Câncer de ovário BRCA: o que muda quando existe a mutação

O câncer de ovário BRCA é o tumor que surge em mulheres com alteração nos genes BRCA1 ou BRCA2. A cirurgia e a quimioterapia iniciais são as mesmas dos demais casos, mas essas pacientes podem receber depois um comprimido chamado inibidor de PARP como manutenção.

Receber a informação de que o tumor tem uma mutação BRCA costuma assustar antes de ajudar. A palavra “genético” faz a maioria das famílias pensar imediatamente em culpa, em herança e em risco para filhas e irmãs. Na prática clínica, porém, o significado mais imediato é outro: no câncer de ovário BRCA, conhecer a mutação é uma boa notícia do ponto de vista do tratamento, porque abre uma porta terapêutica que não está disponível para as demais pacientes.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 8 mil novos casos de câncer de ovário por ano no triênio 2026 a 2028. Boa parte é descoberta em fase avançada, porque os sintomas iniciais são vagos. Dentro desse grupo, aproximadamente uma em cada cinco pacientes carrega uma alteração genética herdada, e a maioria dessas alterações está justamente nos genes BRCA1 e BRCA2. Ou seja, o câncer de ovário BRCA não é uma raridade de livro: é uma situação encontrada todos os meses em consultório.

Este texto complementa a página geral sobre câncer de ovário e explica, em linguagem simples e com analogias do dia a dia, o que significa ter um câncer de ovário BRCA, por que o teste genético mudou o tratamento da doença e o que esperar de cada etapa.

O que é câncer de ovário BRCA?

Câncer de ovário BRCA é o tumor de ovário que se desenvolve em uma mulher cujas células perderam a função dos genes BRCA1 ou BRCA2. Esses genes não causam câncer: eles são responsáveis por consertar defeitos no DNA. Quando param de funcionar, os defeitos se acumulam ao longo de décadas e podem dar origem ao tumor.

De cada dez casos de câncer de ovário, cerca de dois estão ligados a alguma alteração genética herdada, e a maioria envolve BRCA1 ou BRCA2. O subtipo mais associado é o carcinoma seroso de alto grau, mas mutações já foram encontradas em praticamente todos os tipos de tumor de ovário, com exceção do mucinoso.

A analogia da equipe de manutenção da estrada

Pense no DNA como uma estrada muito movimentada. Todos os dias aparecem buracos. A prefeitura mantém duas equipes de manutenção. A primeira é a equipe pesada, que faz o recapeamento definitivo, aquele conserto profundo que resolve o problema de verdade. Os genes BRCA comandam essa equipe pesada. A segunda é a equipe do tapa-buraco, que faz um remendo rápido, provisório, mas suficiente para o trânsito continuar fluindo.

Quando existe uma mutação BRCA, a equipe pesada simplesmente não aparece para o serviço. A estrada não desmorona de imediato, porque a equipe do tapa-buraco assume tudo sozinha. Mas os defeitos vão se acumulando ao longo de décadas, e é esse acúmulo que, em algumas mulheres, acaba dando origem ao tumor. Um tumor que nasce por esse caminho é o que se chama de câncer de ovário BRCA.

Qual o risco de câncer em quem tem mutação BRCA?

Ter a mutação aumenta o risco, mas não significa que a doença vá aparecer. Os números abaixo, compilados pela American Cancer Society e pelo National Cancer Institute (NIH), descrevem o risco ao longo de toda a vida.

Situação Risco de câncer de ovário Risco de câncer de mama
Mulher sem mutação cerca de 1% cerca de 7%
Portadora de BRCA1 cerca de 40% 40% a 75%
Portadora de BRCA2 cerca de 15% 40% a 75%

No câncer de ovário BRCA, vale reler a primeira coluna com calma: a maioria das portadoras de BRCA2 nunca desenvolve câncer de ovário, e mesmo entre as portadoras de BRCA1 a chance de não desenvolver é maior do que a de desenvolver.

