Muita gente em tratamento oncológico descreve um cansaço diferente de tudo o que já sentiu. Não é o cansaço de uma noite mal dormida nem o de um dia puxado. Esse sintoma tem nome, fadiga relacionada ao câncer, e é definido pela Mayo Clinic como uma sensação persistente de exaustão física, emocional e cognitiva ligada à doença ou ao tratamento, desproporcional à atividade recente e capaz de interferir na rotina e na qualidade de vida. Diferente do cansaço comum, é mais intenso, não é passageiro e não melhora apenas com repouso.
É também um dos sintomas mais comuns em oncologia. Levantamentos publicados na Revista da Associação Médica Brasileira e na Scientific Reports mostram que a maior parte das pessoas relata algum grau de cansaço em algum momento da doença ou do tratamento, com impacto direto na qualidade de vida e na capacidade de tocar a rotina. Apesar disso, costuma ser pouco falada na consulta, muitas vezes porque o paciente a interpreta como algo natural e inevitável.
Como a fadiga se manifesta
Cada pessoa descreve esse cansaço de um jeito. Os relatos mais comuns são:
- Falta de energia, mesmo sem ter feito esforço
- Dormir menos do que o habitual, ou dormir mais e ainda assim acordar cansado
- Perder o interesse pelas atividades de sempre
- Dificuldade de pensar com clareza ou de se concentrar
- Tristeza, impaciência ou irritabilidade
- Deixar de lado cuidados pessoais e com a aparência
- Sensação de fraqueza no corpo
- Cansaço a ponto de tarefas simples, como atender o telefone, parecerem grandes demais
Reconhecer esses sinais já é meio caminho: eles não são frescura nem preguiça, e sim manifestações de um sintoma com nome, causa e tratamento.
Dúvidas sobre fadiga relacionada ao câncer?
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Para avaliar o seu caso, agende uma consulta com o Dr. Hugo Tanaka.
Agendar pelo WhatsAppPor que a fadiga relacionada ao câncer acontece
As causas raramente são únicas. Inflamação, ativação do cortisol, desequilíbrios hormonais, alterações do metabolismo associadas à perda de peso e a fraqueza muscular contribuem para o quadro, assim como anemia induzida por quimioterapia, dor, sofrimento emocional, insônia e alterações da tireoide. O próprio tumor pode causar fadiga, ao enfraquecer músculos, comprometer órgãos ou alterar hormônios, e quimioterapia, terapia direcionada, hormonioterapia e radioterapia também estão entre os fatores envolvidos. Há ainda um círculo vicioso conhecido: quem não se sente bem reduz a atividade física, o corpo perde condicionamento e o cansaço aumenta.
Por esse motivo, o diagnóstico costuma ser feito depois de afastar causas reversíveis ou tratáveis, como hipotireoidismo, anemia, distúrbios do sono, dor, estresse emocional e efeitos adversos de medicamentos. Boa parte dessa investigação começa por exames de sangue simples, pedidos na própria consulta de acompanhamento.
Como a fadiga é avaliada na consulta
Não existe exame que meça fadiga. Quem informa é o próprio paciente, e por isso as diretrizes da National Comprehensive Cancer Network orientam que o tema seja perguntado já na primeira consulta e depois de forma regular, durante e após o tratamento.
Muita gente deixa de comentar o cansaço por acreditar que ele faz parte do tratamento e que não há o que fazer. A fadiga é comum, mas tem causas identificáveis e pode ser tratada. O primeiro passo é contar ao médico que ela existe.
Ajuda levar para a consulta quando o cansaço começou, com que frequência aparece, se mudou ao longo do tempo, o que melhora, o que piora e o quanto atrapalha o dia. Um diário de uma ou duas semanas costuma render mais informação útil do que qualquer exame isolado. Nele cabe anotar o nível de cansaço ao longo do dia, os outros sintomas e efeitos colaterais do tratamento, quando cada um começou e como você se sentiu física e emocionalmente.
O exame físico e os exames de sangue completam a avaliação, sobretudo para afastar anemia e infecção. Tratar causas específicas, como dor, anemia ou alterações da tireoide, já alivia parte do quadro, mas na maioria dos casos o controle da fadiga exige também medidas não medicamentosas, orientadas caso a caso.
