Compreender como isso acontece, quais sinais devem alertar você e quais são as opções de tratamento disponíveis pode fazer toda a diferença no cuidado com sua saúde.
Dados importantes sobre metástase no fígado no Brasil:
- A metástase hepática é mais comum do que o câncer primário de fígado
- Aproximadamente 25% dos pacientes com câncer colorretal desenvolvem metástases no fígado¹
- Em 15% a 20% dos casos, a metástase já está presente no momento do diagnóstico inicial²
- Até 60% dos pacientes com câncer colorretal podem desenvolver metástase hepática ao longo da vida³
- O fígado é o segundo órgão mais acometido por metástases, perdendo apenas para os linfonodos
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), a detecção da metástase no fígado muitas vezes é o primeiro diagnóstico de câncer que o paciente recebe. Isso acontece porque este órgão vital filtra cerca de 1,5 litros de sangue por minuto, tornando-se um destino comum para células cancerosas que viajam pela circulação.
1. O que é metástase no fígado e como ela acontece?
A metástase no fígado, também chamada de metástase hepática, ocorre quando células cancerosas se desprendem de um tumor em outra região do corpo e viajam pela corrente sanguínea ou sistema linfático até atingir o fígado. É fundamental entender que esse não é um câncer de fígado propriamente dito, mas sim uma extensão do câncer original.
Por exemplo, se você tem câncer de intestino que se espalhou para o fígado, ainda é considerado câncer de intestino metastático, não câncer hepático primário. O tratamento e o prognóstico dependem do tipo de tumor original, não do fígado em si.
2. Por que o fígado é tão vulnerável às metástases?
O fígado é um dos órgãos mais afetados por metástases porque desempenha um papel central na filtragem do sangue. Este órgão vital pesa cerca de 1,5 kg, possui mais de 500 funções essenciais e processa aproximadamente 1,4 litros de sangue a cada minuto. Quando células cancerosas se desprendem do tumor original, elas frequentemente entram na corrente sanguínea e acabam sendo “filtradas” pelo fígado.
3. Como acontece o processo de metástase?
O processo de disseminação do câncer metastático de fígado ocorre em seis etapas principais:
- Invasão local: As células cancerosas se desprendem do tumor primário e invadem tecidos próximos
- Entrada nos vasos: Penetram nas paredes dos vasos sanguíneos ou linfáticos
- Circulação: Viajam pelo sistema circulatório ou linfático por todo o corpo
- Parada no fígado: Param de circular quando chegam aos capilares hepáticos
- Extravasamento: Saem dos vasos sanguíneos e invadem o tecido do fígado
- Proliferação: Começam a se multiplicar, formando micrometástases que crescem e se tornam tumores visíveis
4. Quais cânceres mais causam metástase hepática?
Os cânceres que mais frequentemente causam metástase no fígado são:
- Câncer colorretal (intestino grosso): É o principal responsável, com até 60% dos pacientes desenvolvendo metástases hepáticas ao longo da vida⁴. Em 15% a 20% dos casos, a metástase já está presente no momento do diagnóstico inicial. É também o tipo de metástase que mais se beneficia do tratamento cirúrgico.
- Câncer de mama: Especialmente os subtipos triplo-negativo e HER2-positivo podem se espalhar para o fígado em estágios avançados. As metástases hepáticas de câncer de mama geralmente respondem bem à quimioterapia e terapias-alvo.
- Câncer de pulmão: Tanto o câncer de células pequenas quanto o de células não pequenas frequentemente desenvolvem metástases hepáticas devido à proximidade com a circulação sanguínea.
- Câncer de pâncreas: Tem alta tendência de disseminação para o fígado pela proximidade anatômica e conexões vasculares diretas.
- Câncer de estômago: Também apresenta risco elevado de metástases hepáticas, especialmente em estágios avançados.
- Melanoma (câncer de pele): É conhecido por sua capacidade de metastatizar para múltiplos órgãos, incluindo o fígado.
- Tumores neuroendócrinos: Têm tendência particular de causar metástases hepáticas e podem se beneficiar de tratamentos específicos, incluindo transplante de fígado em casos selecionados.
- Outros cânceres: Câncer de ovário, rim, esôfago, próstata, leucemias e linfomas também podem atingir o fígado, embora com menor frequência.
5. Sintomas de metástase no fígado que você precisa conhecer
Nos estágios iniciais, a metástase no fígado geralmente não causa sintomas específicos. Estudos mostram que cerca de 40% das pessoas com metástase hepática inicial não apresentam sintomas⁵. Isso torna o acompanhamento médico regular tão importante para quem já teve diagnóstico de câncer.