Mutação germinativa e mutação somática: qual a diferença?

A mutação germinativa é aquela com que a pessoa já nasceu, está em todas as células do corpo e pode ser passada aos filhos. A mutação somática surgiu apenas dentro do tumor ao longo da vida e não é transmitida. As duas indicam o mesmo tratamento, mas só a germinativa tem consequência para a família.

A germinativa é como um erro de digitação presente na receita original de família: toda cópia feita a partir dela vem com o mesmo erro. A somática é como um erro que apareceu em uma única fotocópia, e não na receita original.

Comparação Mutação germinativa Mutação somática
Onde está em todas as células do corpo apenas dentro do tumor
Como é detectada exame de sangue ou saliva análise do material do tumor
Passa para os filhos sim, chance de 50% para cada filho não
Frequência no câncer de ovário cerca de 15% dos casos cerca de 7% dos casos
Indica inibidor de PARP sim sim

Essa distinção importa muito para a família, mas, para a escolha do tratamento, importa menos do que muita gente imagina: os estudos mostram benefício semelhante dos medicamentos modernos nos dois cenários. Em outras palavras, no câncer de ovário BRCA o que interessa ao remédio é que a equipe pesada de conserto esteja fora de operação dentro do tumor, não o motivo pelo qual ela saiu de operação.

Quem deve fazer o teste genético BRCA?

Toda mulher com diagnóstico de câncer de ovário, de trompa ou de peritônio deve fazer o teste genético, independentemente de haver ou não casos na família. Essa é a recomendação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e da American Society of Clinical Oncology (ASCO), e vale desde o primeiro dia do tratamento.

O motivo é prático. Uma parcela relevante das mulheres com mutação não tem história familiar chamativa, seja porque a família é pequena, seja porque a mutação veio pelo lado paterno, seja porque os parentes morreram jovens por outras causas. Esperar por um histórico forte para pedir o exame deixaria muitas pacientes sem acesso a um tratamento que funciona. A única forma de saber se existe um câncer de ovário BRCA é testando.

A estratégia atual combina dois exames, e não apenas um:

Teste germinativo, feito em sangue ou saliva, para procurar a mutação herdada.

Teste somático, feito no material do tumor retirado na cirurgia ou na biópsia, indicado principalmente quando o teste germinativo vem negativo.

Fazer apenas o exame de sangue deixa de fora cerca de 7% das pacientes, que têm alteração exclusivamente no tumor. Fazer apenas o teste do tumor pode perder mutações herdadas e, com elas, a chance de proteger a família.

Um ponto de organização que faz diferença: o resultado precisa estar disponível no início do tratamento, e não depois. É a confirmação de um câncer de ovário BRCA que define o plano de manutenção que virá ao final da quimioterapia. No Brasil, o Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar prevê cobertura obrigatória do teste genético para pacientes que preenchem os critérios da diretriz de utilização, o que inclui a paciente com diagnóstico de câncer de ovário.

Como é o tratamento inicial do câncer de ovário BRCA

O tratamento inicial do câncer de ovário BRCA é o mesmo dos demais casos: cirurgia para retirar o máximo possível de doença, seguida de quimioterapia com um derivado de platina associado a um taxano, em geral por seis ciclos. A mutação não muda a operação nem o esquema de quimioterapia.

Vale um comentário sobre a platina. Ela funciona colando as duas fitas do DNA uma na outra, o que impede a célula de se dividir. Um tumor sem a equipe pesada de conserto tem muito mais dificuldade de desfazer esse estrago. É por isso que o câncer de ovário BRCA costuma responder particularmente bem à quimioterapia inicial com platina.

Em pacientes com maior risco de recaída, como aquelas com muito líquido no abdome (ascite) ou derrame no pulmão, pode ser acrescentado o bevacizumabe, um medicamento que corta o encanamento de vasos sanguíneos que alimenta o tumor. Esse benefício é parecido em quem tem e em quem não tem a mutação.

