Imunoterapia para câncer de estômago: como funciona e quando é indicada

A imunoterapia mudou o rumo do tratamento de vários tipos de câncer — e no estômago não é diferente. Aprovada no Brasil desde 2021 em combinação com a quimioterapia, e com um avanço internacional recente para uso antes e depois da cirurgia (2025), ela ativa o próprio sistema de defesa do corpo contra o tumor. Entenda, de um jeito simples, como funciona, quando é indicada e quais exames apontam quem se beneficia.

O tratamento do câncer de estômago vive um de seus momentos mais promissores, e a imunoterapia para câncer de estômago é uma das grandes responsáveis por isso. Diferente da quimioterapia, que ataca diretamente as células do tumor, a imunoterapia desperta o próprio sistema de defesa do corpo para reconhecer e destruir o câncer — e, em casos selecionados, associada à quimioterapia, pode aumentar de forma real as chances de controle da doença e até de cura.

Neste texto, o Dr. Hugo Tanaka, oncologista clínico dedicado aos tumores do aparelho digestivo, explica de forma acessível como funciona a imunoterapia para câncer de estômago, quando ela é indicada, por que costuma ser combinada à quimioterapia e quais exames definem quem realmente se beneficia desse tratamento.

O que é a imunoterapia e como ela age

Nosso sistema imunológico é treinado para reconhecer e destruir células anormais. O problema é que as células do câncer aprendem a se disfarçar — colocam uma espécie de máscara que as esconde das nossas células de defesa. Assim, o tumor cresce sem ser percebido.

A imunoterapia funciona justamente removendo esse disfarce. É como acender a luz em um cômodo escuro onde um intruso estava escondido: assim que ele é revelado, as células de defesa (os linfócitos) voltam a enxergá-lo e passam a combatê-lo. Os medicamentos mais usados para isso são chamados de inibidores de checkpoint imunológico.

Por que a imunoterapia para câncer de estômago é associada à quimioterapia

A grande novidade dos últimos anos é a combinação de imunoterapia com quimioterapia. Enquanto a quimioterapia ataca diretamente o tumor, a imunoterapia liberta o sistema de defesa para agir — dois mecanismos diferentes somando forças contra a mesma doença. Em pacientes selecionados, essa associação melhora os resultados de forma significativa.

Na prática, a quimioterapia enfraquece o tumor e o expõe, enquanto a imunoterapia mantém o sistema imunológico ativo para eliminar as células que sobrarem. É por isso que, na maioria das situações, a imunoterapia para câncer de estômago não é usada sozinha, e sim combinada à quimioterapia.

No Brasil, essa combinação já é uma realidade há alguns anos. Em 10 de maio de 2021, a ANVISA aprovou o uso do nivolumabe (um imunoterápico) associado à quimioterapia para o tratamento de primeira linha do câncer de estômago avançado, com base no estudo internacional CheckMate 649. Foi um marco importante, que trouxe uma opção a mais para pacientes com doença mais avançada e reforçou o papel da imunoterapia nesse tipo de tumor.

Quimioterapia + imunoterapia antes e depois da cirurgia

O avanço mais recente chegou para a doença operável. Em 25 de novembro de 2025, o FDA (a agência reguladora dos Estados Unidos) aprovou a combinação da imunoterapia (durvalumabe) com o esquema de quimioterapia FLOT — a primeira imunoterapia aprovada para uso antes e depois da cirurgia no câncer de estômago e da junção com o esôfago. Na prática, o tratamento é feito em etapas: a imunoterapia é associada à quimioterapia em dois ciclos antes da cirurgia e dois ciclos depois e, na sequência, mantida isoladamente por um período adicional.

No estudo internacional que embasou essa aprovação (chamado MATTERHORN), a adição da imunoterapia praticamente triplicou a chance de o tumor desaparecer por completo após o tratamento: cerca de 19% dos pacientes, contra 7% com quimioterapia isolada. Por ser uma aprovação recente e ainda internacional, a disponibilidade no Brasil deve ser confirmada caso a caso — mas ela sinaliza com clareza o caminho que o tratamento do câncer gástrico está tomando: cada vez mais personalizado e com a imunoterapia somando forças à quimioterapia.

Os exames que definem quem pode fazer imunoterapia

Nem todo paciente responde à imunoterapia da mesma forma. Por isso, antes de indicá-la, o oncologista solicita exames específicos no tecido do tumor — eles funcionam como uma impressão digital da doença e revelam quem tem maior chance de resposta:

  • PD-L1: mede uma proteína que o tumor usa para “desligar” as células de defesa. Não se trata de “quanto mais, melhor”: existe um valor mínimo de positividade a partir do qual o benefício da imunoterapia foi demonstrado nos estudos, e é ele que orienta a indicação.
  • MMR / MSI (instabilidade de microssatélites): identifica tumores com uma falha específica no reparo do DNA, que os torna especialmente sensíveis à imunoterapia.

