Gastrostomia e Jejunostomia: o que são, quando são indicadas e como funcionam

Quando a alimentação pela boca não é possível por doença, cirurgia ou outro problema de saúde, a gastrostomia e a jejunostomia permitem levar nutrição diretamente ao sistema digestivo, garantindo que o organismo continue recebendo o que precisa para funcionar e se recuperar.

Quando alguém não consegue se alimentar pela boca por causa de uma doença, de uma cirurgia ou de outro problema de saúde, o corpo precisa receber nutrição de outra forma. É nesse contexto que a gastrostomia e jejunostomia entram em cena — dois procedimentos que permitem levar alimento diretamente ao sistema digestivo, garantindo que o organismo continue recebendo tudo o que precisa para funcionar e se recuperar. Conforme destaca o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o suporte nutricional adequado é parte essencial do cuidado ao paciente oncológico e deve ser iniciado de forma precoce, antes que o estado nutricional se agrave.

Se você ou um familiar recebeu a indicação de um desses procedimentos, é completamente natural ter dúvidas e sentir insegurança. Este texto vai explicar, de forma clara e objetiva, o que diferencia a gastrostomia da jejunostomia, em quais situações cada uma é indicada e como a decisão médica é tomada.

O que é gastrostomia?

A gastrostomia é um procedimento no qual o médico cria uma abertura na parede do abdômen com acesso direto ao estômago. Por essa abertura, é colocada uma sonda — um pequeno tubo — que permite introduzir alimento líquido diretamente no estômago, sem que a pessoa precise engolir.

É uma opção segura e amplamente utilizada em todo o mundo. O estômago continua exercendo seu papel natural de digestão, o que torna a adaptação mais próxima do funcionamento normal do corpo. Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN), a indicação da gastrostomia deve ser feita de forma precoce, pois pacientes com esse dispositivo apresentam melhor sobrevida e menor taxa de aspiração em comparação àqueles que utilizam sonda nasoenteral por período prolongado. Por isso, quando possível, a gastrostomia costuma ser a primeira escolha da equipe médica.

O que é jejunostomia?

A jejunostomia funciona de maneira parecida, mas a sonda é posicionada no jejuno — a parte do meio do intestino delgado —, e não no estômago. O jejuno é justamente a região onde ocorre a maior parte da absorção dos nutrientes pelo organismo, o que explica por que essa via também é eficaz para nutrir o paciente.

A diferença fundamental está no ponto de entrada do alimento. Na gastrostomia, o alimento passa pelo estômago primeiro. Na jejunostomia, ele vai direto para o intestino, contornando o estômago. Uma das vantagens desse acesso, conforme aponta a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN), é que a jejunostomia permite iniciar a nutrição enteral precocemente no pós-operatório ou após traumas graves, sendo especialmente útil em cirurgias do trato gastrointestinal superior.

Quando a gastrostomia e a jejunostomia são indicadas?

Ambos os procedimentos são indicados quando a pessoa não consegue se alimentar pela boca de forma segura. Isso pode acontecer em diversas situações: dificuldade permanente ou prolongada para engolir, risco de aspiração — quando o alimento vai para os pulmões em vez de ir para o estômago, podendo causar infecções graves como pneumonia —, ou quando o organismo exige uma nutrição mais controlada do que aquela que a alimentação oral consegue oferecer. De acordo com a BRASPEN, a nutrição enteral é formalmente indicada sempre que o trato gastrointestinal está funcionante e a alimentação oral não é suficiente para suprir ao menos 60% das necessidades nutricionais diárias.

Inicialmente, muitos pacientes utilizam uma sonda nasoentérica — um tubo fino que passa pelo nariz e vai até o estômago ou o intestino. Essa é uma solução temporária, adequada para situações de curto prazo, geralmente de até quatro a seis semanas. Quando a dificuldade de alimentação é mais duradoura, a equipe de saúde avalia a indicação de gastrostomia ou jejunostomia como uma solução definitiva, mais confortável e segura para o paciente. Essa recomendação é consistente com as diretrizes da Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN), que orienta a transição para dispositivos de acesso cirúrgico quando a necessidade de nutrição enteral for superior a esse período.

Como a escolha entre gastrostomia e jejunostomia é feita?

Gastrostomia e jejunostomia: o papel da condição do estômago

A principal variável que orienta essa escolha é a condição do estômago. Quando o estômago está saudável e funcionando, a gastrostomia costuma ser preferida por ser tecnicamente mais simples e por respeitar a fisiologia natural da digestão.

No entanto, existem situações em que o estômago não pode receber a sonda. Um exemplo importante é quando há uma neoplasia gástrica — isto é, um tumor no estômago. Esse crescimento anormal de tecido pode bloquear fisicamente a colocação da sonda, ou tornar o estômago impróprio para receber alimento. Nesses casos, a jejunostomia se torna a alternativa mais segura e eficaz, já que o acesso é feito no intestino delgado, contornando completamente o estômago comprometido. O INCA, em seu Consenso Nacional de Nutrição Oncológica, reforça que a via de acesso enteral deve ser escolhida considerando as condições clínicas do paciente, com avaliação individualizada por equipe multidisciplinar.