Quanto tempo dura a fadiga relacionada ao câncer
Não há como prever quanto tempo ela vai durar nem qual será a intensidade. A fadiga pode aparecer antes mesmo da primeira sessão, se intensificar ao longo do tratamento e permanecer depois que ele termina. Há quem melhore em poucas semanas e quem conviva com o sintoma por meses ou anos.
Também é importante saber que os efeitos variam de um dia para o outro. Quem recebe quimioterapia, terapia direcionada ou imunoterapia em ciclos costuma sentir o cansaço mais forte no começo do ciclo, com melhora até o início do próximo. Já na radioterapia a fadiga tende a piorar conforme o tratamento avança e a ceder algumas semanas ou meses depois da última sessão. Depois de cirurgia costuma ser passageira e melhora junto com a recuperação.
O que costuma ajudar
O primeiro passo é corrigir o que é corrigível. A anemia é uma das condições que mais contribuem para o quadro e merece investigação da causa e plano próprio de tratamento; o ajuste da analgesia também melhora a fadiga, com atenção às medicações que provocam sonolência. A partir daí, algumas medidas têm respaldo consistente.
Exercício físico. É considerado a forma mais eficaz de prevenir e melhorar a fadiga durante e depois do tratamento. Nas diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o exercício aparece como a primeira recomendação para o manejo da fadiga, seja combinando atividade aeróbica com fortalecimento muscular, seja apenas com fortalecimento. Na prática, a orientação costuma ser de cerca de 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada e duas a três sessões de fortalecimento por semana. Parece contraintuitivo para quem está exausto, mas o efeito é real. Começar devagar e encontrar uma rotina possível vale mais do que intensidade.
Sono. A Associação Brasileira do Sono orienta manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana, e criar uma rotina na hora que antecede o sono, com atividades que ajudem o corpo a desacelerar, como leitura, música tranquila ou uma técnica de relaxamento. Evitar telas na última hora antes de deitar e não consumir cafeína ou álcool perto do horário de dormir fazem parte do mesmo cuidado. Para adultos, a referência é de sete a nove horas de sono por noite. Se o cansaço apertar durante o dia, cochilos curtos, de 10 a 20 minutos e sempre antes das 15 horas, ajudam sem atrapalhar a noite; cochilos longos costumam piorar o quadro.
Alimentação e hidratação. A necessidade de proteínas e nutrientes pode estar aumentada durante o tratamento, e vale manter boa ingestão de líquidos e moderar a cafeína.
Apoio psicológico e práticas integrativas. Ioga, tai chi, práticas de atenção plena e estratégias psicológicas de manejo do estresse fazem parte do arsenal, geralmente em combinação, já que cada paciente responde de um jeito. Esse cuidado costuma render mais quando é conduzido por uma equipe multidisciplinar. Na fadiga leve, que não compromete a qualidade de vida, as medidas não farmacológicas podem ser suficientes; na fadiga moderada a intensa, costuma-se associar tratamento medicamentoso.
Medicamentos. Psicoestimulantes podem aumentar o nível de energia em situações selecionadas, antidepressivos ajudam quem tem depressão associada, e a reposição se aplica a quem tem deficiência comprovada de hormônios tireoidianos, vitamina D ou testosterona. O uso de corticoides tem evidência mista, e vitaminas e suplementos fitoterápicos devem ser discutidos com o médico pelo risco de interação com os demais medicamentos. A escolha de cada medida depende de comorbidades, idade e performance status.
Quando levar isso para a consulta
Sempre que o cansaço limitar atividades que antes eram tranquilas, atrapalhar o trabalho, interferir na concentração ou persistir semanas depois do fim do tratamento. A fadiga afeta boa parte dos pacientes oncológicos e nem sempre recebe a atenção devida, o que torna importante comunicar o sintoma. Fadiga não é um detalhe do tratamento a ser suportado em silêncio: é um sintoma que se avalia, se investiga e, na maior parte das vezes, se consegue melhorar. Falar sobre ela é o que permite tratá-la.
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