Câncer de laringe: sintomas, causas e tratamento

Rouquidão que não passa pode ser um sinal de alerta. Conheça os sintomas, fatores de risco, métodos diagnósticos e opções de tratamento do câncer de laringe — incluindo abordagens que ajudam a preservar a voz, a respiração e a qualidade de vida.

A laringe é o órgão da fala, conhecida popularmente como “caixa de voz”. Localizada no pescoço, entre a faringe e a traqueia, ela abriga as cordas vocais e participa de funções essenciais como falar, respirar e proteger as vias aéreas durante a deglutição. Quando células dessa região passam a se multiplicar de maneira desordenada, surge o câncer de laringe — um dos tumores mais frequentes do grupo de câncer de cabeça e pescoço, especialmente em homens fumantes acima dos 55 anos.

O diagnóstico precoce do câncer de laringe é determinante para preservar a voz, a deglutição e a respiração. Por isso, conhecer os sinais de alerta, os fatores de risco e as opções de tratamento é fundamental para pacientes e familiares. Este conteúdo, elaborado em linguagem acessível, reúne informações atualizadas sobre o tema, com base em fontes reconhecidas como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a American Cancer Society e o National Cancer Institute (NIH).

O que é o câncer de laringe

A laringe é dividida em três regiões anatômicas:

  • Supraglote: parte superior, acima das cordas vocais (inclui a epiglote);
  • Glote: região central, onde estão as cordas vocais;
  • Subglote: parte inferior, próxima à traqueia.

O câncer de laringe pode surgir em qualquer uma dessas três áreas, sendo a glote a mais comum, seguida pela supraglote. O tipo histológico mais frequente é o carcinoma de células escamosas (também chamado de carcinoma espinocelular), que representa a maioria dos casos. Tipos raros incluem adenocarcinomas, sarcomas e linfomas.

Segundo o INCA, os tumores de laringe figuram entre os mais incidentes em homens no Brasil e estão entre os cânceres de cabeça e pescoço com maior carga de mortalidade no país, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP).

Sintomas do câncer de laringe

Os sintomas dependem da localização do tumor dentro da laringe. Os principais sinais de alerta incluem:

  • Rouquidão persistente por mais de duas a três semanas, sem melhora;
  • Alteração ou perda progressiva da voz;
  • Dor de garganta contínua, que não responde a tratamentos comuns;
  • Dor ou dificuldade ao engolir (odinofagia e disfagia);
  • Sensação de corpo estranho ou “bolo” na garganta;
  • Tosse persistente, eventualmente com sangue;
  • Dor reflexa no ouvido (otalgia);
  • Caroço (linfonodo aumentado) palpável no pescoço;
  • Falta de ar ou ruído ao respirar (estridor) em casos avançados;
  • Perda de peso involuntária e fadiga.

A rouquidão é o sintoma mais comum quando o tumor surge nas cordas vocais — exatamente por isso, tumores da glote tendem a ser identificados em fases iniciais. Já lesões supraglóticas e subglóticas podem demorar mais a manifestar sintomas perceptíveis e, por isso, costumam ser diagnosticadas em estágios mais avançados.

Causas e fatores de risco

A maioria dos casos está relacionada a fatores ambientais e comportamentais. Os principais fatores de risco para o câncer de laringe são:

  • Tabagismo: cigarro, charuto, cachimbo e tabaco mascado aumentam significativamente o risco. Quanto maior a quantidade e o tempo de exposição, maior a probabilidade;
  • Consumo de álcool: o uso frequente eleva o risco, e a combinação com o tabaco potencializa o efeito de forma sinérgica;
  • Infecção pelo HPV: alguns subtipos de papilomavírus humano estão relacionados a tumores da laringe e da orofaringe;
  • Exposição ocupacional: contato prolongado com poeira de madeira, asbesto, ácido sulfúrico, níquel, fuligem e fumaças industriais;
  • Refluxo gastroesofágico crônico: pode atuar como fator irritativo da mucosa laríngea;
  • Idade: a maioria dos casos ocorre após os 55 anos;
  • Sexo masculino: a incidência é várias vezes maior em homens;
  • Histórico prévio de tumores em cabeça e pescoço;
  • Dieta pobre em frutas, vegetais e fibras;
  • Predisposição genética em uma minoria dos casos.

