O câncer de colo do útero — também chamado de câncer cervical — é um tumor maligno que se origina nas células do colo uterino, a parte inferior do útero que se conecta à vagina. Trata-se de uma doença de desenvolvimento lento, o que significa que, na maioria dos casos, existe uma “janela de oportunidade” para detectar e tratar as alterações celulares antes que elas se tornem um câncer invasivo.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), para o triênio 2023–2025 são estimados 17.010 novos casos por ano no Brasil, o que representa uma taxa bruta de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres. É o terceiro tipo de câncer mais comum entre as brasileiras e a quarta causa de morte por câncer no público feminino — números que tornam o tema urgente e necessário.
Apesar de ser uma doença séria, o câncer de colo do útero tem uma característica especialmente importante: quando diagnosticado na fase inicial, a taxa de cura chega a 100%. Por isso, conhecer a doença, seus fatores de risco e como funciona o rastreamento é fundamental para toda mulher.
Se você ainda tem dúvidas sobre o que é câncer de forma geral, saiba mais sobre o que é câncer e como ele se desenvolve em um artigo completo.
O que é o colo do útero e como o câncer se desenvolve?
O colo do útero é a região de transição entre o corpo do útero e a vagina. Essa área é revestida por dois tipos de células: as células escamosas (que cobrem a parte externa) e as células glandulares (que revestem o canal interno). A junção entre esses dois tipos de células — chamada de zona de transformação — é exatamente onde a maioria dos cânceres cervicais tem origem.
O desenvolvimento do câncer de colo do útero é um processo gradual. As células normais do colo passam por alterações chamadas lesões pré-cancerosas ou neoplasia intraepitelial cervical (NIC). Essas lesões, quando não tratadas, podem — ao longo de meses ou anos — evoluir para o câncer invasivo. Esse intervalo de tempo é justamente o que permite que o rastreamento periódico seja tão eficaz.
Existem dois tipos principais de câncer de colo do útero:
- Carcinoma de células escamosas: o mais frequente, responsável por 80–85% dos casos, origina-se nas células planas que revestem o colo.
- Adenocarcinoma: menos comum, desenvolve-se nas células glandulares do canal cervical.
Causas e fatores de risco do câncer de colo do útero
O papel do HPV
A causa principal do câncer de colo do útero é a infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), um vírus transmitido pelo contato sexual. Segundo a American Cancer Society, praticamente todos os casos de câncer cervical estão associados ao HPV. O vírus apresenta mais de 200 tipos, e os de alto risco oncogênico — especialmente o HPV-16 e o HPV-18 — são responsáveis por cerca de 70% dos casos da doença.
É importante entender que a infecção pelo HPV é muito comum: estima-se que 80% das pessoas sexualmente ativas terão contato com algum tipo do vírus ao longo da vida. Na grande maioria dos casos, o próprio sistema imunológico elimina o vírus espontaneamente. O problema ocorre quando a infecção persiste por anos, permitindo que as células cervicais sofram alterações progressivas.
Outros fatores que aumentam o risco
Além da infecção pelo HPV, outros fatores podem aumentar o risco de desenvolver câncer de colo do útero:
- Tabagismo: mulheres fumantes têm até duas vezes mais risco do que não fumantes.
- Imunossupressão: infecção pelo HIV ou uso de medicamentos que reduzem a imunidade facilitam a progressão do HPV.
- Início precoce da vida sexual: antes dos 16 anos, quando o colo do útero ainda está em maturação.
- Múltiplos parceiros sexuais: aumenta a exposição a diferentes tipos de HPV.
- Uso prolongado de anticoncepcionais orais: por mais de cinco anos.
- Alto número de gestações.
- Não realizar o exame preventivo regularmente.
Conforme orienta o National Cancer Institute (NIH), a presença de um ou mais desses fatores não significa que a mulher vai desenvolver a doença — mas reforça a importância do rastreamento regular.
Sintomas do câncer de colo do útero: quando suspeitar?
Na fase inicial, o câncer de colo do útero geralmente não causa nenhum sintoma. Essa é a principal razão pela qual o exame preventivo é tão importante: as lesões pré-cancerosas e os tumores pequenos são descobertos antes de qualquer sinal aparecer.