Atenção: Outros sintomas menos comuns incluem aparecimento de vasos sanguíneos visíveis na pele do abdômen (circulação colateral), inchaço nas pernas, sangramentos (devido à diminuição da produção de fatores de coagulação) e aumento do baço (esplenomegalia), especialmente quando o tumor primário é de pâncreas.
6. Como é feito o diagnóstico de metástase hepática?
Se você apresenta algum desses sintomas e tem histórico de câncer, seu médico provavelmente solicitará exames para investigar. O diagnóstico da metástase no fígado geralmente começa com uma avaliação clínica detalhada seguida de exames complementares, conforme orientações da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
Exames de sangue
Os exames laboratoriais podem mostrar alterações na função hepática:
- Enzimas hepáticas: TGO (AST), TGP (ALT), GGT e fosfatase alcalina
- Bilirrubinas: Total e direta
- Marcadores tumorais: CEA, CA 19-9, CA 15-3, AFP
- Albumina e coagulograma
- Hemograma completo e função renal
Exames de imagem
- Ultrassonografia abdominal: Primeiro exame, não invasivo, detecta lesões >1 cm. Sensibilidade: 60-80%.
- Tomografia computadorizada (TC) com contraste: Exame padrão-ouro. TC trifásica essencial para planejamento cirúrgico. Sensibilidade: >85%.
- Ressonância magnética (RM): Mais sensível, detecta lesões muito pequenas (<1 cm). RM com contraste específico aumenta detecção.
- PET-CT: Combina imagem anatômica com atividade metabólica. Identifica metástases em outros órgãos.
Biópsia hepática: indicada em casos de dúvida diagnóstica, tumor primário não identificado, quando pode alterar a conduta terapêutica ou para avaliar características moleculares do tumor.
7. Tratamentos disponíveis para metástase no fígado
O tratamento do câncer metastático de fígado depende de vários fatores e deve ser discutido por equipe multidisciplinar, seguindo diretrizes estabelecidas pelo National Comprehensive Cancer Network (NCCN) e pela European Society for Medical Oncology (ESMO).
O planejamento terapêutico para metástases hepáticas exige avaliação minuciosa de diversos fatores inter-relacionados. O tipo histológico do tumor primário determina o comportamento biológico e a resposta esperada aos tratamentos. As características das lesões metastáticas, incluindo número, dimensões e distribuição hepática, definem a viabilidade de abordagens locais e o prognóstico. A função hepática preservada é essencial tanto para tolerar tratamentos quanto para manter as funções metabólicas vitais.
A presença ou ausência de doença extra-hepática modifica substancialmente a estratégia terapêutica e os objetivos do tratamento. O estado geral do paciente, suas comorbidades e capacidade funcional influenciam diretamente a tolerância às intervenções propostas. Finalmente, o histórico de tratamentos prévios, suas respostas e toxicidades orientam a seleção das melhores opções subsequentes, otimizando resultados e evitando resistências conhecidas.
- Cirurgia (Hepatectomia): A hepatectomia é o tratamento de escolha para metástases hepáticas limitadas, oferecendo taxas de sobrevida de 40-50% em 5 anos para câncer colorretal⁶.
- Técnicas disponíveis: Cirurgia aberta convencional, Videolaparoscopia (minimamente invasiva) e Cirurgia robótica.
- Requisito essencial: Preservação de no mínimo 25-30% do volume hepático saudável para garantir função adequada pós-operatória.
- Quimioterapia e Terapias Sistêmicas: Controle Multifacetado das Metástases Hepáticas
- Quimioterapia Sistêmica Convencional: Os esquemas quimioterápicos mais utilizados no tratamento de metástases hepáticas de câncer colorretal incluem FOLFOX, FOLFIRI e CAPOX⁷. Estes protocolos combinam múltiplos agentes citotóxicos para maximizar a resposta tumoral e, em casos selecionados, converter metástases inicialmente irressecáveis em candidatas à cirurgia curativa.
- Quimioterapia Intra-Arterial Hepática: Esta técnica avançada permite a administração de doses elevadas de quimioterápicos diretamente na artéria hepática, proporcionando maior concentração da medicação no tumor com redução dos efeitos colaterais sistêmicos. É particularmente útil em metástases hepáticas predominantes ou exclusivas.