Esses mesmos fatores estão envolvidos em outros tumores das vias aerodigestivas superiores, como o câncer de bocae o câncer de pulmão.

Como é feito o diagnóstico

A investigação começa com avaliação clínica detalhada, anamnese sobre hábitos (tabagismo, álcool) e exame físico do pescoço para identificar linfonodos aumentados. Os principais exames utilizados são:

  • Laringoscopia: realizada com endoscópio flexível ou rígido, permite visualizar diretamente a laringe e as cordas vocais — é o principal exame para identificação da lesão;
  • Biópsia: coleta de fragmento da lesão para análise anatomopatológica, que confirma o diagnóstico e define o subtipo do tumor;
  • Tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM): avaliam a extensão local do tumor e o acometimento de cartilagens e estruturas vizinhas;
  • PET-CT: usado em casos selecionados para investigar metástases à distância e linfonodos regionais;
  • Ultrassom cervical com punção (PAAF): para investigação de linfonodos suspeitos no pescoço;
  • Avaliação odontológica e nutricional: etapa essencial do preparo pré-tratamento, sobretudo antes da radioterapia.

Estadiamento

Após a confirmação diagnóstica, o estágio da doença é definido pelo sistema TNM (T = tumor; N = linfonodos; M = metástase), variando de 0 a IV. Em estágios iniciais (0, I e II), o tumor está restrito à laringe. Nas fases avançadas (III e IV), há comprometimento de linfonodos cervicais ou disseminação para órgãos como pulmões, fígado ou ossos. O estadiamento orienta diretamente as decisões terapêuticas e a discussão do prognóstico.

Tratamento do câncer de laringe

O tratamento é planejado por uma equipe multidisciplinar, formada por oncologista clínico, cirurgião de cabeça e pescoço, radio-oncologista, fonoaudiólogo, dentista, nutricionista e psicólogo. As principais modalidades terapêuticas são:

Cirurgia
  • Cordectomia: retirada parcial da corda vocal acometida;
  • Laringectomia parcial: remove apenas parte da laringe, preservando função vocal;
  • Laringectomia supraglótica e hemilaringectomia: variantes que conservam estruturas;
  • Laringectomia total: indicada em casos avançados, com criação de um traqueostoma definitivo;
  • Esvaziamento cervical: retirada de linfonodos do pescoço quando há suspeita de comprometimento;
  • Cirurgia transoral a laser ou robótica (TORS): opções minimamente invasivas em casos selecionados.
Radioterapia

Pode ser usada como tratamento exclusivo em estágios iniciais, com a possibilidade de preservação da voz, ou em combinação com quimioterapia em estágios mais avançados (quimiorradioterapia). Técnicas modernas, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), permitem maior precisão e tendem a reduzir efeitos colaterais sobre tecidos sadios.

Quimioterapia

Aplicada principalmente em combinação com radioterapia em tumores localmente avançados, ou de forma sistêmica em casos metastáticos e recidivados. A cisplatina é a droga mais utilizada nesse contexto.

Imunoterapia e terapia-alvo

Os inibidores de checkpoint imunológico, como pembrolizumab e nivolumab, e a terapia-alvo com cetuximab têm papel em casos avançados, recidivados ou metastáticos. Essas alternativas terapêuticas vêm transformando o cenário do tratamento em pacientes selecionados, com base em estudos clínicos internacionais.

Reabilitação

Inclui acompanhamento fonoaudiológico para reaprender a falar (voz esofágica, prótese traqueoesofágica ou eletrolaringe), fisioterapia respiratória e de pescoço, suporte nutricional, acompanhamento psicológico e cuidado com o estoma após laringectomia total. Pacientes que ainda fumam recebem suporte especializado para cessação do tabagismo, fundamental tanto para a resposta ao tratamento quanto para reduzir o risco de novos tumores.