A escolha final, contudo, nunca é automática. Ela depende da paciente: idade, doenças associadas como diabetes, problemas cardíacos ou renais, e a capacidade funcional, ou seja, o quanto a pessoa consegue realizar suas atividades no dia a dia. Duas mulheres com câncer de ovário BRCA no mesmo estágio podem receber planos diferentes, e isso não é incoerência, é individualização.

Manutenção com inibidor de PARP: o grande diferencial do câncer de ovário BRCA

O inibidor de PARP é um comprimido tomado em casa depois que a quimioterapia termina, com o objetivo de impedir que a doença volte. É a principal diferença entre tratar um câncer de ovário BRCA e tratar um tumor de ovário sem a mutação, e foi a mudança mais relevante da última década nessa doença.

Uma analogia ajuda. A quimioterapia é como apagar um incêndio: extingue as chamas visíveis. Mas quase sempre restam brasas escondidas sob os escombros, invisíveis em qualquer exame de imagem. O tratamento de manutenção é o brigadista que fica no local molhando o terreno para que essas brasas não reacendam. Ele não é dado porque a doença voltou. Ele é dado justamente para que ela demore muito mais a voltar.

Como o inibidor de PARP funciona

Volte às duas equipes de manutenção da estrada. O tumor do câncer de ovário BRCA já perdeu a equipe pesada e sobrevive apoiado na equipe do tapa-buraco. A PARP é justamente uma peça central dessa segunda equipe. O inibidor de PARP bloqueia o tapa-buraco.

O resultado é uma armadilha elegante. A célula tumoral fica sem nenhuma das duas equipes, acumula defeitos em ritmo insustentável e morre. Já as células normais do corpo, que continuam com a equipe pesada funcionando, atravessam a situação relativamente bem. É por isso que esse remédio é uma terapia direcionada, e não uma quimioterapia: ele explora um defeito que existe no tumor e não existe no resto do organismo.

Olaparibe, niraparibe e rucaparibe: qual a diferença?

São três medicamentos da mesma classe, com mecanismo praticamente idêntico e diferenças que estão sobretudo no cenário aprovado e no perfil de efeitos colaterais.

Medicamento Onde é usado Observações
Olaparibe manutenção após a primeira quimioterapia, isolado ou junto do bevacizumabe, e também após recaída sensível à platina é o mais estudado nessa doença
Niraparibe manutenção após a primeira quimioterapia e após recaída sensível à platina a dose inicial é ajustada conforme peso e plaquetas
Rucaparibe manutenção após recaída sensível à platina não tem aprovação para uso logo após a primeira quimioterapia

A escolha entre eles considera o momento do tratamento, os exames de sangue, as outras doenças da paciente e a disponibilidade prática do medicamento.

O que os estudos mostraram

Os números que sustentam essa conduta são dos mais expressivos da oncologia ginecológica, e é justo que a paciente os conheça. A tabela resume o tempo mediano até a doença voltar a crescer no câncer de ovário BRCA, comparando o comprimido com placebo.

Estudo Medicamento Com o remédio Com placebo
SOLO1 (após a 1ª quimioterapia) olaparibe cerca de 56 meses cerca de 14 meses
PAOLA-1 (após a 1ª quimioterapia) olaparibe com bevacizumabe cerca de 37 meses cerca de 22 meses
PRIMA (após a 1ª quimioterapia) niraparibe cerca de 22 meses cerca de 11 meses
SOLO2 (após recaída) olaparibe cerca de 19 meses cerca de 5,5 meses
NOVA (após recaída) niraparibe cerca de 21 meses cerca de 5,5 meses
ARIEL3 (após recaída) rucaparibe cerca de 17 meses cerca de 5,4 meses

No estudo PAOLA-1, a taxa de sobrevida em cinco anos entre as pacientes com mutação foi de 73% com a combinação, contra 54% apenas com bevacizumabe.

