Preventivo anal: quem deve fazer o rastreamento do câncer anal

Assim como o papanicolau previne o câncer de colo do útero, existe um exame que encontra lesões no ânus antes de virarem câncer. Veja quem deve fazer, a partir de que idade e como é o preventivo anal.

O preventivo anal, ou citologia anal, é um exame parecido com o papanicolau, feito com um cotonete na entrada do ânus. Ele procura células alteradas pelo HPV antes que virem câncer. Não é indicado para todo mundo: é recomendado para grupos com risco muito aumentado, como pessoas vivendo com HIV, homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, transplantados e mulheres com histórico de lesão ou câncer de vulva. Quando o resultado vem alterado, o próximo passo é a anuscopia de alta resolução com biópsia.

O câncer de colo do útero caiu muito nos países que organizaram o papanicolau, porque o exame encontra as lesões antes de virarem câncer. O ânus funciona de forma muito parecida: o mesmo vírus, o HPV, causa lesões que podem levar anos para se transformar em tumor. O mesmo raciocínio vale para o ânus.

Por muito tempo esse rastreamento foi feito só em alguns centros, porque faltava a prova de que tratar as lesões realmente evitava o câncer. Essa prova chegou em 2022, com o estudo ANCHOR, e desde então sociedades internacionais publicaram recomendações claras. Esta página explica quem deve fazer o preventivo anal, a partir de que idade e como é o exame. Para entender a doença em si, veja o guia sobre câncer anal.

O que é o preventivo anal?

O preventivo anal é a coleta de células da parede do canal anal com um cotonete, para análise no microscópio. É o equivalente do papanicolau, só que no ânus, e por isso também é chamado de citologia anal ou papanicolau anal. Ele pode ser associado ao teste de HPV, feito na mesma amostra, e ao toque retal.

Dúvidas sobre preventivo anal?

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O objetivo não é achar câncer, e sim achar o que vem antes dele. O HPV pode causar lesões de baixo grau (LSIL), que são como manchas superficiais e raramente evoluem, e lesões de alto grau (HSIL), que são como rachaduras profundas numa parede e podem, com os anos, se transformar em câncer. Encontrar e tratar as lesões de alto grau, antes que se instale um câncer anal invasivo, é como consertar a rachadura antes que a parede caia.

Por que o preventivo anal funciona?

Porque o estudo ANCHOR, publicado no New England Journal of Medicine em 2022, mostrou que tratar as lesões de alto grau reduz o risco de câncer anal. Nesse estudo, que acompanhou milhares de pessoas vivendo com HIV a partir dos 35 anos, o tratamento das lesões diminuiu em cerca de 57% os casos de câncer em comparação com apenas observar.

O estudo também mostrou como essas lesões são frequentes em quem tem risco alto: estavam presentes em 55% dos homens, 47% das mulheres e 67% das pessoas trans vivendo com HIV que foram examinadas. Muitas não davam sintoma nenhum.

Há, porém, uma condição importante. O rastreamento só faz sentido quando existe acesso, na mesma rede, à anuscopia de alta resolução, à biópsia e ao tratamento das lesões. Fazer a coleta sem ter para onde encaminhar um resultado alterado gera ansiedade sem benefício.

Quem deve fazer o preventivo anal?

O preventivo anal é recomendado para grupos com risco de câncer anal pelo menos dez vezes maior que o da população geral. Um esclarecimento importante: os grupos citados nas diretrizes médicas descrevem exposição ao HPV e condições de imunidade, e não julgam orientação sexual, identidade de gênero ou estilo de vida. A expressão “homens que fazem sexo com homens” é o termo técnico usado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde para descrever uma prática, e não a identidade de ninguém. O risco vem do vírus e da imunidade, e qualquer pessoa, de qualquer orientação ou identidade, pode ter câncer anal. Por isso, a indicação do exame é individual e discutida com sigilo no consultório.

As recomendações seguem o consenso da Sociedade Internacional de Neoplasia Anal (IANS), de 2024, e as diretrizes de infecções oportunistas em HIV dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Grupos em que o rastreamento é recomendado:

  • Pessoas vivendo com HIV.
  • Homens que fazem sexo com homens.
  • Mulheres trans, com ou sem HIV.
  • Pessoas que receberam transplante de órgão sólido.
  • Mulheres com lesão de alto grau ou câncer de vulva.

Grupos em que a decisão é compartilhada com o médico: mulheres que tiveram câncer ou lesão de alto grau no colo do útero ou na vagina, pessoas com verrugas perianais, mulheres com infecção persistente pelo HPV 16 no colo do útero por mais de um ano e pessoas com outras causas de imunidade baixa, como doenças autoimunes tratadas com imunossupressores. Nesses grupos o risco também é maior, mas ainda faltam estudos de qualidade que mostrem benefício claro do rastreamento, e a recomendação não é uniforme entre especialistas.

