Oligodendroglioma: sintomas, diagnóstico e tratamento atual

O oligodendroglioma é um tumor cerebral raro, de crescimento lento e com uma “assinatura genética” própria (mutação IDH e codeleção 1p/19q) que influencia diretamente o prognóstico e o tratamento. Entenda, em linguagem acessível, os sintomas, como é feito o diagnóstico molecular e quais são as opções terapêuticas atuais — da cirurgia à nova terapia-alvo já disponível no Brasil.

O oligodendroglioma é um tipo de tumor cerebral que se origina das células gliais — mais especificamente de células parecidas com os oligodendrócitos, responsáveis por produzir a mielina, a “capa” que protege e isola os fios de comunicação do cérebro. Embora faça parte do grupo de tumores do câncer cerebral, o oligodendroglioma tem um comportamento bastante particular: costuma crescer devagar e, em muitos casos, responde bem ao tratamento.

Receber a notícia de um tumor no cérebro é sempre assustador. Por isso, este texto reúne, de forma clara e baseada em evidências, o que se sabe hoje sobre o oligodendroglioma — desde os primeiros sinais até os exames que confirmam a doença e as estratégias de tratamento mais modernas, incluindo um avanço recente aprovado no Brasil.

O que é oligodendroglioma?

O oligodendroglioma é um tumor primário do sistema nervoso central, ou seja, nasce no próprio cérebro e não é uma metástase cerebral vinda de outro órgão. Ele pertence a uma família maior de tumores chamada gliomas.

Sua principal marca é molecular: para ser classificado como oligodendroglioma, o tumor precisa ter, ao mesmo tempo, uma mutação no gene IDH (isocitrato desidrogenase, tipo 1 ou 2) e a chamada codeleção 1p/19q — a perda combinada de pedaços específicos dos cromossomos 1 e 19. Essa combinação genética é o que diferencia o oligodendroglioma de outros gliomas, como o astrocitoma, e ajuda a prever uma resposta melhor ao tratamento.

Ao microscópio, suas células têm uma aparência clássica: núcleos redondos e regulares cercados por um citoplasma claro, lembrando “ovos fritos”. Mas essa é apenas uma pista — o diagnóstico definitivo depende sempre dos testes genéticos.

Oligodendroglioma é benigno ou maligno?

O oligodendroglioma é considerado um tumor maligno, embora muitas vezes de comportamento mais brando do que outros tumores cerebrais. Sua agressividade depende do grau (II ou III) e das características moleculares. Mesmo os tumores de crescimento lento merecem acompanhamento contínuo, porque podem evoluir com o tempo. Para entender melhor essa diferença, vale a leitura sobre tumor cerebral benigno e maligno.

Quem é mais afetado

O oligodendroglioma é raro. Ele representa cerca de 1% a 2% de todos os tumores do sistema nervoso central e é cerca de dez vezes menos comum que o glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais frequente em adultos.

A maioria dos casos surge em adultos entre 35 e 55 anos, com idade média ao diagnóstico em torno dos 45 anos. Mais raramente, pode aparecer em adolescentes ou em pessoas acima dos 65 anos. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima, em sua Estimativa 2023-2025, cerca de 11.490 novos casos de tumores do sistema nervoso central por ano — número que reforça a importância da informação de qualidade e do diagnóstico preciso.

Causas e fatores de risco

Na maior parte das vezes, não é possível apontar uma causa específica para o oligodendroglioma. As mutações genéticas que originam o tumor surgem nas próprias células e, em geral, não são herdadas dos pais.

O único fator ambiental bem estabelecido para tumores cerebrais é a exposição prévia à radiação ionizante. Algumas síndromes genéticas raras também aumentam o risco. Já hábitos do dia a dia frequentemente associados a boatos — como uso de celular ou tinturas de cabelo — não têm comprovação científica como causa de oligodendroglioma. Você encontra mais esclarecimentos no conteúdo de perguntas frequentes sobre tumor cerebral.

Sintomas do oligodendroglioma

Por crescer lentamente, o oligodendroglioma pode permanecer silencioso por anos. Quando os sintomas aparecem, o mais comum é a convulsão (crise epiléptica), que pode ser localizada ou evoluir para uma crise generalizada. Em muitos pacientes, essa é a primeira manifestação da doença.