Outras condições que podem levar à preferência pela jejunostomia incluem esvaziamento gástrico muito lento, refluxo grave com risco de aspiração ou cirurgias anteriores que alteraram a anatomia do estômago. As diretrizes da ESPEN para nutrição clínica em cirurgia recomendam que, em pacientes submetidos a cirurgias do trato gastrointestinal superior — como as realizadas no câncer de esôfago — e em risco nutricional, a jejunostomia pode ser superior às sondas nasoenterais como acesso de longa duração.

O que esperar após o procedimento?

Tanto a gastrostomia quanto a jejunostomia são realizadas por equipes especializadas e, na maioria das vezes, exigem apenas um curto período de recuperação. Após a colocação da sonda, a equipe de enfermagem e nutrição orienta os cuidados necessários, como a limpeza da área ao redor da sonda, a forma correta de administrar a dieta e os sinais de alerta que devem ser comunicados ao médico. A BRASPENdisponibiliza orientações específicas para pacientes e cuidadores sobre o manejo desses dispositivos no ambiente domiciliar.

A adaptação pode gerar dúvidas no início, mas a maioria dos pacientes e cuidadores aprende os cuidados com rapidez. A sonda é discreta, não impede atividades do dia a dia e, acima de tudo, garante que o organismo continue recebendo a nutrição necessária para enfrentar o tratamento com mais força.

Por que a nutrição adequada faz diferença no tratamento?

Manter uma nutrição adequada é uma parte essencial do cuidado em oncologia e em diversas outras condições de saúde. Quando o corpo recebe os nutrientes certos, ele tem mais condições de tolerar tratamentos como quimioterapia e radioterapia, cicatrizar melhor após cirurgias e manter a imunidade em funcionamento. O Inquérito Brasileiro de Nutrição Oncológica, publicado pelo INCA, avaliou mais de 4.800 pacientes com câncer internados em todo o Brasil e identificou que 45% apresentavam algum grau de desnutrição ou risco nutricional — um dado que reforça a importância de intervir precocemente.

A gastrostomia e a jejunostomia são exatamente isso: ferramentas que a medicina desenvolveu para garantir que o paciente continue sendo nutrido mesmo quando a alimentação oral não é possível. Elas não representam uma piora do quadro clínico, mas sim um cuidado ativo para preservar a saúde, a energia e a qualidade de vida de quem está em tratamento. A ASPEN e a ESPEN são unânimes em reconhecer a nutrição enteral por meio desses dispositivos como parte fundamental do cuidado ao paciente que não pode se alimentar pela via oral.

Se você tiver dúvidas sobre qual procedimento é mais adequado para o seu caso ou de um familiar, converse com a equipe médica responsável. Cada situação é única, e a escolha sempre será feita considerando o histórico completo do paciente e o que é mais seguro e eficaz para ele.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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Referências

  1. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Consenso Nacional de Nutrição Oncológica – 2ª edição. Rio de Janeiro: INCA, 2016. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/consenso-nacional-de-nutricao-oncologica
  2. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Inquérito Brasileiro de Nutrição Oncológica. Rio de Janeiro: INCA, 2013. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/inquerito-brasileiro-de-nutricao-oncologica
  3. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN). Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente com Câncer. BRASPEN Journal, v. 34, Supl. 1, 2019. Disponível em: https://www.sbnpe.org.br/diretrizes
  4. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN). Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal, v. 38, n. 2, 2023. Disponível em: https://www.sbnpe.org.br/diretrizes
  5. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN/SBNPE). Sessão ao Público: orientações sobre nutrição enteral domiciliar. Disponível em: https://www.sbnpe.org.br/publico
  6. Bischoff SC, Austin P, Boeykens K, et al. ESPEN guideline on home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 39, n. 1, p. 5–22, 2020. Disponível em: https://www.espen.org/guidelines-home/espen-guidelines
  7. Weimann A, Braga M, Carli F, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition in surgery – Update 2025. Clinical Nutrition, 2025. Disponível em: https://www.clinicalnutritionjournal.com/article/S0261-5614(25)00243-2/fulltext
  8. American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN). Indications for Enteral Nutrition in Patients with Cancer – ASPEN Recommendations, 2023. Disponível em: https://nutritioncare.org/clinical-resources/enteral-nutrition/en-indications/
  9. Compher C, Bingham AL, McCall M, et al. Guidelines for the provision of nutrition support therapy in the adult critically ill patient: ASPEN. JPEN Journal of Parenteral and Enteral Nutrition, v. 46, n. 1, p. 12–41, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34784064/

 

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