Quando os sintomas surgem, geralmente indicam uma fase mais avançada da doença. Os sinais mais comuns incluem:
- Sangramento vaginal anormal: após relações sexuais, entre as menstruações ou após a menopausa.
- Corrimento vaginal incomum: com odor diferente do habitual, às vezes com sangue.
- Dor pélvica ou na região lombar.
- Dor durante as relações sexuais (dispareunia).
- Alterações urinárias ou intestinais em casos mais avançados, quando o tumor afeta estruturas vizinhas.
Esses sintomas não são exclusivos do câncer de colo do útero — podem ter outras causas. Mas qualquer um deles deve motivar uma consulta médica imediata. Não ignore seu corpo.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do câncer de colo do útero passa por diferentes etapas:
Exame de Papanicolau (citologia cervical)
É o principal exame de rastreamento. Uma pequena amostra de células do colo do útero é coletada durante o exame ginecológico e analisada em laboratório. A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e o INCA recomendam que mulheres entre 25 e 64 anos com vida sexual ativa realizem o Papanicolau regularmente. Se dois exames consecutivos (com intervalo de um ano) forem normais, o intervalo pode ser estendido para a cada três anos.
Teste de DNA-HPV
Um exame mais sensível que detecta a presença de tipos de alto risco do vírus HPV nas células cervicais. Pode ser realizado sozinho ou em conjunto com o Papanicolau (coteste), especialmente em mulheres a partir dos 30 anos.
Colposcopia e biópsia
Quando o Papanicolau ou o teste de HPV mostram alterações, o médico pode solicitar uma colposcopia — exame com lupa de aumento que permite visualizar o colo do útero com detalhe. Se houver áreas suspeitas, é feita uma biópsia: uma pequena amostra de tecido é retirada para análise ao microscópio, confirmando ou descartando o diagnóstico.
Estadiamento: qual o grau do câncer de colo do útero?
Após o diagnóstico, o médico avalia o estadiamento do tumor — isto é, o quanto ele cresceu e se há envolvimento de tecidos ou órgãos vizinhos. Essa informação é essencial para definir o melhor tratamento, já que cânceres em estágios iniciais têm abordagens diferentes de tumores mais avançados. O estadiamento considera o tamanho do tumor, o comprometimento de linfonodos e a presença de metástases a distância.
Em casos onde há suspeita de espalhamento da doença, pode ser necessário investigar a possibilidade de câncer metastático, com exames de imagem como tomografia e ressonância magnética.
Tratamento do câncer de colo do útero
O tratamento do câncer de colo do útero é definido individualmente, levando em conta o estadiamento, o tipo histológico, a idade da paciente e seu desejo de preservar a fertilidade. As principais modalidades incluem:
Cirurgia
Para tumores em estágio inicial (IA e IB1), a cirurgia é frequentemente o tratamento de escolha e oferece altas taxas de cura. Dependendo da extensão do tumor, pode ser realizada uma conização (retirada de um cone de tecido do colo — preserva o útero e é uma opção para mulheres que desejam ter filhos), uma histerectomia simples (retirada do útero) ou uma histerectomia radical (retirada do útero, parte da vagina e linfonodos próximos).
Radioterapia e braquiterapia
A radioterapia — incluindo a braquiterapia (aplicação de radiação internamente, próxima ao tumor) — é utilizada tanto em estágios iniciais quanto avançados, muitas vezes combinada à quimioterapia.
Quimioterapia
Geralmente associada à radioterapia (quimiorradiação) em tumores localmente avançados. Também pode ser usada em casos metastáticos. Segundo as diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO), a cisplatina semanal é o quimioterápico mais utilizado em associação com a radioterapia.
Como prevenir o câncer de colo do útero?
O câncer de colo do útero é uma das neoplasias com maior potencial de prevenção. As estratégias são complementares:
Vacinação contra o HPV
A vacina contra o HPV é segura, eficaz e disponível gratuitamente pelo SUS. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a vacinação pode prevenir cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero. A vacina quadrivalente (tipos 6, 11, 16 e 18) é oferecida pelo SUS para meninas e meninos entre 9 e 14 anos. A vacina nonavalente, disponível na rede privada, protege contra 9 tipos de HPV e pode ser aplicada em homens e mulheres entre 9 e 45 anos.