- Terapias-Alvo (Targeted Therapy): Medicamentos biológicos que atuam em alvos moleculares específicos das células tumorais:
- Bevacizumab (Avastin): Anticorpo anti-angiogênico que bloqueia a formação de novos vasos sanguíneos tumorais
- Cetuximab (Erbitux): Inibidor do receptor de fator de crescimento epidérmico (EGFR), indicado para tumores RAS selvagem
- Panitumumab (Vectibix): Outro anti-EGFR com mecanismo similar ao cetuximab
- Regorafenib (Stivarga): Inibidor multi-quinase utilizado em linhas avançadas de tratamento após progressão a outras terapias
- Imunoterapia: Tratamento revolucionário que ativa o sistema imunológico do próprio paciente contra as células tumorais, indicado especificamente para tumores com instabilidade de microssatélites (MSI-H) ou deficiência no reparo de DNA (dMMR):
- Pembrolizumab (Keytruda): Inibidor de checkpoint PD-1 com respostas duradouras em pacientes selecionados
- Nivolumab (Opdivo): Outro bloqueador de PD-1, que pode ser utilizado isoladamente ou em combinação com outros agentes
- Ablação por Radiofrequência e Microondas: Destruição Térmica Minimamente Invasiva: Técnicas percutâneas que utilizam energia térmica para destruir as células tumorais por meio de calor intenso. São procedimentos minimamente invasivos, realizados geralmente por agulhas guiadas por imagem (ultrassom ou tomografia), com excelente perfil de segurança. Indicação preferencial para tumores menores que 3-5 cm, especialmente quando a cirurgia não é viável ou como complemento ao tratamento cirúrgico.
- Radioterapia Estereotáxica Corporal (SBRT): Radiocirurgia de Alta Precisão – Tecnologia avançada de radioterapia que administra doses ablativas de radiação com extrema precisão em poucas sessões (tipicamente 3-5 aplicações). Oferece taxas de controle local superiores a 80-90% em 1 ano, sendo alternativa eficaz para pacientes não candidatos à cirurgia ou ablação. A SBRT preserva o tecido hepático saudável ao redor do tumor, minimizando efeitos colaterais.
- Radioembolização com Ítrio-90 (SIRT): Radioterapia Interna Seletiva – Procedimento sofisticado que consiste na injeção de microesferas radioativas contendo Ítrio-90 diretamente nas artérias que nutrem os tumores hepáticos. Esta técnica permite administrar altas doses de radiação localmente no tumor, poupando o fígado saudável. Particularmente útil em pacientes com múltiplas metástases hepáticas ou doença irressecável.
- Quimioembolização Transarterial (TACE): Terapia Combinada Loco-Regional – Procedimento que combina a administração de quimioterapia concentrada diretamente no tumor com o bloqueio do suprimento sanguíneo arterial que nutre as lesões. Esta dupla ação – citotóxica e isquêmica – potencializa a destruição tumoral enquanto limita a exposição sistêmica aos quimioterápicos, reduzindo efeitos colaterais.
- Transplante Hepático: Opção Curativa em Casos Altamente Selecionados – O transplante de fígado representa uma alternativa terapêutica para situações excepcionais onde outros tratamentos não são aplicáveis. A seleção criteriosa é fundamental para o sucesso. Indicações específicas:
- Tumores neuroendócrinos metastáticos: Quando a doença está confinada ao fígado e o tumor primário foi controlado.
- Câncer colorretal metastático: Segundo os rigorosos critérios de Oslo, que incluem doença restrita exclusivamente ao fígado, tumores irressecáveis por métodos convencionais, e resposta sustentada à quimioterapia por pelo menos 6 meses.
- Requisitos gerais: Ausência de doença extrahepática, bom estado geral do paciente, e possibilidade de doador compatível.
8. Metástase no fígado tem cura?
A possibilidade de cura das metástases hepáticas varia significativamente conforme diversos fatores clínicos e patológicos. Em pacientes com câncer colorretal submetidos à ressecção cirúrgica completa, observa-se sobrevida em cinco anos entre 40% e 58%. Quando a cirurgia é combinada com protocolos modernos de quimioterapia, a sobrevida mediana alcança de cinco a sete anos. Para aqueles tratados exclusivamente com quimioterapia, sem possibilidade cirúrgica, a sobrevida mediana situa-se entre 20 e 30 meses. Na ausência de qualquer tratamento, a expectativa de vida reduz-se drasticamente para seis a oito meses de sobrevida mediana. Casos especiais como tumores neuroendócrinos apresentam prognóstico mais favorável, com sobrevida superior a 70% em cinco anos.