Para a população geral, sem esses fatores, o rastreamento não é recomendado. Nesse caso, o cuidado é procurar avaliação diante de sintomas, como sangramento ou caroço que não passam.

A partir de que idade fazer o preventivo anal?

A idade de início depende do grupo de risco. As faixas abaixo seguem as recomendações internacionais mais recentes.

Grupo Quando começar Com que frequência
Homens que fazem sexo com homens vivendo com HIV A partir de 35 anos A cada 1 a 3 anos, conforme o resultado
Mulheres trans vivendo com HIV A partir de 35 anos A cada 1 a 3 anos, conforme o resultado
Demais pessoas vivendo com HIV A partir de 45 anos A cada 1 a 3 anos, conforme o resultado
Homens que fazem sexo com homens e mulheres trans sem HIV A partir de 45 anos A cada 2 a 3 anos
Transplantados de órgão sólido Até 10 anos depois do transplante A cada 1 a 3 anos, conforme o resultado
Mulheres com lesão de alto grau ou câncer de vulva Até 1 ano depois do diagnóstico Conforme o resultado

Ainda não existe uma idade definida para parar. Pessoas que mantêm testes de HPV negativos de forma repetida têm risco baixo e podem espaçar ou interromper o rastreamento, em conversa com o médico.

Como é feito o preventivo anal?

O exame é rápido, feito no consultório, sem anestesia e sem preparo do intestino. Costuma causar desconforto leve, mas não dor.

  1. Conversa inicial. O médico pergunta sobre sintomas, vida sexual, verrugas anteriores, situação do HIV (CD4 e carga viral), tabagismo e remédios que reduzem a imunidade.
  2. Inspeção da pele. A região ao redor do ânus é examinada à procura de verrugas, manchas ou feridas.
  3. Coleta com cotonete. Com a pessoa deitada de lado, um cotonete de poliéster umedecido com água é introduzido cerca de 4 a 5 centímetros no ânus e retirado devagar, girando, para colher células de toda a volta do canal. A coleta é feita sem lubrificante, que atrapalha a leitura.
  4. Teste de HPV, quando indicado. Pode ser feito na mesma amostra.
  5. Toque retal. Depois da coleta, o médico examina o canal com o dedo enluvado e lubrificado, à procura de endurecimentos que possam indicar um câncer já formado.

Para que a amostra fique boa, o ideal é não fazer ducha anal, não usar cremes ou supositórios e evitar relação sexual anal nas 24 horas antes do exame.

Dá para coletar em casa?

Estudos mostram que a autocoleta, feita pela própria pessoa com orientação, tem resultados parecidos com a coleta pelo profissional, com sensibilidade um pouco menor. É uma opção em estudo para ampliar o acesso, mas na prática brasileira a coleta ainda é feita, em geral, no consultório.

O que significa o resultado do preventivo anal?

O resultado da citologia anal usa a mesma classificação do papanicolau (Sistema Bethesda). O quadro abaixo traduz os termos mais comuns.

Resultado O que significa Próximo passo habitual
Negativo Nenhuma célula alterada Repetir no intervalo do seu grupo
ASC-US Células com alteração leve, de significado indeterminado Anuscopia de alta resolução, sobretudo se o HPV for positivo
LSIL Lesão de baixo grau Anuscopia de alta resolução
ASC-H Alteração que não permite descartar alto grau Anuscopia de alta resolução
HSIL Lesão de alto grau Anuscopia de alta resolução com biópsia

Quando a citologia é feita junto com o teste de HPV, a anuscopia é indicada se: a citologia for normal mas o HPV for do tipo 16 ou 18; a citologia mostrar ASC-US com qualquer HPV de alto risco; ou a citologia mostrar LSIL ou algo pior, independentemente do HPV. Qualquer sintoma anal ou alteração no toque também leva à anuscopia.

O preventivo anal é confiável?

É um bom exame para triagem, mas não é perfeito. Em uma grande revisão, ele identificou cerca de 81% das lesões de alto grau e teve valor preditivo negativo de 94%, ou seja, um resultado normal é tranquilizador. Por outro lado, gera muitos alarmes falsos: cerca de 4 em cada 10 pessoas de risco têm algum resultado alterado, e nem todas têm lesão de alto grau na biópsia. Por isso, ele funciona como uma peneira que separa quem precisa do exame detalhado, a anuscopia.

O que é a anuscopia de alta resolução?

A anuscopia de alta resolução é o exame que confirma o diagnóstico. Ela usa um aparelho de aumento chamado colposcópio, o mesmo do exame ginecológico, para olhar o canal anal em detalhe, como uma lupa de joalheiro. Antes de olhar, o médico aplica ácido acético (vinagre diluído) e lugol, que fazem as áreas alteradas ficarem brancas ou não pegarem a coloração, e então colhe biópsias desses pontos.