Rastreamento regular
O exame de Papanicolau e/ou o teste de DNA-HPV são as ferramentas mais importantes para a detecção precoce de lesões pré-cancerosas. Mesmo mulheres vacinadas devem continuar realizando o rastreamento, pois as vacinas não protegem contra todos os tipos oncogênicos do HPV.
Uso de preservativo
O preservativo reduz — mas não elimina completamente — o risco de transmissão do HPV, já que o vírus pode estar presente em áreas não cobertas pela camisinha.
Outras medidas
- Não fumar (ou parar de fumar).
- Manter hábitos alimentares saudáveis e praticar atividade física regularmente.
- Tratar infecções sexualmente transmissíveis quando diagnosticadas.
Perguntas frequentes sobre câncer de colo do útero
1. Câncer de colo do útero tem cura?
Sim, tem — especialmente quando detectado cedo. Quando o câncer de colo do útero é diagnosticado na fase inicial (estágios I e II), a taxa de cura pode chegar a 100%. Em estágios mais avançados, o tratamento ainda pode controlar a doença por longos períodos, com qualidade de vida preservada. Por isso, o rastreamento regular é fundamental.
2. Toda mulher que tem HPV vai desenvolver câncer de colo do útero?
Não. A infecção pelo HPV é muito comum — cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas se infectam em algum momento da vida. Na maioria dos casos, o sistema imunológico elimina o vírus espontaneamente em até dois anos. O câncer de colo do útero só se desenvolve quando a infecção por um tipo de alto risco persiste por muitos anos sem tratamento das lesões pré-cancerosas.
3. Quais são os primeiros sintomas do câncer de colo do útero?
Na fase inicial, o câncer de colo do útero geralmente não apresenta nenhum sintoma. Quando os sintomas aparecem, os mais comuns são sangramento vaginal fora do período menstrual (especialmente após relações sexuais), corrimento vaginal com cheiro diferente e dor pélvica. Esses sinais já costumam indicar uma fase mais avançada da doença, daí a importância do rastreamento mesmo sem sintomas.
4. A partir de que idade devo fazer o Papanicolau?
O INCA recomenda que o Papanicolau seja iniciado aos 25 anos para mulheres com vida sexual ativa. Nos dois primeiros anos, o exame deve ser feito anualmente; se ambos forem normais, o intervalo passa para a cada três anos. Mulheres imunossuprimidas (HIV, transplantadas, em quimioterapia) devem seguir um calendário diferenciado, definido pelo médico. O rastreamento é recomendado até os 64 anos.
5. A vacina HPV protege quem já teve relações sexuais?
Sim, a vacina ainda traz benefícios para quem já iniciou a vida sexual. Embora seja mais eficaz quando aplicada antes do primeiro contato sexual, ela protege contra os tipos de HPV com os quais a pessoa ainda não entrou em contato. Mesmo quem já teve HPV ou câncer de colo do útero pode se beneficiar. Converse com seu médico sobre a melhor indicação para o seu caso.
6. O câncer de colo do útero é hereditário?
O câncer de colo do útero não é considerado um câncer hereditário no sentido tradicional — ele não é causado por mutações genéticas herdadas dos pais, como ocorre com alguns tipos de câncer de mama ou colorretal. Sua principal causa é uma infecção viral (HPV). Entretanto, fatores genéticos podem influenciar a resposta imunológica ao vírus, e condições que comprometem a imunidade aumentam o risco.
7. Após o tratamento do câncer de colo do útero, posso engravidar?
Depende do tipo e extensão do tratamento. Em casos iniciais tratados com conização ou traquelectomia radical (retirada do colo com preservação do útero), a gravidez futura pode ser possível. Histerectomia, radioterapia pélvica e quimiorradiação comprometem a fertilidade. Se o desejo de ter filhos for importante, essa conversa deve ser feita com o oncologista antes de iniciar o tratamento, para que as opções de preservação da fertilidade sejam avaliadas.