Diverticulite: Qual a relação com câncer colorretal

Dor no lado esquerdo da barriga, febre e intestino desregulado costumam ser diverticulite, uma inflamação benigna. Ela não se transforma em tumor, mas pode confundir o diagnóstico e esconder um câncer de intestino. Saiba quando investigar.

A diverticulite não tem relação com o câncer de intestino e não aumenta o risco de desenvolvê-lo. Uma mesma pessoa pode ter as duas doenças ao longo da vida, e ainda assim uma não terá causado a outra. Essa é a resposta direta para a dúvida que mais aparece no consultório logo depois do diagnóstico.

A confusão, porém, tem explicação. Os sintomas das duas doenças se sobrepõem bastante, em especial a dor abdominal e o sangramento, e é natural que o medo venha antes da informação. Uma dor forte no lado esquerdo da barriga, com febre e mudança no funcionamento do intestino, corresponde na maior parte das vezes a uma diverticulite, que é uma inflamação benigna do intestino grosso com tratamento bem estabelecido.

Este texto explica, o que é a diverticulite, como ela se manifesta, quais exames confirmam o diagnóstico e como é o tratamento. Explica também por que, mesmo sem relação de causa entre as duas doenças, um episódio merece investigação depois que a fase aguda passa: quando os sinais são parecidos, existe o risco de um tumor já presente ficar escondido atrás do diagnóstico mais provável.

O que é a diverticulite

O intestino grosso é um tubo muscular por onde passam as fezes até serem eliminadas. Com o passar dos anos, alguns pontos mais frágeis dessa parede cedem à pressão interna e formam pequenas bolsas que se projetam para fora, chamadas divertículos. A simples presença dessas bolsas recebe o nome de diverticulose e, isoladamente, não é considerada uma doença.

A diverticulite acontece quando um ou mais desses divertículos inflamam ou infectam. Os divertículos são comuns sobretudo depois dos 50 anos e se concentram na porção final do intestino grosso, chamada cólon sigmoide, que fica do lado esquerdo do abdome. É por isso que a dor costuma aparecer exatamente nessa região.

Diverticulose e diverticulite: qual é a diferença

A confusão entre os dois termos é frequente e vale a pena desfazê-la. A diverticulose é a condição silenciosa: as bolsas existem, mas não incomodam. Na maioria das pessoas, elas são descobertas por acaso, em uma colonoscopia ou tomografia feita por outro motivo. Cerca de um terço das pessoas acima dos 45 anos e mais da metade das pessoas acima dos 80 anos têm divertículos, e boa parte delas nunca terá sintoma nenhum.

A diverticulite é o episódio agudo, quando uma dessas bolsas inflama. Apenas uma parcela de quem tem diverticulose vai desenvolver diverticulite ao longo da vida. Em outras palavras, ter divertículos não significa estar doente, e sim ter uma característica anatômica que exige alguns cuidados de rotina.

Quais são os sintomas da diverticulite

O quadro clássico é uma dor abdominal de início súbito, contínua e de intensidade importante, localizada no lado inferior esquerdo da barriga. Em algumas pessoas, a dor começa leve e vai piorando ao longo de horas ou dias. Os sinais mais comuns são:

  • Dor abdominal persistente, com maior frequência no quadrante inferior esquerdo
  • Febre e sensação de mal-estar geral
  • Náusea e, às vezes, vômitos
  • Barriga dolorida ao toque
  • Mudança do hábito intestinal, com diarreia ou prisão de ventre
  • Presença de sangue nas fezes em parte dos casos

Vale um alerta importante: a dor abdominal também pode surgir do lado direito, sobretudo em pessoas de origem asiática, em quem os divertículos se distribuem de forma diferente. Nesses casos, o quadro é facilmente confundido com apendicite.

Sinais que pedem atendimento de urgência

Alguns sintomas indicam que a inflamação pode ter evoluído para uma complicação e exigem avaliação hospitalar imediata: dor intensa e contínua que não cede, febre alta com calafrios, vômitos persistentes, barriga rígida ou muito distendida, ausência de eliminação de fezes e gases e sangramento intestinal volumoso. Diante de qualquer um deles, o caminho é o pronto-socorro, e não a espera em casa.

O que causa a diverticulite e quem tem mais risco

Os divertículos se formam ao longo dos anos, por pressão dentro do cólon em pontos onde a parede é naturalmente mais fraca. Constipação intestinal e esforço para evacuar contribuem para esse processo. A inflamação surge quando ocorre lesão da parede do divertículo, com proliferação de bactérias no local.