Duas ressalvas honestas. A primeira: esses números descrevem grupos, não pessoas, e não funcionam como previsão individual. A segunda: são resultados de tempo até a doença voltar, um desfecho importante, mas que não se traduz automaticamente em cura para todas.

Quanto tempo dura o tratamento com inibidor de PARP?

Depois da primeira quimioterapia, o padrão no câncer de ovário BRCA é manter o comprimido por até dois anos, ou até a doença voltar a progredir, o que acontecer primeiro. Quando o bevacizumabe faz parte do esquema, ele segue por conta própria enquanto houver benefício.

Quem terminou a quimioterapia com doença estável, mas sem resposta, em geral não recebe a manutenção com o comprimido. O seguimento habitual envolve consultas a cada três meses nos dois primeiros anos e, depois, a cada três a seis meses. O marcador CA 125 é dosado nas consultas quando estava elevado no início, e exames de imagem são pedidos conforme os sintomas, não por rotina cega.

E se o câncer de ovário BRCA voltar?

Recaída no câncer de ovário BRCA não significa que o tratamento falhou ou que acabaram as opções. O primeiro dado que orienta a nova estratégia é o tempo decorrido desde o fim da quimioterapia com platina, porque é ele que define se a platina pode ser reutilizada.

O que significa platina sensível e platina resistente

Se a doença volta seis meses ou mais depois do fim da quimioterapia com platina, ela é chamada de platina sensível. A imagem útil aqui é a de uma fechadura que ainda aceita a mesma chave: há grande chance de a platina funcionar de novo, e ela costuma ser reutilizada.

Se a volta acontece em menos de seis meses, fala-se em doença platina resistente. Nesse caso, parte-se para quimioterapias de agente único e, quando disponíveis, estudos clínicos, que são uma opção legítima e frequentemente a melhor delas.

Dá para usar o inibidor de PARP de novo?

No câncer de ovário BRCA, para quem nunca usou um inibidor de PARP e responde bem à nova quimioterapia com platina, a manutenção com o comprimido é a preferência, com ganhos consistentes em três grandes estudos. Para quem já usou o remédio antes, os dados são mais escassos.

Nessa segunda situação, a decisão passa a considerar o intervalo desde a última dose, a tolerância prévia e o comportamento da doença. Um estudo específico de reexposição mostrou ganho modesto, de cerca de quatro meses contra menos de três meses com placebo. É aqui que o bevacizumabe volta a ser uma alternativa razoável.

Um ponto importante e pouco divulgado: os inibidores de PARP deixaram de ser usados como tratamento isolado da doença em progressão, depois de várias linhas de quimioterapia. Com o acompanhamento mais longo dos estudos, esse uso específico não se sustentou, e os próprios fabricantes o retiraram. O lugar consolidado desses remédios hoje é a manutenção, e não o resgate.

Efeitos colaterais do inibidor de PARP: o que esperar

Os inibidores de PARP são bem tolerados pela maioria das pacientes, mas comprimido tomado em casa não quer dizer remédio sem efeito. Os efeitos mais comuns dos inibidores de PARP usados no câncer de ovário BRCA são:

Anemia, que causa cansaço e falta de ar e é o efeito mais frequente.

Queda dos neutrófilos e das plaquetas, detectada nos exames de sangue de controle.

Náusea, em geral leve e controlada com medicação e ajuste do horário da tomada.

Cansaço persistente, que costuma melhorar após as primeiras semanas.

Alterações do intestino, tanto no sentido de prisão de ventre quanto de diarreia.

A maior parte desses efeitos é controlada com ajuste de dose ou pausa temporária, e não com a suspensão definitiva do tratamento. Existe ainda um risco raro, mas que precisa ser dito com clareza: uma pequena fração de pacientes, em torno de 1% nos estudos de longo prazo, desenvolve doenças da medula óssea, como a leucemia mieloide aguda. É um número baixo diante do benefício demonstrado, e é exatamente por causa dele que os exames de sangue de controle são feitos com regularidade.