São esses testes que permitem personalizar a conduta e oferecer a imunoterapia a quem realmente vai se beneficiar, evitando tratamentos sem indicação.

O grupo MSI-alto: quando a imunoterapia é a protagonista

Existe um grupo especial de pacientes — cerca de 3 a 7 em cada 100 casos de câncer gástrico — cujos tumores têm alta instabilidade de microssatélites (chamados de dMMR/MSI-H). Nesses casos, a imunoterapia pode assumir o papel principal do tratamento, com resultados notáveis: em estudos, boa parte desses pacientes apresentou desaparecimento completo do tumor. Ainda assim, a cirurgia continua fazendo parte da estratégia — a possibilidade de evitá-la nesses pacientes vem sendo avaliada em pesquisas, mas ainda não é conduta de rotina. É mais um motivo pelo qual conhecer o perfil molecular do tumor é tão importante.

Imunoterapia no câncer de estômago avançado

Quando o câncer já se espalhou para outros órgãos (doença metastática), a imunoterapia — em geral combinada à quimioterapia e, às vezes, a terapias-alvo — pode ajudar a controlar a doença por mais tempo e com qualidade de vida. Também aqui os exames de PD-L1 e MSI orientam a decisão, mostrando que a escolha do melhor tratamento é sempre individualizada.

Tratamento personalizado faz toda a diferença

Não existe um único protocolo que sirva para todos. A escolha entre quimioterapia, imunoterapia, cirurgia e radioterapia — e o momento de cada uma — depende do estágio da doença, das características moleculares do tumor e das condições de saúde de cada pessoa. Por isso, a avaliação individualizada por um oncologista experiente é fundamental.

Se você ou um familiar recebeu o diagnóstico de câncer de estômago, uma avaliação especializada é o primeiro passo para entender, com clareza e tranquilidade, todas as opções disponíveis para o seu caso — incluindo se a imunoterapia é indicada.

Perguntas frequentes sobre imunoterapia para câncer de estômago

O que é a imunoterapia para câncer de estômago?

É um tratamento que estimula o próprio sistema de defesa do corpo a reconhecer e destruir as células do tumor. Diferente da quimioterapia, que age diretamente sobre o câncer, a imunoterapia remove os “disfarces” que o tumor usa para se esconder do sistema imunológico. Costuma ser usada em combinação com a quimioterapia.

A imunoterapia substitui a quimioterapia no câncer de estômago?

Na maioria dos casos, não. As duas costumam ser combinadas, porque atuam de formas diferentes e complementares. Em um grupo específico de tumores (com alta instabilidade de microssatélites), a imunoterapia pode assumir o papel principal. A definição depende dos exames do tumor.

Todo paciente com câncer de estômago pode fazer imunoterapia?

Não. A indicação depende de exames do tumor, como PD-L1 e MMR/MSI, e das condições clínicas do paciente. Esses testes ajudam a identificar quem tem maior chance de se beneficiar. Por isso a avaliação molecular do tumor é uma etapa essencial.

Quais exames indicam se a imunoterapia vai funcionar?

Os principais são o PD-L1 e a pesquisa de instabilidade de microssatélites (MSI) ou reparo de DNA (MMR), feitos no tecido do tumor após a biópsia ou a cirurgia. Eles funcionam como um mapa que orienta a melhor escolha de tratamento.

Quais são os efeitos colaterais da imunoterapia?

Como ela ativa o sistema imunológico, os efeitos costumam ser diferentes dos da quimioterapia e podem incluir inflamações em órgãos como intestino, pele, tireoide e pulmões. A maioria é controlável quando identificada cedo, e o acompanhamento próximo com a equipe é o que garante segurança.

A imunoterapia para câncer de estômago é coberta pelo plano de saúde?

A disponibilidade depende da indicação clínica, do estágio da doença e da autorização junto ao convênio ou serviço de saúde. Como as regras variam conforme o caso, o ideal é discutir isso na consulta, onde a equipe pode orientar sobre as possibilidades para a sua situação.

Câncer de estômago tem cura com imunoterapia?

Em casos selecionados, sim — especialmente quando a doença é descoberta cedo e tratada de forma adequada. A combinação de cirurgia, quimioterapia e imunoterapia aumentou de forma significativa as chances de o tumor desaparecer por completo e de manter a doença sob controle; os dados de sobrevida a longo prazo com a imunoterapia antes e depois da cirurgia ainda estão amadurecendo. O diagnóstico precoce continua sendo o fator mais importante.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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