Os principais fatores que aumentam o risco de diverticulite são:

  • Idade acima de 50 anos
  • Obesidade e sedentarismo
  • Tabagismo
  • Alimentação pobre em fibras e rica em carne vermelha
  • Consumo elevado de álcool
  • Níveis baixos de vitamina D
  • Uso de alguns medicamentos, como corticoides, opioides e anti-inflamatórios não hormonais

Chama a atenção que essa lista se sobrepõe, em vários itens, aos fatores de risco do câncer colorretal. Isso não quer dizer que uma doença leve à outra, e sim que hábitos de vida semelhantes favorecem as duas.

Diverticulite pode virar câncer?

A diverticulite é uma doença benigna, não se transforma em tumor maligno e não aumenta o risco de câncer de intestino.

O que existe entre as duas doenças é uma semelhança incômoda de sintomas. Dor abdominal, alteração do hábito intestinal e sangue nas fezes aparecem tanto na diverticulite quanto no tumor de cólon. A diferença é que o câncer costuma ser silencioso no começo, enquanto a inflamação dos divertículos dá sinais evidentes desde o primeiro dia.

Por que a investigação ainda assim é necessária

Uma coisa é afirmar que a diverticulite não causa câncer. Outra, bem diferente, é presumir que toda dor no lado esquerdo do abdome seja apenas diverticulite. Um tumor localizado no cólon sigmoide pode provocar exatamente o mesmo quadro, inclusive com febre e alteração dos exames de sangue. Além disso, um tumor que estreita o intestino aumenta a pressão local e pode, ele próprio, desencadear um episódio inflamatório. Nessa situação, a inflamação não é a doença de base, e sim a manifestação de algo que estava escondido.

Por esse motivo, a conduta habitual é indicar colonoscopia algumas semanas depois que a fase aguda foi resolvida. A recomendação é ainda mais firme quando houve complicação, quando a pessoa nunca fez o exame, quando o quadro se repete ou quando existem sinais de alarme como anemia, emagrecimento e sangramento persistente. Esse mesmo exame é a base do rastreamento do câncer colorretal, recomendado a partir dos 45 anos para quem tem risco médio.

A preocupação faz sentido pelo peso da doença no país. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de cólon e reto é o segundo tipo mais incidente tanto em homens quanto em mulheres no Brasil, excluído o câncer de pele não melanoma. Quando descoberto cedo, tem altas chances de cura, o que reforça o valor do diagnóstico precoce.

Como é feito o diagnóstico

A avaliação começa pela conversa e pelo exame físico, que já orientam bastante a suspeita. Em seguida, exames de sangue mostram sinais de inflamação e infecção. O exame de imagem de escolha na fase aguda é a tomografia computadorizada do abdome e da pelve, que confirma o diagnóstico, mostra a extensão do processo e identifica complicações como abscessos e perfurações.

A colonoscopia, por outro lado, não deve ser feita durante a crise, porque a parede do intestino está inflamada e o exame aumenta o risco de perfuração. Ela fica reservada para o período após a recuperação, quando cumpre o papel de afastar tumores e outras lesões.

Como é o tratamento da diverticulite

A maior parte dos episódios é não complicada e se resolve fora do hospital, com repouso, ajuste temporário da alimentação, hidratação, analgesia e, em casos selecionados, antibióticos. Nem todo quadro leve exige antibiótico, e essa decisão pertence ao médico que está acompanhando o caso.

Quando há febre alta, dor intensa, vômitos, incapacidade de se alimentar ou sinais de complicação, a internação passa a ser necessária. Nesse cenário, o tratamento envolve antibióticos por via venosa, jejum ou dieta restrita e, quando existe abscesso, drenagem guiada por tomografia. Cerca de 15% dos pacientes desenvolvem complicações, entre elas abscesso, obstrução intestinal, fístula, perfuração com peritonite e sangramento.

Vale destacar que não existe conduta única. A escolha do tratamento muda de paciente para paciente e leva em conta as doenças associadas, a idade e o estado geral, o chamado performance status. Uma pessoa jovem e sem outras doenças pode receber uma orientação bem diferente da indicada a alguém com múltiplas comorbidades, ainda que a tomografia mostre achados parecidos.

Quando a cirurgia é indicada

A cirurgia é reservada para situações específicas: perfuração com peritonite, abscessos que não respondem à drenagem, fístulas, obstrução do intestino e sangramento que não para. Também pode ser considerada de forma programada em quem apresenta episódios repetidos e limitantes, sempre com discussão individualizada de riscos e benefícios. O procedimento mais comum é a retirada do segmento doente do cólon, em geral o sigmoide.

Quando a cirurgia acontece em caráter de urgência e a peça é enviada para análise, a avaliação do patologista tem um papel adicional. É esse exame que confirma se a alteração era realmente inflamatória ou se havia um tumor associado, o que muda completamente o seguimento e pode direcionar para tratamentos para câncer colorretal e para a definição dos estágios da doença.