Câncer de ovário BRCA tem cura? O que dizem os números

Sim, o câncer de ovário BRCA pode ter cura, sobretudo quando a doença é descoberta em fase inicial e a cirurgia consegue retirar todo o tumor visível. Nos casos avançados, o objetivo passa a ser o controle prolongado, e é aí que a mutação joga a favor: as mulheres com câncer de ovário BRCA tendem a viver mais do que aquelas sem a mutação.

Em uma análise com mais de 3.800 pacientes, a sobrevida em cinco anos foi de 36% entre as não portadoras, 44% entre as portadoras de BRCA1 e 52% entre as portadoras de BRCA2. A explicação é a mesma equipe de conserto ausente: o tumor responde melhor à platina, dentro e fora da recaída.

Esses dados, vale registrar, são anteriores ao uso amplo dos inibidores de PARP, ou seja, retratam um cenário provavelmente mais pessimista do que o atual. Números de sobrevida sempre descrevem grupos tratados anos atrás e não substituem a conversa sobre o estágio da doença de cada paciente.

Quando o teste BRCA é negativo: HRD e imunoterapia

Nem toda paciente que não tem um câncer de ovário BRCA fica sem terapia direcionada. Existe um grupo maior, chamado de deficiência de recombinação homóloga (HRD), que reúne tumores nos quais a equipe pesada de conserto está desativada por outros motivos, mesmo sem alteração nos genes BRCA. Esses tumores também se beneficiam da manutenção com inibidor de PARP, ainda que em magnitude menor do que no câncer de ovário BRCA.

Há também a situação dos tumores com instabilidade de microssatélites alta ou deficiência de reparo do DNA (dMMR), pouco frequente no ovário, em que a imunoterapia com pembrolizumabe se torna uma opção após tratamentos prévios. Fora desses cenários, a imunoterapia no câncer de ovário permanece majoritariamente em pesquisa, e é honesto dizer isso. Os demais tratamentos disponíveis para o tumor de ovário são detalhados em conteúdo específico.

E o risco de câncer de mama depois do câncer de ovário?

Mulheres que já trataram um câncer de ovário BRCA têm risco de câncer de mama bem menor do que as portadoras que nunca tiveram câncer de ovário. Em um estudo com quase mil portadoras, o risco de câncer de mama em dez anos foi de cerca de 9% nesse grupo, contra 39% entre portadoras sem câncer de ovário prévio.

Por isso, a mastectomia redutora de risco não é uma indicação automática nessa situação. Ela faz mais sentido para mulheres com boa perspectiva de longa sobrevida ou que preferem não conviver com o rastreamento periódico. Para muitas outras, o acompanhamento com mamografia e ressonância é uma alternativa perfeitamente razoável. A decisão é individual e deve ser conversada sem pressa.

O que a mutação significa para filhos e irmãos

Quando a mutação por trás do câncer de ovário BRCA é germinativa, cada filho e cada filha tem 50% de chance de tê-la herdado, e irmãos e irmãs têm a mesma probabilidade. Isso não é motivo para pânico, e sim para organização: o diagnóstico de câncer de ovário BRCA em uma mulher da família é a oportunidade de prevenção para as demais.

O caminho é o aconselhamento genético, com um teste dirigido, mais simples e mais barato, procurando exatamente a alteração já identificada na família. Quem for negativo se tranquiliza de forma definitiva. Quem for positivo passa a ter acesso a medidas de acompanhamento e prevenção, incluindo a possibilidade de cirurgia redutora de risco, discutidas caso a caso e no tempo de cada um.

Homens também herdam e transmitem a mutação, e também têm risco aumentado de alguns tumores, como próstata, mama masculina e pâncreas. Excluir os homens da família do aconselhamento é um erro frequente. Uma informação que hoje angustia pode, na geração seguinte, ser exatamente o que evita a doença.

Cada caso é um caso: o que define a decisão

A definição do tratamento do câncer de ovário BRCA depende do estágio, do tipo do tumor, do resultado da cirurgia, das doenças associadas, da idade e da capacidade funcional de cada paciente. Nenhum artigo substitui a avaliação individual.