O prognóstico individual depende de múltiplos aspectos interrelacionados. O tipo histológico do tumor primário constitui elemento fundamental na determinação da resposta terapêutica. Características quantitativas e dimensionais das lesões metastáticas, como número e tamanho das metástases, impactam diretamente as possibilidades de tratamento. A sensibilidade tumoral aos esquemas quimioterápicos e a viabilidade técnica de ressecção cirúrgica completa representam fatores decisivos no planejamento terapêutico. Adicionalmente, o estado geral de saúde do paciente, a existência de comprometimento metastático em outros órgãos, os níveis séricos de marcadores tumorais específicos e o intervalo temporal entre o diagnóstico da neoplasia primária e o surgimento das metástases contribuem para a avaliação prognóstica global.
9. Qual a importância do acompanhamento médico regular?
Classificação temporal das metástases hepáticas
As metástases hepáticas são classificadas temporalmente conforme o intervalo entre o diagnóstico do tumor primário e a identificação das lesões secundárias no fígado. Denominam-se sincrônicas aquelas diagnosticadas até seis meses após a detecção da neoplasia primária, enquanto as metacrônicas correspondem às lesões identificadas após decorridos mais de seis meses do diagnóstico inicial.
Protocolo de seguimento para pacientes com câncer colorretal
O acompanhamento oncológico segue protocolos estruturados para detecção precoce de recidivas. Nos dois primeiros anos após o tratamento, recomenda-se avaliação clínica ambulatorial a cada três a seis meses. A monitorização laboratorial mediante dosagem do marcador tumoral CEA e avaliação da função hepática deve ser realizada com periodicidade trimestral a semestral. Exames de imagem através de tomografia computadorizada de tórax e abdome são indicados a cada seis a doze meses durante o período de três a cinco anos. Adicionalmente, preconiza-se realização de colonoscopia aproximadamente um ano após o procedimento cirúrgico inicial.
10. Quando procurar um médico imediatamente?
Procure seu oncologista se apresentar:
- Perda de peso >5 kg em poucas semanas
- Dor abdominal persistente ou progressiva
- Icterícia
- Fadiga intensa
- Inchaço abdominal ou ascite
- Confusão mental ou sonolência excessiva
- Febre persistente
- Urina muito escura ou fezes claras
- Coceira generalizada intensa
- Náuseas e vômitos persistentes
Importante: Mesmo sintomas vagos merecem atenção quando há histórico oncológico. O diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença no resultado do tratamento.
Outras perguntas frequentes sobre metástase no fígado
Metástase hepática tem cura?
Sim, em casos selecionados. Quando há poucas lesões e elas podem ser completamente removidas por cirurgia, especialmente em metástases de câncer colorretal, as taxas de cura podem chegar a 40-50% em cinco anos.
Qual o tempo de sobrevida com metástase no fígado?
Varia conforme o tipo de câncer e tratamento. Com cirurgia completa (câncer colorretal): >5 anos. Com quimioterapia moderna: 2-3 anos. Sem tratamento: 6-8 meses.
É possível viver com metástase no fígado?
Sim. Com tratamentos modernos, muitos pacientes vivem anos com boa qualidade de vida, mesmo com a doença controlada.
Metástase no fígado sempre causa sintomas?
Não. Cerca de 40% dos pacientes não apresentam sintomas nos estágios iniciais.
Qual a diferença entre metástase e recidiva?
Recidiva é quando o câncer volta no mesmo local original. Metástase é quando o câncer se espalha para outros órgãos distantes.
Quantas metástases no fígado podem ser operadas?
Não existe número máximo fixo. O que importa é remover todas completamente deixando 25-30% de fígado saudável.
O que causa metástase no fígado?
Células cancerosas se desprendem do tumor original, viajam pela corrente sanguínea e se instalam no fígado, que filtra 1,4 litros de sangue por minuto.
Quimioterapia cura metástase no fígado?
Raramente sozinha, mas é fundamental. Pode reduzir tumores, torná-los operáveis, controlar progressão e prolongar sobrevida.
Quanto tempo de quimioterapia?
Varia muito. Pré-cirúrgico: 2-3 meses. Pós-cirúrgico: 3-6 meses. Não operável: pode durar meses ou anos enquanto controlar a doença.
Metástase no fígado dói?
Inicialmente não. Com crescimento das metástases pode surgir dor no hipocôndrio direito, que pode irradiar para ombro direito.
Os avanços na medicina oncológica têm sido significativos. Tratamentos que não existiam há uma década hoje oferecem esperança e resultados concretos. Técnicas cirúrgicas mais refinadas, quimioterapias mais eficazes, imunoterapias revolucionárias e procedimentos minimamente invasivos têm transformado o prognóstico de pacientes com metástases hepáticas.