Outros sinais dependem da região do cérebro afetada e do tamanho do tumor. Entre eles:

  • Dores de cabeça persistentes ou diferentes do habitual
  • Alterações na fala, na visão ou na coordenação
  • Fraqueza ou dormência em um lado do corpo
  • Mudanças de comportamento, memória ou concentração
  • Náuseas e vômitos (quando há aumento da pressão dentro do crânio)

Esses sintomas são inespecíficos e, na maioria das vezes, têm causas benignas. Ainda assim, sinais neurológicos novos ou progressivos merecem avaliação médica. Para reconhecer os sinais de alerta, veja o conteúdo sobre sintomas de tumor cerebral e sobre as mudanças de personalidade ligadas a tumores cerebrais.

Como é feito o diagnóstico do oligodendroglioma

A investigação começa com a história clínica, o exame neurológico e a ressonância magnética do cérebro com contraste. Nas imagens, o oligodendroglioma costuma aparecer como uma lesão de bordas pouco definidas, e a presença de calcificações (depósitos de cálcio, mais visíveis na tomografia) é uma característica sugestiva, embora não exclusiva.

No entanto, nenhuma imagem confirma o diagnóstico sozinha. É necessário obter uma amostra de tecido — por biópsia ou durante a cirurgia de retirada do tumor — para análise no laboratório. Sempre que possível, esse procedimento deve ser conduzido por um neurocirurgião com experiência em tumores cerebrais.

A confirmação depende dos testes moleculares: a pesquisa da mutação IDH (IDH1 ou IDH2) e da codeleção 1p/19q. Segundo o National Cancer Institute (NIH), esses marcadores são hoje parte essencial do diagnóstico e da classificação dos gliomas, pois orientam tanto o prognóstico quanto a escolha do tratamento — e, mais recentemente, definem quem pode se beneficiar de novas terapias-alvo.

Graus do oligodendroglioma

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o oligodendroglioma em dois graus:

  • Grau II: tumor de baixo grau, com células mais bem organizadas e crescimento mais lento.
  • Grau III: tumor com características mais agressivas (maior densidade celular, divisões celulares e, em alguns casos, alterações nos vasos sanguíneos), associado a um prognóstico um pouco menos favorável.

A passagem de grau II para grau III costuma ser gradual. Por isso, a classificação considera tanto a aparência das células quanto os achados genéticos.

Tratamento do oligodendroglioma

O tratamento do oligodendroglioma é sempre individualizado e conduzido por uma equipe multidisciplinar (oncologia, neurocirurgia, radioterapia e patologia molecular). A escolha depende do grau do tumor, da localização, da extensão da cirurgia, da idade e das características moleculares.

Cirurgia

A remoção da maior quantidade possível de tumor com segurança costuma ser o primeiro passo. Como o oligodendroglioma tende a ser mais “delimitado” que outros gliomas, em áreas não eloquentes do cérebro a remoção ampla pode ser viável — o que está associado a melhor controle da doença. A cirurgia também fornece o tecido necessário para o diagnóstico molecular.

Radioterapia

A radioterapia costuma ser indicada após a cirurgia, especialmente em tumores de grau III ou em casos de grau II considerados de maior risco. A decisão é cuidadosamente individualizada, equilibrando o controle do tumor e a preservação das funções neurológicas.

Quimioterapia

Uma das características mais marcantes do oligodendroglioma é a alta sensibilidade à quimioterapia, ligada justamente à mutação IDH e à codeleção 1p/19q. Os esquemas mais usados são o PCV (procarbazina, lomustina e vincristina) e a temozolomida, conforme o caso e os protocolos internacionais.

Terapia-alvo: vorasidenibe (novidade no Brasil)

Um avanço recente mudou o cenário do oligodendroglioma de baixo grau. Em agosto de 2025, a ANVISA aprovou o vorasidenibe (Voranigo), um comprimido de uso diário que bloqueia as enzimas IDH1 e IDH2 mutadas — as mesmas que definem o oligodendroglioma. É a primeira terapia-alvo aprovada para esse tipo de glioma em cerca de 20 anos.

