem diferenciados de graus 1 e 2. Conheça o panorama geral das opções de tratamento dos tumores neuroendócrinos.

Cada tumor neuroendócrino avançado é único. O melhor caminho surge de uma avaliação individualizada, idealmente em equipe multidisciplinar, considerando o tipo de tumor, os sintomas, os exames e os objetivos de cada pessoa. Com as terapias atuais, é realista buscar o controle prolongado da doença e a manutenção da qualidade de vida. Se você ou um familiar recebeu esse diagnóstico, o acompanhamento com um oncologista experiente faz diferença em cada etapa.

Perguntas frequentes sobre tumor neuroendócrino avançado

O tumor neuroendócrino avançado tem cura?

Depende do caso. Quando a doença está concentrada em um local (por exemplo, só no fígado) e pode ser totalmente removida por cirurgia, há chance de cura. Na maioria dos casos avançados ou metastáticos, o objetivo é controlar a doença por longos períodos — e, por crescerem devagar, muitos pacientes convivem bem com o tumor por vários anos.

Qual a expectativa de vida na doença avançada?

Os tumores neuroendócrinos bem diferenciados de graus 1 e 2 têm, em geral, prognóstico favorável, com sobrevida bem melhor do que a de muitos outros cânceres avançados — sobretudo no grau 1. A expectativa varia conforme o grau, a localização e a extensão da doença.

Quais são os sintomas?

Muitos tumores causam poucos sintomas e são descobertos por acaso. Quando surgem, pode haver dor ou desconforto abdominal, alterações intestinais e perda de peso. Nos tumores funcionantes, aparecem sintomas hormonais como diarreia, rubor facial e palpitações — a síndrome carcinoide, mais comum quando há acometimento do fígado.

Tumor neuroendócrino metastático é grave?

Metástase indica doença mais avançada, mas, nesses tumores, não significa o mesmo que em cânceres agressivos. A maioria dos casos bem diferenciados de graus 1 e 2 é indolente e responde bem ao tratamento. O grau, medido pelo Ki-67, é o principal indicador de agressividade.

Qual o melhor tratamento para o tumor neuroendócrino avançado?

Não há um tratamento único. A escolha depende dos sintomas, do volume de doença e da presença de receptores de somatostatina. As principais opções são vigilância ativa, análogos de somatostatina, PRRT com Lutécio-177, terapias-alvo (everolimo e cabozantinibe) e cirurgia ou terapias direcionadas ao fígado.

O que é a PRRT com Lutécio-177 e quando é indicada?

É um tratamento de medicina nuclear que entrega radiação diretamente nas células do tumor que possuem receptores de somatostatina. Costuma ser indicada em tumores SSTR-positivos mais ativos ou que progrediram durante o uso do análogo de somatostatina.

Esse tumor precisa de quimioterapia?

Em geral, não. Para os tumores bem diferenciados de graus 1 e 2, a quimioterapia tradicional tem pouca eficácia e raramente é utilizada. Ela pode ter papel em situações específicas, como tumores de grau 3 ou pouco diferenciados, sempre avaliadas individualmente.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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Referências