Temozolomida (Temodal): efeitos colaterais, como age e como tomar

Receber o diagnóstico de um tumor cerebral — ou acompanhar alguém da família nesse momento — assusta, e é natural ter muitas dúvidas sobre o tratamento. Quando ele inclui quimioterapia, o nome que mais aparece é o da temozolomida, vendida no Brasil como Temodal. É uma cápsula tomada em casa, peça central do tratamento do glioblastoma e de outros gliomas, e que costuma gerar perguntas como: quais os efeitos colaterais? Vai cair o cabelo? Como tomar do jeito certo? O que é o tal “protocolo de Stupp”?

Este texto responde a essas dúvidas em linguagem simples, com base nas diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) para tumores do sistema nervoso central. Lembrando que cada caso é único: estas informações ajudam a entender o tratamento, mas não substituem a orientação do médico que acompanha você.

EM RESUMO · LEITURA DE 30 SEGUNDOS

O essencial sobre a temozolomida

•     É uma cápsula tomada em casa, parte central do tratamento de gliomas como o glioblastoma.

•     O efeito que mais exige atenção é a queda das células do sangue — por isso são feitos exames de sangue periódicos.

•     Náuseas e cansaço são os sintomas mais comuns e costumam ser controláveis.

•     A queda de cabelo vem sobretudo da radioterapia na cabeça; com a temozolomida isolada é menos frequente.

•     Tomar com o estômago vazio, sempre no mesmo horário e com remédio para enjoo, conforme a receita.

O que é a temozolomida (Temodal)?

A temozolomida é um quimioterápico do grupo dos agentes alquilantes — um tipo de remédio que age diretamente no “manual de instruções” das células do tumor, o DNA. Diferente de muitas quimioterapias que precisam ser aplicadas na veia, ela é tomada por via oral, em cápsulas, o que permite fazer boa parte do tratamento em casa.

Uma vantagem importante para tumores do cérebro: a temozolomida consegue atravessar a chamada barreira hematoencefálica, uma espécie de “muro de proteção” que dificulta a chegada de muitos remédios ao sistema nervoso. Por conseguir alcançar o tecido cerebral, ela se tornou parte essencial do tratamento. Se você ainda tem dúvidas sobre os tipos de tumor, vale entender antes as diferenças entre glioma e glioblastoma.

Como a temozolomida age contra o tumor

Pense nas células do tumor como células que se multiplicam rápido demais e sem controle. Para se dividir, elas precisam copiar o próprio DNA o tempo todo.

A temozolomida funciona como um “pró-fármaco”: chega ao corpo em uma forma inativa e, dentro do organismo, se transforma na substância que de fato combate o tumor. Essa substância “marca” e danifica pontos específicos do DNA das células cancerígenas. Com o DNA danificado, a célula não consegue mais se dividir corretamente e acaba morrendo. Como as células do tumor se multiplicam muito, são as mais afetadas.

Existe um detalhe que ajuda a prever quem responde melhor: uma “ferramenta de conserto” das células, chamada MGMT. Quando essa ferramenta está “desligada” no tumor (o que os exames chamam de MGMT metilado), o dano causado pela temozolomida não é reparado — e o tratamento tende a funcionar melhor. Por isso, esse exame costuma ser solicitado, principalmente nos casos de glioblastoma.

O protocolo de Stupp: temozolomida com radioterapia

No glioblastoma, a temozolomida quase sempre é usada dentro do chamado protocolo de Stupp — o tratamento padrão adotado no mundo todo desde 2005, quando um grande estudo mostrou que juntar a quimioterapia à radioterapia aumentava a sobrevida em comparação com a radioterapia sozinha. O nome é uma homenagem ao médico que liderou essa pesquisa.

De forma resumida, ele combina a radioterapia para tumor cerebral com a temozolomida em duas etapas. O passo a passo completo está no texto sobre o tratamento do glioblastoma em cada etapa. Veja abaixo como isso costuma se organizar no calendário:

Como fica o calendário do tratamento

Esquema ilustrativo do protocolo de Stupp. As datas e doses são sempre individualizadas pela equipe.

