As injeções para emagrecer da classe dos agonistas GLP-1 — como semaglutida (Ozempic®, Wegovy®) e tirzepatida (Mounjaro®) — se tornaram um fenômeno mundial. No Brasil, o interesse cresce de forma acelerada, e muitas pessoas que convivem com o câncer se perguntam: Ozempic aumenta ou reduz o risco de câncer? Posso usá-lo durante a quimioterapia?
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a obesidade é um dos principais fatores de risco modificáveis para múltiplos tipos de câncer. Ao mesmo tempo, a decisão de usar Ozempic ou qualquer agonista GLP-1 nunca deve ser tomada sem orientação médica — especialmente durante ou logo após um tratamento oncológico.
Neste artigo, reunimos as evidências científicas mais recentes, incluindo os estudos SELECT (2023), NEJM 2024 e revisões da American Society of Clinical Oncology (ASCO), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e do National Cancer Institute (NIH).
Como funcionam as injeções para emagrecer e por que são diferentes das anteriores
Por décadas, os medicamentos disponíveis para perda de peso agiam suprimindo o apetite ou bloqueando a absorção de gordura — com efeitos colaterais importantes e uso limitado no tempo. A nova geração de injeções para emagrecer funciona de maneira diferente e mais fisiológica.
Os agonistas do GLP-1 (Glucagon-Like Peptide-1) mimetizam um hormônio naturalmente produzido no intestino após as refeições. Eles atuam em múltiplos alvos:
- Hipotálamo: reduzem o apetite ao ativar centros de saciedade no cérebro
- Estômago: retardam o esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de plenitude
- Pâncreas: estimulam a secreção de insulina de forma glicose-dependente e inibem o glucagon
- Fígado e tecido adiposo: reduzem a produção hepática de glicose e modulam o metabolismo lipídico

Esses medicamentos são usados no controle do diabetes tipo 2 desde 2005. Na última década, passaram a ser aprovados também para obesidade. O estudo STEP 1 (NEJM, 2021) demonstrou que semaglutida 2,4 mg promoveu perda média de 14,9% do peso corporal em 68 semanas — resultado comparável ao de cirurgias bariátricas. No Brasil, a ANVISAaprovou semaglutida para obesidade em 2023.
Entre os efeitos colaterais mais comuns estão náuseas, vômitos e diarreia, especialmente no início do tratamento. Em casos mais raros, há relatos de gastroparesia (paralisia gástrica), condição de difícil manejo clínico.
Ozempic e semaglutida podem reduzir o risco de câncer?
Esta é uma das perguntas mais frequentes — e a resposta envolve dois mecanismos distintos que devem ser compreendidos separadamente.
1. O emagrecimento em si reduz o risco oncológico
Há evidências robustas de que perder peso de forma sustentada diminui o risco de pelo menos 13 tipos de câncer associados à obesidade. Entre eles estão o câncer colorretal, o câncer de mama pós-menopausa, o câncer de endométrio, de esôfago, de rim, de vesícula biliar e de fígado. Conforme destacado pela American Cancer Society, o excesso de gordura corporal contribui para um ambiente inflamatório e hormonal que favorece o desenvolvimento tumoral, principalmente via aumento de insulina, estrogênio e marcadores inflamatórios como IL-6 e TNF-alfa.
2. O medicamento pode ter efeito protetor adicional além do peso
Um estudo publicado no JAMA Oncology em 2024 analisou mais de 1,6 milhão de pacientes com diabetes tipo 2 e demonstrou que usuários de agonistas GLP-1 apresentaram incidência significativamente menor de câncer colorretalem comparação com usuários de outros antidiabéticos — independentemente da perda de peso. O mecanismo proposto envolve redução da hiperinsulimenia, modulação do IGF-1 e possíveis efeitos anti-inflamatórios diretos nos receptores GLP-1 expressos em células do cólon.
O estudo SELECT (NEJM, 2023) — que incluiu mais de 17.000 pacientes com doença cardiovascular e obesidade — também sugeriu benefícios além do emagrecimento, embora tenha sido desenhado primariamente para desfechos cardiovasculares. Os dados de incidência de neoplasias foram coletados como desfecho secundário e ainda estão sendo analisados em subgrupos.
