Papanicolau: para que serve, como é feito e quando realizar

O Papanicolau é a principal estratégia de prevenção do câncer de colo do útero e pode reduzir em até 80% as mortes pela doença. Saiba para que serve, como é feito, em que idade começar, como se preparar e o que mudou com as novas diretrizes brasileiras de 2025.

O exame Papanicolau, também chamado de citologia cervical, é a principal estratégia de rastreamento do câncer de colo do útero no Brasil há mais de 80 anos. Entender o exame Papanicolau, para que serve, como ele é feito e em qual idade começar pode reduzir em até 80% o risco de morte por essa doença. Conheça as recomendações atualizadas pelo INCA em 2025 e tire suas principais dúvidas neste guia preparado por um oncologista clínico.

Criado na década de 1940 pelo patologista grego George Papanicolaou, o exame Papanicolau revolucionou a prevenção do câncer cervical no mundo. Mais de oito décadas depois, ele continua sendo um dos exames mais importantes da saúde da mulher — e, em muitos países em desenvolvimento, ainda é a principal ferramenta de detecção precoce de lesões que podem evoluir para tumor maligno.

Quando uma paciente chega ao consultório com a pergunta “Para que serve o Papanicolau?”, a resposta vai muito além do simples rastreamento de câncer. O exame é também uma janela de oportunidade: ele identifica alterações em um momento em que tratamentos relativamente simples conseguem evitar a evolução para um tumor invasivo. Por isso, entender para que serve o Papanicolau é o primeiro passo para qualquer mulher se proteger.

O que é o exame Papanicolau?

O Papanicolau — também conhecido como citologia oncótica, citologia cervicovaginal, colpocitologia ou preventivo ginecológico — é um exame laboratorial que analisa, ao microscópio, células coletadas do colo do útero. Essa região fica na parte inferior do útero, em conexão com a vagina, e é onde se desenvolve a grande maioria dos casos de câncer de colo do útero.

Durante a coleta, o ginecologista retira uma pequena amostra de células da chamada zona de transformação — a área de transição entre dois tipos de epitélio do colo uterino, onde quase todos os cânceres cervicais têm origem. O material é enviado a um laboratório de citopatologia, onde um profissional especializado avalia se há alterações sugestivas de inflamação, infecção ou lesões pré-malignas.

Papanicolau: para que serve esse exame preventivo?

Essa é a dúvida mais comum entre as pacientes. Para que serve o Papanicolau, afinal? A principal função do exame é detectar precocemente lesões pré-cancerosas no colo do útero, antes que elas se transformem em câncer invasivo. Mas ele também ajuda a identificar:

  • Alterações celulares sugestivas de infecção pelo HPV (Papilomavírus Humano), principal causa do câncer de colo do útero;
  • Lesões intraepiteliais cervicais (NIC) de baixo ou alto grau, que, se não tratadas, evoluem para câncer ao longo de anos;
  • Infecções vaginais como candidíase, tricomoníase e vaginose bacteriana (Gardnerella);
  • Cervicites (inflamações crônicas do colo uterino);
  • Alterações hormonais e atrofia das células cervicais, comuns na pós-menopausa.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o rastreamento adequado pode prevenir até 80% dos casos de câncer cervical em países com programas organizados. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) estima que, se 80% das mulheres realizassem o exame regularmente, a incidência da doença cairia drasticamente em todo o mundo.

Como o exame é feito na prática?

O Papanicolau é simples, rápido e geralmente indolor — embora possa causar leve desconforto. O passo a passo costuma ser:

  1. A paciente fica deitada na maca ginecológica, com os pés apoiados nos estribos.
  2. O médico introduz cuidadosamente um instrumento chamado espéculo (popularmente conhecido como “bico de pato”), que afasta as paredes vaginais e permite a visualização do colo do útero.
  3. Com uma espátula de Ayre e uma escovinha endocervical, são coletadas células da superfície externa (ectocérvice) e do canal interno (endocérvice).
  4. O material é colocado em uma lâmina (citologia convencional) ou em um frasco com líquido conservante (citologia em meio líquido) e enviado ao laboratório.