No câncer de ovário BRCA, a discussão em equipe multidisciplinar, reunindo oncologia clínica, cirurgia, patologia e radiologia, é o que transforma diretrizes gerais em um plano que faz sentido para uma pessoa específica.

Glossário rápido dos termos do câncer de ovário BRCA

BRCA1 e BRCA2: genes responsáveis por consertar defeitos profundos do DNA. Quando alterados, aumentam o risco de câncer de ovário e de mama.

Mutação germinativa: alteração presente desde o nascimento em todas as células e transmissível aos filhos.

Mutação somática: alteração que surgiu apenas dentro do tumor e não é transmitida.

Inibidor de PARP: comprimido de terapia direcionada que bloqueia a via de reparo restante da célula tumoral. Olaparibe, niraparibe e rucaparibe são os representantes da classe.

Terapia de manutenção: tratamento iniciado após a resposta à quimioterapia, com o objetivo de atrasar a volta da doença.

HRD: sigla para deficiência de recombinação homóloga, um grupo mais amplo de tumores com reparo do DNA comprometido, que inclui os casos BRCA.

Platina sensível: recaída que ocorre seis meses ou mais após o fim da quimioterapia com platina.

Citorredução: cirurgia que busca retirar todo o tumor visível na cavidade abdominal.

Perguntas frequentes sobre câncer de ovário BRCA

Câncer de ovário BRCA é sempre hereditário?

Não. Existem dois tipos de mutação. A germinativa vem de nascença, está em todas as células e pode ser passada aos filhos. A somática surgiu apenas dentro do tumor e não é transmitida. Só o exame de sangue diferencia as duas, e por isso ele é indicado para todas as pacientes.

Quem tem mutação BRCA vai necessariamente ter câncer de ovário?

Não. A mutação aumenta o risco, mas não determina a doença. As estimativas apontam risco ao longo da vida em torno de 40% para BRCA1 e de 15% para BRCA2, contra cerca de 1% na população geral. Muitas portadoras nunca desenvolvem um câncer de ovário BRCA, especialmente com acompanhamento e medidas preventivas adequadas.

O inibidor de PARP usado no câncer de ovário BRCA é quimioterapia?

Não. É uma terapia direcionada, tomada por via oral, que ataca um defeito específico do tumor. Os efeitos colaterais são diferentes dos da quimioterapia clássica, com destaque para anemia e queda das células de defesa, e costumam ser manejados com ajuste de dose.

Por quanto tempo é preciso tomar o remédio de manutenção?

Após o primeiro tratamento, o padrão é manter por até dois anos ou até a doença progredir, o que vier primeiro. Em outros cenários, o tempo pode variar. A suspensão nunca deve ser decidida por conta própria, mesmo que a paciente esteja se sentindo bem.

O plano de saúde cobre o teste genético e os inibidores de PARP?

O Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar prevê cobertura obrigatória do teste genético BRCA para pacientes que atendem aos critérios da diretriz de utilização, situação que inclui o diagnóstico de câncer de ovário. Os medicamentos orais registrados para uso oncológico também têm previsão de cobertura, embora a liberação frequentemente exija justificativa clínica detalhada.

Ter mutação BRCA é um sinal de que o caso é mais grave?

Ao contrário do que a maioria imagina, não. Quem tem um câncer de ovário BRCA costuma responder melhor à quimioterapia com platina e apresenta sobrevida em cinco anos superior à de não portadoras, além de ter acesso a uma classe de medicamentos que as demais pacientes não têm.

Minhas filhas e minhas irmãs precisam fazer o exame?

Se a mutação identificada for germinativa, sim, o aconselhamento genético está indicado para os familiares de primeiro grau. O teste dirigido procura exatamente a alteração já conhecida na família, é mais simples e permite decisões de prevenção com muita antecedência.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

Compartilhar
Matérias relacionadas