1. Fase concomitante

≈6 semanas de radioterapia + temozolomida em dose menor todos os dias, inclusive fins de semana.

2. Pausa

≈4 semanas de descanso para o corpo se recuperar.

3. Manutenção

Ciclos mensais: 5 dias tomando, ~23 de descanso. Em geral, 6 ciclos.

Como é um ciclo de manutenção (28 dias)

5 dias tomando a temozolomida, seguidos de cerca de 23 dias de descanso.

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■ Dias tomando a cápsula      ■ Dias de descanso

Para quem tem mais idade ou outras condições de saúde, a equipe pode adaptar o esquema — por exemplo, com uma radioterapia mais curta associada à temozolomida, ou, em situações selecionadas, a quimioterapia de forma isolada. Tudo isso é detalhado nas diretrizes da SBOC e individualizado caso a caso.

A temozolomida só serve para glioblastoma?

Não. Embora seja mais conhecida pelo glioblastoma, a temozolomida também é usada em outros gliomas, conforme o tipo e o grau do tumor e o perfil molecular:

  • Astrocitomas IDH-mutados de graus 3 e 4: radioterapia seguida de temozolomida de manutenção (em geral por 12 ciclos);
  • Alguns gliomas de graus 2 e 3, como uma das opções de quimioterapia após a radioterapia;
  • Doença que retornou (recidiva): em casos selecionados, especialmente quando o tumor é MGMT metilado e houve um bom intervalo até a recaída.

A diferença entre esses tumores e seu comportamento é explicada de forma acessível no texto sobre tumor cerebral benigno e maligno.

Como tomar a temozolomida do jeito certo

A forma de tomar influencia muito a tolerância. As orientações gerais costumam ser:

  • Sempre no mesmo horário do dia, conforme a receita;
  • Com o estômago vazio — em geral, 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições —, o que reduz o enjoo e mantém a absorção mais estável;
  • Com um remédio contra náusea (antiemético), normalmente tomado de 30 a 60 minutos antes;
  • Engolir as cápsulas inteiras, com água, sem abrir, mastigar ou partir;
  • Manusear com cuidado e manter longe de crianças, pois é uma medicação quimioterápica.

Se vomitar logo após tomar a cápsula, não repita a dose por conta própria: avise a equipe. Esquecimentos e dúvidas sobre horário também devem ser comunicados ao médico ou enfermeiro.

Principais efeitos colaterais da temozolomida

Como toda quimioterapia, a temozolomida pode causar efeitos colaterais — mas vale lembrar que nem todo mundo sente todos eles, e a maioria é leve a moderada e controlável. Os mais comuns são:

  • Náuseas e vômitos — geralmente bem controlados com os antieméticos;
  • Cansaço (fadiga), que pode durar algumas semanas;
  • Prisão de ventre e perda de apetite;
  • Dor de cabeça.
Efeitos que merecem mais atenção

O ponto mais importante para a segurança é a queda das células do sangue (principalmente plaquetas e glóbulos brancos). Por isso são feitos exames de sangue periódicos. Durante a fase em que a temozolomida é tomada junto com a radioterapia, costuma-se prescrever um antibiótico preventivo, porque o tratamento pode reduzir um tipo específico de glóbulo branco e aumentar o risco de uma infecção pulmonar. É uma medida de proteção de rotina.

Procure a equipe médica imediatamente se aparecer:

•     Febre (geralmente a partir de 37,8 °C), calafrios ou sinais de infecção;

•     Sangramentos que não param ou manchas roxas na pele sem ter batido;

•     Cansaço muito intenso, falta de ar ou tosse que não melhora;

•     Vômitos que impedem de se alimentar ou de tomar os remédios.

E a dúvida campeã: vai cair o cabelo? Durante o tratamento do glioblastoma, a queda de cabelo é comum — mas vem principalmente da radioterapia na cabeça, concentra-se na área irradiada e costuma voltar a crescer depois. A temozolomida isolada provoca queda com menos frequência e, em geral, de forma mais discreta. Esse e outros mal-entendidos são esclarecidos no texto sobre mitos e verdades sobre o glioblastoma.