Todo o procedimento dura entre 5 e 10 minutos. O resultado costuma ficar pronto em 7 a 15 dias úteis.

Quem deve fazer Papanicolau e em que idade começar?

De acordo com as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero do Ministério da Saúde e do INCA, o Papanicolau deve ser realizado por mulheres entre 25 e 64 anos que já tiveram vida sexual. A rotina recomendada é:

  • Início: aos 25 anos, em mulheres que já iniciaram a vida sexual;
  • Primeiros dois exames: com intervalo de um ano entre eles;
  • Após dois resultados normais consecutivos: o intervalo passa para três anos;
  • Encerramento do rastreamento: aos 64 anos, em mulheres com pelo menos dois exames normais consecutivos nos últimos cinco anos.

A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) endossa essas recomendações. Já a American Cancer Society (ACS) sugere início aos 25 anos com teste de HPV preferencial, e o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) recomenda Papanicolau a cada três anos entre 21 e 29 anos, com coteste a cada cinco anos a partir dos 30.

Situações que exigem rotina diferenciada

Algumas mulheres precisam de calendário individualizado:

  • Imunossuprimidas (HIV, transplantadas, em quimioterapia): rastreamento semestral ou anual;
  • Histórico de lesão pré-cancerosa já tratada (NIC II, NIC III ou adenocarcinoma in situ);
  • Exposição intrauterina ao dietilestilbestrol (DES).

O que mudou em 2025: o teste de DNA-HPV no SUS

Em agosto de 2025, a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13 publicou as novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero. A grande mudança: o teste molecular de DNA-HPV passa a ser o exame primário no SUS, substituindo gradualmente o Papanicolau como ferramenta inicial de rastreamento.

Esse teste detecta diretamente a presença do DNA dos tipos de HPV de alto risco oncogênico — em especial os tipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical. Quando o resultado é negativo, o intervalo entre exames pode ser estendido para 5 anos, sem perda de segurança.

Vale destacar: o Papanicolau continua tendo papel essencial. Ele segue sendo utilizado:

  • Como exame de triagem em mulheres com teste de HPV positivo (especialmente para tipos não-16 e não-18);
  • Em regiões onde o teste molecular ainda não está disponível;
  • Em laboratórios e clínicas particulares, como exame de rotina.

Ou seja, mesmo com a chegada do teste de DNA-HPV, o Papanicolau continua sendo uma das ferramentas mais relevantes da saúde da mulher brasileira.

Como se preparar para o exame?

A preparação é simples, mas importante para garantir um resultado confiável. Nas 48 horas antes do exame, evite:

  • Relações sexuais (mesmo com preservativo);
  • Duchas vaginais;
  • Uso de cremes, lubrificantes, óvulos ou medicamentos vaginais;
  • Realizar o exame durante o período menstrual (idealmente, agende pelo menos cinco dias após o fim da menstruação).

O que significa o resultado do Papanicolau?

Os resultados seguem a classificação do Sistema Bethesda. Os principais achados são:

  • Negativo para lesão intraepitelial ou malignidade: o resultado esperado;
  • ASC-US ou ASC-H: células escamosas atípicas — exigem investigação adicional;
  • LSIL (lesão de baixo grau): geralmente associada a infecção por HPV, com alta taxa de regressão espontânea;
  • HSIL (lesão de alto grau): alteração mais significativa, com maior risco de progressão para câncer;
  • AGC: células glandulares atípicas — requer investigação minuciosa;
  • Carcinoma: presença de células malignas, com encaminhamento imediato ao oncologista.

Quando o exame indica alterações suspeitas, o próximo passo costuma ser a colposcopia e, se necessário, uma biópsia do colo uterino. Para entender melhor o que causa o câncer de colo do útero, recomendamos a leitura complementar.

Limitações do exame

Apesar de revolucionário, o Papanicolau não é perfeito. Sua sensibilidade gira em torno de 50–60% — o que significa que alguns casos podem passar despercebidos em uma única coleta. Por isso, a periodicidade é tão importante: a chance de “escapar” duas ou três coletas seguidas é muito baixa. Centros de referência internacionais reforçam que a regularidade do rastreamento é mais relevante do que o exame isolado.