A aprovação se baseou no estudo internacional INDIGO, que mostrou redução de cerca de 61% no risco de progressão da doença e adiamento da necessidade de novos tratamentos, ajudando a preservar a qualidade de vida. O medicamento é indicado para pacientes a partir de 12 anos com glioma difuso de grau II (astrocitoma ou oligodendroglioma) com mutação IDH, já operados e que ainda não têm indicação imediata de radioterapia ou quimioterapia. A indicação é sempre individual e definida pela equipe médica.

Prognóstico e sobrevida no oligodendroglioma

Comparado a outros gliomas, o oligodendroglioma tende a ter uma evolução mais favorável e um controle prolongado da doença, especialmente nos tumores de grau II. Ainda assim, cada caso é único: grau, idade, extensão da cirurgia e resposta às terapias influenciam o resultado. Por isso, números gerais de sobrevida não devem ser aplicados a um paciente específico — apenas a equipe que acompanha o caso pode estimar o prognóstico individual. Sociedades como a American Cancer Society reforçam essa abordagem personalizada.

Acompanhamento e qualidade de vida

O cuidado não termina com o fim do tratamento inicial. O acompanhamento contínuo, com ressonâncias magnéticas periódicas, é essencial para detectar precocemente qualquer sinal de progressão. Controle das convulsões, reabilitação (fisioterapia, fonoaudiologia) e suporte emocional fazem parte do cuidado integral. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) acompanha e divulga diretrizes que orientam esse manejo.

Quando procurar um médico

Procure avaliação médica diante de uma primeira convulsão na vida adulta, dores de cabeça que mudam de padrão ou pioram progressivamente, fraqueza súbita, alterações de fala, visão ou comportamento. Sintomas neurológicos intensos ou de início abrupto justificam atendimento de urgência.

Perguntas frequentes sobre oligodendroglioma

  1. Oligodendroglioma é câncer?

Sim. O oligodendroglioma é um tumor cerebral maligno, embora muitas vezes de comportamento mais brando e crescimento lento. Sua agressividade varia conforme o grau (II ou III) e as características moleculares.

  1. Oligodendroglioma tem cura?

Não é possível garantir cura, mas é um dos tumores cerebrais com melhor resposta ao tratamento. Muitos pacientes alcançam controle da doença por longos períodos, sobretudo nos tumores de grau II tratados precocemente e bem acompanhados.

  1. Qual a expectativa de vida de quem tem oligodendroglioma?

A sobrevida costuma ser mais favorável do que a de outros gliomas, mas varia muito de pessoa para pessoa. Grau do tumor, idade, extensão da cirurgia e resposta às terapias influenciam o resultado. Apenas a equipe que acompanha o caso pode estimar o prognóstico individual.

  1. Quais são os primeiros sintomas do oligodendroglioma?

A convulsão (crise epiléptica) é o sintoma inicial mais comum. Dores de cabeça, alterações de fala, visão, força ou comportamento também podem ocorrer, dependendo da localização do tumor.

  1. Como é confirmado o diagnóstico de oligodendroglioma?

Por meio da ressonância magnética e, principalmente, da análise de uma amostra do tumor com testes moleculares que pesquisam a mutação IDH e a codeleção 1p/19q.

  1. Existe tratamento novo para oligodendroglioma?

Sim. Em 2025, a ANVISA aprovou o vorasidenibe (Voranigo), primeira terapia-alvo em comprimido para gliomas de grau II com mutação IDH, incluindo o oligodendroglioma, em pacientes já operados e selecionados pela equipe médica.

  1. Oligodendroglioma é hereditário?

Na grande maioria dos casos, não. Trata-se de alterações genéticas que surgem nas células do tumor, e não de uma condição transmitida de pais para filhos.

  1. Oligodendroglioma se espalha para outros órgãos?

É muito raro. Como outros tumores cerebrais, o oligodendroglioma quase nunca produz metástases fora do sistema nervoso central.

Acompanhamento especializado

O diagnóstico e o tratamento do oligodendroglioma exigem experiência em oncologia clínica e integração com equipes de neurocirurgia, radioterapia e patologia molecular. O Dr. Hugo Tanaka atua no cuidado de pacientes com tumores do sistema nervoso central, com abordagem baseada em evidências e foco na qualidade de vida. Saiba mais sobre o tratamento de tumor cerebral em São Paulo.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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