Importante: esses medicamentos não foram projetados para uso contínuo indefinido. Muitas pessoas os utilizam, perdem peso, param e voltam a engordar — o que não sustenta redução de risco a longo prazo. Para que o benefício oncológico seja real, é necessário manter mudanças de hábitos alimentares e de atividade física mesmo após a suspensão da medicação.
Saiba mais sobre prevenção em nosso artigo sobre prevenção e fatores de risco do câncer de mama.
Ozempic e semaglutida aumentam o risco de algum tipo de câncer?
Houve preocupação inicial com dois tipos de tumor que merece análise detalhada com base na evidência atual.
Câncer de tireoide
Um estudo observacional publicado no BMJ em 2023 apontou possível associação entre uso de agonistas GLP-1 e aumento de risco de câncer de tireoide, especialmente o tipo papilífero. No entanto, o estudo tinha limitações metodológicas importantes — incluindo viés de detecção, pois usuários de semaglutida fazem mais exames de imagem pelo acompanhamento do diabetes.
Uma revisão da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluída em 2023 considerou os dados insuficientes para estabelecer relação causal em humanos. A contraindicação formal — para pessoas com histórico de carcinoma medular de tireoide ou síndrome MEN-2 — é baseada em dados de experimentos com roedores (que expressam muito mais receptores GLP-1 na tireoide do que humanos) e representa uma precaução regulatória preventiva.
Câncer de pâncreas
Surgiram questionamentos sobre risco de câncer de pâncreas — especialmente porque esses medicamentos aumentam a atividade pancreática. Uma meta-análise publicada no Diabetes Care (2023) reunindo mais de 4 milhões de pacientes não demonstrou associação estatisticamente significativa entre uso de GLP-1 e câncer pancreático. Mesmo assim, médicos oncologistas evitam prescrever agonistas GLP-1 para pacientes com histórico de pancreatite crônica ou diagnóstico ativo de tumor pancreático.
Outros tumores: o que os dados mostram
Uma análise de farmacovigilância publicada no Nature Medicine (2024) comparou perfis de efeitos adversos de semaglutida com outros medicamentos para diabetes e obesidade em dados reais de mais de 2 milhões de pacientes. Para a maioria dos tipos de câncer — incluindo mama, próstata, pulmão e linfomas — não houve sinal de aumento de risco. Para câncer renal, houve inclusive tendência protetora, possivelmente mediada pela redução da obesidade visceral.
Injeções para emagrecer durante o tratamento oncológico: quando evitar
Para quem está em tratamento ativo contra o câncer, o uso de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro exige avaliação cuidadosa e discussão obrigatória com o oncologista. Existem situações em que a contraindicação é praticamente absoluta:
- Quimioterapia com náuseas e vômitos: os agonistas GLP-1 podem intensificar esses sintomas — já frequentes com esquemas como FOLFOX, FOLFIRINOX, carboplatina/paclitaxel — tornando o tratamento ainda mais difícil de tolerar e aumentando o risco de desidratação e internações por toxicidade.
- Câncer de pâncreas ou histórico de pancreatite: esses pacientes já têm risco elevado de inflamação pancreática, e os GLP-1 podem agravar essa condição.
- Risco de sarcopenia: estudos com análise de composição corporal mostram que 25–40% do peso perdido com agonistas GLP-1 corresponde à massa magra. Durante a quimioterapia, a perda de massa muscular (sarcopenia) está associada a maior toxicidade, menor tolerância ao tratamento e pior sobrevida.
- Antes de cirurgias oncológicas: sociedades de anestesiologia (ASA e SBA) recomendam suspender formulações semanais de semaglutida pelo menos 7 dias antes de procedimentos cirúrgicos, pelo risco de esvaziamento gástrico retardado e aspiração durante a anestesia.
- Tumores do sistema nervoso central: pacientes em acompanhamento por tumor cerebral devem discutir individualmente com o oncologista antes de iniciar qualquer medicamento para emagrecer.
De acordo com o National Cancer Institute (NIH), a manutenção do peso e da composição corporal adequados é um dos pilares do suporte oncológico — e qualquer estratégia de emagrecimento deve ser integrada ao plano de tratamento global.