Por que a ressonância pode “piorar” e ainda assim estar tudo bem

Um fenômeno que costuma assustar: nos primeiros meses após terminar a temozolomida concomitante à radioterapia, a ressonância pode parecer pior, mesmo com o tratamento funcionando. Isso se chama pseudoprogressão e é mais comum justamente nos tumores MGMT metilados — que são os que respondem melhor. Por isso os médicos usam critérios específicos para interpretar os exames e não tirar conclusões precipitadas. Explicamos esse ponto em detalhe no artigo sobre radioterapia para tumor cerebral.

Cuidados durante o tratamento

O bom andamento da quimioterapia oral depende muito da parceria entre paciente, família e equipe. Ajuda muito: fazer os exames de sangue nas datas marcadas, manter uma lista atualizada de todos os medicamentos em uso, hidratar-se bem e relatar qualquer sintoma novo sem esperar a próxima consulta.

Vale lembrar que a temozolomida é incorporada ao SUS para gliomas de alto grau e também é coberta pela maioria dos planos de saúde — confirme os trâmites com a equipe. Para um panorama mais amplo, veja as perguntas frequentes sobre tumor cerebral. Informações adicionais e confiáveis podem ser consultadas no INCA, no National Cancer Institute (NIH) e na American Cancer Society.

Gravidez, contracepção e fertilidade

A temozolomida pode causar malformações no bebê em desenvolvimento, por isso não se deve engravidar nem engravidar alguém durante o tratamento. Recomenda-se usar um método contraceptivo eficaz durante todo o tratamento: as mulheres em idade fértil por pelo menos 6 meses após a última dose, e os homens por pelo menos 3 meses após o término. A amamentação também deve ser evitada nesse período. Além disso, o medicamento pode afetar a fertilidade: quem deseja ter filhos no futuro deve conversar com o médico antes de iniciar o tratamento sobre opções de preservação, como o congelamento de sêmen ou de óvulos.

Perguntas frequentes sobre a temozolomida

Para que serve a temozolomida (Temodal)?

É um quimioterápico oral usado principalmente no tratamento de tumores cerebrais malignos, como o glioblastoma e outros gliomas. Costuma ser usada junto com a radioterapia e, depois, como tratamento de manutenção.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns da temozolomida?

Os mais frequentes são náuseas, vômitos, cansaço, prisão de ventre, perda de apetite e dor de cabeça. O efeito mais importante para a segurança é a queda das células do sangue, por isso são feitos exames de sangue regulares.

A temozolomida causa queda de cabelo?

A queda de cabelo pode ocorrer durante o tratamento, mas em boa parte é causada pela radioterapia na cabeça, feita junto com o medicamento, concentrando-se na área irradiada. A temozolomida isolada provoca queda com menos frequência e costuma ser mais discreta; o cabelo geralmente volta a crescer após o fim do tratamento.

O que é o protocolo de Stupp?

É o tratamento padrão do glioblastoma, que combina radioterapia com temozolomida. Tem uma fase em que o medicamento é tomado todos os dias durante a radioterapia e, após uma pausa, uma fase de manutenção com ciclos mensais. Foi estabelecido por um estudo de 2005 e segue sendo a referência mundial.

Como devo tomar as cápsulas de temozolomida?

Em geral, sempre no mesmo horário, com o estômago vazio (1 hora antes ou 2 horas depois das refeições) e acompanhadas de um remédio contra náusea. As cápsulas devem ser engolidas inteiras, sem abrir ou partir. Siga exatamente a orientação do seu oncologista.

Quantos ciclos de temozolomida são feitos?

Varia conforme o tipo de tumor. No glioblastoma, costumam ser cerca de 6 ciclos de manutenção, após a fase junto com a radioterapia. Em alguns astrocitomas, o número pode chegar a 12 ciclos. A duração é sempre definida individualmente pela equipe médica.

A temozolomida é fornecida pelo SUS?

Sim. A temozolomida é incorporada ao SUS para o tratamento de gliomas de alto grau e também é coberta pela maioria dos planos de saúde. Os trâmites de acesso devem ser confirmados com a equipe que acompanha o caso.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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