Prognóstico e acompanhamento

O prognóstico depende do estágio ao diagnóstico, da localização do tumor (tumores glóticos iniciais costumam ter melhor evolução), da resposta ao tratamento e da continuidade ou não do tabagismo. Após o tratamento, o seguimento clínico regular permite identificar precocemente eventuais recidivas e novos tumores, especialmente nos primeiros anos. Manter consultas periódicas com a equipe multidisciplinar é parte essencial do cuidado.

Prevenção

Boa parte dos casos pode ser evitada com mudanças de hábito:

  • Não fumar e evitar exposição passiva à fumaça do tabaco;
  • Reduzir ou eliminar o consumo de bebidas alcoólicas;
  • Vacinar-se contra o HPV conforme recomendação;
  • Manter higiene bucal adequada e acompanhamento odontológico regular;
  • Adotar dieta rica em frutas, vegetais e fibras;
  • Usar equipamentos de proteção em ambientes ocupacionais com exposição a poeira de madeira, asbesto e fumaças industriais;
  • Procurar avaliação médica precoce diante de rouquidão persistente.

Quando procurar um especialista

Diante de rouquidão por mais de duas a três semanas, dificuldade persistente para engolir, caroço no pescoço, dor de ouvido sem causa aparente ou alterações duradouras na voz, busque avaliação com otorrinolaringologista, cirurgião de cabeça e pescoço ou oncologista clínico. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de tratamento conservador, com preservação da voz e da qualidade de vida.

Perguntas frequentes

O câncer de laringe tem cura?

Sim, sobretudo quando diagnosticado em fases iniciais. A possibilidade de cura depende do estágio, da localização do tumor, da resposta ao tratamento e do abandono completo do tabagismo. Tumores glóticos iniciais costumam ter resultados terapêuticos favoráveis com cirurgia ou radioterapia.

Quais são os primeiros sinais do câncer de laringe?

O sinal mais comum é a rouquidão persistente por mais de duas a três semanas. Outros sintomas iniciais incluem dor de garganta contínua, alteração da voz, sensação de corpo estranho na garganta, dor ao engolir e, mais tardiamente, caroço palpável no pescoço.

Quem fuma sempre desenvolve um tumor na laringe?

Não. O tabagismo aumenta de forma expressiva o risco, mas não significa que todo fumante terá a doença. Parar de fumar reduz o risco progressivamente ao longo dos anos e é uma das medidas mais importantes de prevenção, mesmo após muitos anos de exposição.

Esse tipo de tumor é hereditário?

Na maioria dos casos, não. A grande maioria está relacionada a tabagismo, álcool e infecção pelo HPV. Predisposição genética pode existir em uma minoria, e a presença de familiares com tumores de cabeça e pescoço deve ser informada ao médico.

Como é feito o diagnóstico do câncer de laringe?

O diagnóstico envolve laringoscopia (visualização direta da laringe), biópsia da lesão para análise anatomopatológica e exames de imagem como tomografia, ressonância magnética e, em casos selecionados, PET-CT para avaliar a extensão da doença.

É possível continuar falando após o tratamento?

Depende do tipo de cirurgia. Em cirurgias parciais e na radioterapia, a voz costuma ser preservada, ainda que possa haver alterações temporárias ou permanentes. Após laringectomia total, a reabilitação fonoaudiológica permite a comunicação por voz esofágica, prótese traqueoesofágica ou eletrolaringe.

Câncer de laringe é o mesmo que câncer de garganta?

Não. “Câncer de garganta” é um termo amplo, popular, que pode incluir tumores da faringe (orofaringe, nasofaringe e hipofaringe) e da laringe. Cada região tem comportamento, fatores de risco e tratamento específicos, ainda que existam fatores em comum, como o tabagismo e o álcool.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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