GLP-1 e tipos específicos de câncer: o que a ciência investiga
Câncer colorretal
A evidência mais sólida de efeito protetor dos GLP-1 é para o câncer colorretal. O estudo do JAMA Oncology 2024 demonstrou redução de 17% no risco relativo em diabéticos usuários de GLP-1 vs. outros antidiabéticos. Estudos pré-clínicos sugerem que receptores GLP-1 no epitélio colônico podem inibir proliferação celular e induzir apoptose em células tumorais.
Câncer de mama
Para câncer de mama pós-menopausa, os dados são promissores mas indiretos: a redução do tecido adiposo visceral diminui a produção periférica de estrogênio, principal driver hormonal desse tumor. Estudos prospectivos específicos para câncer de mama ainda estão em andamento (NCT05521399).
Câncer de endométrio e fígado
Dois tipos fortemente associados à obesidade e à resistência insulínica. Modelos teóricos sugerem benefício significativo com GLP-1, mas os dados clínicos prospectivos ainda são preliminares. A redução do HOMA-IR (resistência à insulina) observada com semaglutida pode ser o mecanismo chave.
Estudos clínicos em andamento: o que esperar nos próximos anos
A interface entre agonistas GLP-1 e oncologia é uma das fronteiras mais ativas da pesquisa médica atual. Entre os estudos em andamento:
- SURMOUNT-MMO (Tirzepatida): avalia desfechos cardiometabólicos em obesos, incluindo incidência de neoplasias como desfecho secundário
- SELECT — análise de subgrupos oncológicos (semaglutida): análises exploratórias dos dados do SELECT focadas em incidência de câncer estão sendo publicadas progressivamente desde 2024
- Estudos LEADER e SUSTAIN — reanálise: revisões retrospectivas focadas em incidência oncológica em coortes de pacientes diabéticos com longa exposição a GLP-1
Os próximos 3–5 anos devem trazer evidências muito mais sólidas sobre o papel dos agonistas GLP-1 na prevenção oncológica. Por ora, as recomendações de uso baseiam-se na indicação clínica estabelecida (diabetes tipo 2 e obesidade), não em prevenção de câncer.
Alternativas às injeções para emagrecer no contexto oncológico
Sim — e uma delas é bastante subutilizada: a cirurgia bariátrica. Um estudo publicado no JAMA Surgery (2022) mostrou redução de 32% na incidência de câncer em pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica vs. tratamento clínico convencional, com seguimento de 10 anos.
Para pacientes em fase de remissão ou seguimento oncológico, programas estruturados de mudança de estilo de vida — com acompanhamento nutricional, atividade física supervisionada e suporte psicológico — são a estratégia de base recomendada tanto pela ASCO quanto pela SBOC para redução do risco de recorrência e de novos cânceres primários.
Para aqueles que consideram as injeções para emagrecer após concluir o tratamento oncológico, a conversa com o oncologista é essencial. Consulte também nosso artigo sobre exames de rastreamento do câncer como parte do cuidado preventivo contínuo.
Outras preocupações com os agonistas GLP-1 além do câncer
O histórico de outros medicamentos para obesidade — alguns retirados do mercado por cardiotoxicidade — naturalmente gera cautela. O que diferencia os GLP-1 é a longa experiência de uso em diabéticos: o estudo LEADER (liraglutida) e o SUSTAIN-6 (semaglutida) demonstraram inclusive benefício cardiovascular significativo.
Outros pontos de atenção relevantes:
- Custo e cobertura: o Ozempic custa entre R$ 800 e R$ 1.500/mês no Brasil; poucos planos cobrem para obesidade sem diabetes associada
- Uso off-label: uso por pessoas sem indicação clínica formal contribui para escassez e prejudica o acesso a quem realmente precisa
- Gastroparesia: condição de difícil tratamento que pode impactar severamente a qualidade de vida, especialmente em pacientes oncológicos já comprometidos
- Planejamento cirúrgico: suspensão antecipada obrigatória antes de procedimentos oncológicos e endoscópicos
O tratamento do câncer colorretal metastático é um dos contextos em que a relação peso-câncer é mais relevante. Leia mais sobre como a abordagem personalizada pode fazer diferença nos resultados.