O exame é feito no consultório, em geral com anestésico local em creme, e dura de 15 a 30 minutos. A biópsia é o que diferencia uma lesão de baixo grau, que em geral só é acompanhada, de uma lesão de alto grau, que deve ser tratada para prevenir o câncer anal. O tratamento das lesões costuma ser feito com eletrocauterização, laser, cremes ou pequenas retiradas, conforme o tamanho e a localização.

É um exame que exige treinamento específico, e poucos centros no Brasil o oferecem. Saber onde fazer a anuscopia antes de começar o rastreamento é parte do planejamento.

A vacina contra o HPV substitui o preventivo anal?

Não, mas os dois se complementam. A vacina previne novas infecções e funciona melhor quando aplicada antes do início da vida sexual. Em homens jovens, reduziu entre 50% e 78% as lesões anais causadas pelos tipos de HPV que ela cobre. Em pessoas vivendo com HIV acima de 26 anos, que em geral já tiveram contato com o vírus, a proteção foi bem menor, em torno de 20%.

A lógica é a mesma da imunoterapia e da prevenção no câncer de colo do útero, outro tumor causado pelo HPV, que também pode atingir a orofaringe. A vacina não trata lesões que já existem. Por isso, quem está em um grupo de risco deve manter o rastreamento mesmo vacinado. No Brasil, o Ministério da Saúde disponibiliza a vacina no SUS para meninas e meninos a partir dos 9 anos e para grupos especiais, como pessoas vivendo com HIV, transplantados e pacientes em tratamento de câncer, com faixas etárias atualizadas periodicamente.

Outras medidas reduzem o risco: parar de fumar, usar preservativo e, para quem vive com HIV, manter o tratamento com carga viral indetectável, que ao longo dos anos traz alguma proteção contra as lesões.

Quem pede e quem faz o preventivo anal?

A citologia anal pode ser pedida e coletada por infectologistas, coloproctologistas, ginecologistas e médicos de família treinados. A anuscopia de alta resolução é feita por coloproctologistas e outros profissionais com formação específica. O oncologista clínico entra quando a biópsia mostra câncer, dentro de uma equipe multidisciplinar, conduzindo o tratamento do câncer anal junto com radioterapeuta e cirurgião, e, quando a doença se espalha, o tratamento do câncer anal metastático. Também orienta pacientes oncológicos que fazem parte de grupos de risco, como mulheres tratadas de câncer de colo do útero ou de vulva.

Perguntas frequentes sobre o preventivo anal

O preventivo anal dói?

Em geral, não. A coleta com cotonete dura poucos segundos e causa desconforto leve, parecido com o do papanicolau. O toque retal que vem depois também é rápido.

Quem deve fazer o preventivo anal?

Pessoas vivendo com HIV, homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, transplantados e mulheres com lesão de alto grau ou câncer de vulva. Outros grupos com risco aumentado decidem junto com o médico.

Mulher precisa fazer preventivo anal?

Não de rotina. É recomendado para mulheres vivendo com HIV, transplantadas e com histórico de lesão de alto grau ou câncer de vulva, e pode ser considerado em quem teve câncer ou lesão de alto grau no colo do útero ou na vagina.

Qual é a preparação para o preventivo anal?

Evitar ducha anal, cremes, supositórios e relação sexual anal nas 24 horas anteriores. Não é preciso jejum nem limpeza do intestino.

Resultado alterado no preventivo anal é câncer?

Quase nunca. A maior parte dos resultados alterados corresponde a lesões causadas pelo HPV, de baixo ou alto grau, e não a câncer. O resultado indica a necessidade de anuscopia de alta resolução para esclarecer.

O preventivo anal é coberto pelo plano de saúde?

A citologia é um exame laboratorial comum e costuma ter cobertura, mas a anuscopia de alta resolução nem sempre está disponível na rede do plano. Vale confirmar antes onde o exame pode ser feito.

Quem não está em nenhum grupo de risco precisa fazer preventivo anal?

Não de rotina. Para pessoas sem HIV, sem transplante, sem outra causa importante de imunidade baixa e sem histórico de lesões ligadas ao HPV, o rastreamento não é recomendado. Mesmo sem indicação de rastreamento, sintomas como sangramento ou caroço anal devem ser avaliados.

Dúvidas sobre preventivo anal?

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliar o seu caso, agende uma consulta com o Dr. Hugo Tanaka.

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Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM-SP 163.241 | RQE 100.689 | Oncologia Clínica

Oncologista clínico, doutor e mestre em Oncologia Clínica pela FMABC, com fellowship em tumores neuroendócrinos no A.C. Camargo Cancer Center e observership no Princess Margaret Cancer Centre, em Toronto. Dedica-se ao tratamento de tumores gastrointestinais e neuroendócrinos.

Revisor ad hoc do Brazilian Journal of Oncology, revista científica oficial da SBOC, e coautor de pesquisas publicadas em periódicos nacionais e internacionais. Atende em Moema, no Itaim Bibi e online. Conheça a trajetória do Dr. Hugo

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