Crises repetidas: o que muda no acompanhamento

Parte dos pacientes apresenta apenas um episódio isolado ao longo da vida. Outros passam por crises que retornam a cada alguns meses ou anos, com intensidade variável. Nesse segundo grupo, o acompanhamento deixa de ser pontual e passa a ser contínuo, com atenção à alimentação, ao funcionamento do intestino e ao controle de peso.

A repetição também muda o peso da investigação. Quadros que voltam sempre no mesmo local do abdome, que deixam alterações persistentes na tomografia ou que vêm acompanhados de anemia e emagrecimento merecem avaliação endoscópica cuidadosa. O objetivo não é alarmar, e sim garantir que nada de importante fique sem explicação. Em uma parcela pequena dos casos investigados por sintomas atribuídos aos divertículos, o exame acaba revelando pólipos ou tumores em fase inicial, situações em que a descoberta durante a colonoscopia permite um tratamento muito mais simples.

Vale lembrar que dor abdominal recorrente tem muitas causas possíveis além dos divertículos, entre elas síndrome do intestino irritável, doenças inflamatórias intestinais, cálculos urinários e problemas ginecológicos. Um diagnóstico presumido, repetido ano após ano sem confirmação por exame, é um risco silencioso.

Alimentação e prevenção

Fora das crises, a orientação central é aumentar o consumo de fibras. Frutas, verduras, legumes, grãos integrais e leguminosas melhoram o trânsito intestinal, reduzem o esforço para evacuar e diminuem a pressão dentro do cólon. Beber água em quantidade adequada é parte indissociável dessa recomendação, porque a fibra depende de líquido para funcionar.

Vale registrar que o aumento das fibras deve ser gradual. Uma mudança brusca costuma provocar gases e desconforto abdominal, o que faz muita gente abandonar a orientação nos primeiros dias. Subir a quantidade aos poucos, ao longo de algumas semanas, e acompanhar de perto a ingestão de água tornam a adaptação bem mais confortável.

Praticar atividade física com regularidade, manter o peso em faixa saudável, reduzir carne vermelha e processada, não fumar e limitar o álcool completam a lista. São medidas que protegem contra novas crises de diverticulite e, ao mesmo tempo, reduzem o risco de câncer de intestino.

Uma orientação antiga merece correção. Durante décadas, recomendou-se evitar sementes, nozes, castanhas e pipoca sob a suspeita de que ficariam presas nos divertículos. Estudos mostraram que esses alimentos não aumentam o risco de novas crises e, ao contrário, são boas fontes de fibra. Já na fase aguda, a dieta é temporariamente mais leve e com pouco resíduo, voltando ao normal conforme a melhora dos sintomas.

Perguntas frequentes sobre diverticulite

Diverticulite pode virar câncer?

Não. A diverticulite é uma inflamação benigna e não se transforma em tumor maligno. O que acontece é que as duas doenças provocam sintomas parecidos, como dor abdominal e sangue nas fezes, e por isso a investigação com colonoscopia após a crise é recomendada.

Qual é a diferença entre diverticulose e diverticulite?

Diverticulose é apenas a presença das bolsas na parede do intestino, sem inflamação e, na maioria das vezes, sem sintomas. Diverticulite é o momento em que uma dessas bolsas inflama ou infecta, causando dor, febre e alteração do hábito intestinal.

Diverticulite tem cura?

O episódio inflamatório tem cura e costuma se resolver com tratamento adequado. Os divertículos, porém, não desaparecem, o que significa que novas crises são possíveis. Alimentação rica em fibras, hidratação e atividade física reduzem bastante essa chance.

Quem teve diverticulite precisa fazer colonoscopia?

Na maioria dos casos, sim, algumas semanas após a resolução do quadro. A indicação é mais forte quando houve complicação, quando o exame nunca foi realizado, quando as crises se repetem ou quando existem sinais de alarme como anemia e perda de peso.

Quais alimentos devem ser evitados na crise?

Durante a crise, o médico costuma orientar dieta leve e com pouco resíduo por alguns dias. Fora da crise, não há proibição de sementes, nozes e pipoca, e a recomendação é reduzir carne vermelha e processada e aumentar o consumo de fibras.

A doença causa sangue nas fezes?

Pode causar. O sangramento diverticular é uma das complicações possíveis. Como sangue nas fezes também é sinal de câncer de intestino e de outras doenças, esse achado nunca deve ser atribuído automaticamente aos divertículos sem investigação.

Quando é preciso operar?

A cirurgia é indicada em complicações graves, como perfuração com peritonite, abscesso que não responde à drenagem, fístula, obstrução intestinal e sangramento incontrolável. Também pode ser programada em quem tem crises frequentes, sempre com avaliação individualizada.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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