Perguntas frequentes sobre Ozempic e Câncer
1. Quem tem câncer pode tomar Ozempic ou Wegovy para emagrecer?
Não existe uma resposta universal. Pacientes em tratamento oncológico ativo geralmente devem evitar, especialmente se tiverem náuseas, histórico de pancreatite ou câncer de pâncreas. Pacientes em remissão podem discutir essa possibilidade com o oncologista, que avaliará riscos e benefícios individualmente. Jamais inicie o uso por conta própria.
2. Ozempic aumenta o risco de câncer de tireoide?
Estudos iniciais levantaram essa hipótese, mas uma revisão da EMA (2023) concluiu que não há evidência de relação causal em humanos. A contraindicação formal existe para pessoas com histórico de carcinoma medular de tireoide ou síndrome MEN-2.
3. As injeções para emagrecer protegem contra o câncer colorretal?
O estudo do JAMA Oncology 2024 mostrou redução de 17% no risco em diabéticos usuários de GLP-1, independentemente do peso. Os dados ainda não são suficientes para indicar GLP-1 como estratégia preventiva para câncer colorretal, mas o sinal é promissor.
4. Posso usar injeções para emagrecer antes de uma cirurgia oncológica?
Não sem orientação médica. A ASA e a SBA recomendam suspender formulações semanais (como semaglutida) pelo menos 7 dias antes de qualquer cirurgia, pelo risco de aspiração durante a anestesia. Informe sempre sua equipe sobre qualquer medicamento em uso.
5. Injeções para emagrecer causam perda de massa muscular durante a quimioterapia?
Sim, e isso é uma preocupação clínica relevante. Estudos de composição corporal mostram que 25–40% da perda de peso com GLP-1 pode ser de massa magra. Durante a quimioterapia, a sarcopenia está associada a maior toxicidade e pior prognóstico. Em geral, não se recomenda uso concomitante sem supervisão muito próxima.
6. Qual é a melhor estratégia para emagrecer para quem já teve câncer?
Após concluir o tratamento oncológico, a abordagem mais recomendada é uma mudança estruturada de estilo de vida — alimentação saudável, atividade física regular, suporte nutricional e psicológico. Medicamentos como as injeções para emagrecer podem ser considerados como apoio adicional, sempre sob avaliação de um oncologista e de um endocrinologista.
7. Semaglutida pode ser usada por pacientes com câncer de pâncreas?
De forma geral, não. Pacientes com câncer de pâncreas já têm risco elevado de pancreatite, e os GLP-1 trazem potencial de exacerbar essa condição. A orientação das principais diretrizes oncológicas é evitar esses medicamentos nesse contexto, salvo avaliação muito individualizada.
8. O Ozempic pode ser usado por pacientes com câncer de mama em tratamento hormonal?
Esta é uma questão emergente. Não há contraindicação formal, mas o uso de GLP-1 durante hormonioterapia (tamoxifeno ou inibidores de aromatase) deve ser acompanhado de perto pelo oncologista. A redução do tecido adiposo e dos níveis de estrogênio periférico pode ser teoricamente benéfica, mas dados clínicos prospectivos ainda são escassos.
A decisão exige diálogo com seu oncologista
As injeções para emagrecer representam um avanço real no tratamento da obesidade — condição que impacta diretamente o risco oncológico. Há indícios crescentes, especialmente para câncer colorretal, de que os GLP-1 possam ter efeito protetor adicional além do emagrecimento. Mas, para quem vive com o diagnóstico ou está em tratamento, esses medicamentos trazem riscos específicos que não podem ser ignorados: piora de náuseas, perda muscular durante a quimioterapia e possíveis complicações pancreáticas.
A mensagem central é clara: não existe decisão segura sem conversa com a equipe oncológica. Se você tem interesse em usar Ozempic ou outras injeções para emagrecer, leve essa dúvida ao seu oncologista em São Paulo. Ele poderá avaliar o momento certo, os riscos específicos do seu caso e a melhor estratégia para cuidar do seu peso sem comprometer o tratamento.
Além disso, manter o rastreamento do câncer em dia é parte essencial do cuidado preventivo, especialmente para quem tem histórico familiar ou fatores de risco associados ao sobrepeso.