Papanicolau e prevenção: muito além do exame

O Papanicolau é peça-chave, mas a prevenção do câncer de colo do útero envolve um conjunto de medidas complementares. A vacina contra o HPV — disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos e na rede privada para adultos até 45 anos — é a principal forma de prevenção primária. Junto com o rastreamento regular, ela representa a estratégia mais eficaz para reduzir a mortalidade pela doença, segundo o National Cancer Institute (NIH).

Vale destacar que o HPV não causa apenas câncer cervical. O vírus também está envolvido no câncer de orofaringe, em tumores anais, vulvares, vaginais e penianos — o que reforça a importância da vacinação ampla. Se você quer compreender melhor o que é câncer e como ele se desenvolve, vale a pena aprofundar a leitura.

Quando procurar um oncologista?

Se o seu Papanicolau veio alterado, mesmo que com pequenas anormalidades, é fundamental investigar — esse exame é o primeiro passo de uma cadeia de cuidados que pode literalmente salvar vidas. Em São Paulo, a equipe do Dr. Hugo Tanaka oferece acompanhamento personalizado para mulheres com exames alterados, lesões pré-malignas e diagnóstico confirmado de câncer cervical, com avaliação multidisciplinar e estratégias terapêuticas alinhadas às diretrizes nacionais e internacionais mais atualizadas, incluindo as recomendações da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

Perguntas frequentes sobre Papanicolau (FAQ)

1. O Papanicolau dói?

Não. O exame pode causar um leve desconforto durante a introdução do espéculo, mas não deve ser doloroso. Em pacientes virgens, na pós-menopausa ou com vaginismo, o ginecologista usa instrumentos menores e técnicas adaptadas. Se sentir dor, comunique imediatamente o profissional.

2. Posso fazer Papanicolau menstruada?

O ideal é evitar. O sangue menstrual dificulta a análise das células e pode levar a resultados inconclusivos. Aguarde pelo menos cinco dias após o fim da menstruação para realizar o exame. Em situações de sangramento anormal fora do período, procure o ginecologista — esse tipo de investigação não pode esperar.

3. Quem é virgem precisa fazer Papanicolau?

Como o câncer de colo do útero está fortemente associado ao HPV (uma infecção sexualmente transmissível), o rastreamento é recomendado apenas para mulheres que já tiveram atividade sexual. Mulheres virgens, em geral, não precisam realizar o exame de rotina — mas, em situações específicas, o ginecologista pode indicar.

4. Grávida pode fazer o exame?

Sim. O Papanicolau pode (e deve) ser realizado durante o pré-natal, especialmente se a gestante não tem exame recente. A coleta é segura para a mãe e para o bebê e não aumenta o risco de aborto ou complicações.

5. O Papanicolau detecta HPV?

Não diretamente. O Papanicolau identifica as alterações celulares causadas pelo HPV, mas não detecta o vírus em si. Para isso, é preciso fazer o teste de DNA-HPV, que é mais sensível. Em alguns casos, os dois exames são feitos em conjunto (coteste), conforme orientação médica.

6. Qual a diferença entre Papanicolau e teste de HPV?

O Papanicolau analisa o aspecto das células do colo do útero (citologia). O teste de HPV detecta diretamente o DNA do vírus. O teste de HPV é mais sensível e, segundo as novas diretrizes do INCA de 2025, passou a ser o exame primário no SUS. O Papanicolau segue sendo usado como triagem complementar e em mulheres com teste de HPV positivo.

7. Quanto tempo demora o resultado do Papanicolau?

O prazo varia de acordo com o laboratório, mas geralmente o resultado fica pronto entre 7 e 15 dias úteis. Em laboratórios da rede pública, o tempo pode ser maior — em torno de 30 dias. Sempre retorne ao ginecologista para que o resultado seja interpretado clinicamente, e não apenas lido pela paciente.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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