Por Dr. Hugo Tanaka — Oncologista clínico (CRM-SP 163.241 | RQE 100.689), especialista em tumores gastrointestinais e neuroendócrinos.
Conteúdo educativo revisado por médico • Atualizado em junho de 2026 • Baseado em evidência de fase 3 (ASCO 2026 / NEJM)
Receber o diagnóstico de câncer de pâncreas avançado costuma trazer muitas perguntas — e, nos últimos meses, uma novidade tem renovado a esperança de pacientes e familiares: o daraxonrasibe. Esse medicamento oral, estudado especificamente para o câncer de pâncreas metastático, apresentou resultados considerados marcantes em um grande estudo internacional de fase 3 divulgado no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) em 2026.
Neste texto, explicamos de forma simples o que é o daraxonrasibe para câncer de pâncreas metastático, como ele age no organismo, o que os estudos revelaram e em quais situações ele pode ser uma opção. O objetivo é oferecer informação clara, atualizada e confiável para ajudar você e sua família a conversar com a equipe médica com mais segurança.
O que é o câncer de pâncreas metastático
O câncer de pâncreas metastático, também chamado de câncer de pâncreas em estágio 4, acontece quando células do tumor se espalham do pâncreas para outros órgãos, mais frequentemente o fígado e os pulmões. Nessa fase, o objetivo do tratamento deixa de ser a cura e passa a ser controlar a doença pelo maior tempo possível, com qualidade de vida.
Identificar cedo os sinais e sintomas do câncer de pâncreas pode ampliar as opções terapêuticas. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), trata-se de um dos tumores mais desafiadores, justamente porque costuma ser descoberto em estágios avançados. A base do tratamento ainda é a quimioterapia — com esquemas como FOLFIRINOX ou gencitabina associada ao nab-paclitaxel, detalhados nas opções de tratamento para câncer de pâncreas. É exatamente nesse cenário, após a primeira linha de tratamento, que o daraxonrasibe ganhou destaque.
O que é o daraxonrasibe e como ele age
O daraxonrasibe (em inglês, daraxonrasib) é um medicamento de uso oral — tomado em comprimido, uma vez ao dia. Ele pertence a uma nova classe de remédios chamada inibidores de RAS(ON), desenvolvida para atacar uma das principais “engrenagens” que fazem o câncer de pâncreas crescer.
Para entender, vale uma comparação simples. Dentro de cada célula existe um “interruptor” chamado KRAS, que controla quando a célula deve se multiplicar. No câncer de pâncreas, esse interruptor costuma ficar “travado na posição ligada” por causa de uma alteração genética (mutação), o que faz o tumor crescer sem parar. De acordo com o National Cancer Institute (NIH), a mutação no gene KRAS está presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Diferentemente de medicamentos anteriores, que bloqueavam apenas um tipo muito específico de mutação, o daraxonrasibe age sobre várias formas do gene RAS ao mesmo tempo. Por isso ele é descrito como um inibidor “multisseletivo”: consegue desligar esse interruptor defeituoso em um número maior de pacientes.

O que o estudo mostrou sobre o daraxonrasibe para câncer de pâncreas metastático
Os resultados mais importantes vieram de um estudo internacional de fase 3 chamado RASolute 302 — um ensaio clínico randomizado, o padrão-ouro da pesquisa médica. Ele acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido um tratamento anterior: metade recebeu o daraxonrasibe e a outra metade, a quimioterapia habitual. Os dados foram apresentados na sessão plenária da ASCO 2026 e publicados na New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo.
Os principais achados foram:
- A sobrevida quase dobrou. O tempo médio de vida foi de cerca de 13 meses com o daraxonrasibe, contra cerca de 7 meses com a quimioterapia — uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte.
- A doença ficou controlada por mais tempo. O período sem progressão do tumor foi de cerca de 7 meses, contra cerca de 3,5 meses com a quimioterapia.
- Mais tumores diminuíram. Cerca de 1 em cada 3 pacientes apresentou redução importante do tumor com o daraxonrasibe, aproximadamente o triplo do observado com a quimioterapia.
Especialistas presentes no congresso descreveram os dados como um avanço histórico para uma doença em que, há décadas, pouco havia mudado. Vale lembrar que esses números são médias de um grupo: cada pessoa responde de forma diferente, e somente o oncologista pode avaliar o seu caso individualmente.
Referência do estudo: os dados citados são do ensaio de fase 3 RASolute 302, apresentado na sessão plenária da ASCO 2026 e publicado no New England Journal of Medicine em 31/05/2026.
Acesse o estudo completo: New England Journal of Medicine — RASolute 302 | Comunicado oficial da ASCO 2026
Daraxonrasibe ou quimioterapia: o impacto na qualidade de vida
Além de ajudar as pessoas a viverem mais, o daraxonrasibe foi mais bem tolerado do que a quimioterapia. No estudo, os pacientes que usaram o medicamento tiveram menos efeitos colaterais graves e precisaram interromper o tratamento por intolerância com muito menos frequência. Também relataram menos dor relacionada ao câncer e melhor qualidade de vida ao longo do tempo.
Esse ponto é especialmente importante no câncer de pâncreas metastático, em que o conforto e o controle de sintomas — temas centrais também dos cuidados paliativos, abordados no nosso conteúdo sobre o câncer de pâncreas em estágio 4 — fazem toda a diferença no dia a dia. A American Cancer Society reforça que preservar a qualidade de vida é um dos objetivos centrais do cuidado na doença avançada.
Efeitos colaterais do daraxonrasibe
Nenhum tratamento é isento de efeitos colaterais. Com o daraxonrasibe, os mais comuns costumam ser leves a moderados e, na maioria das vezes, controláveis com orientação médica. Entre eles estão:
- Erupções na pele (vermelhidão, semelhante a uma alergia);
- Diarreia;
- Feridas ou inflamação na boca (estomatite);
- Cansaço (fadiga).
Esses sintomas, em geral, podem ser manejados com ajustes de dose e medicamentos de apoio. É fundamental comunicar à equipe médica qualquer desconforto, pois o acompanhamento próximo é o que garante segurança durante o tratamento.
O daraxonrasibe já está disponível?
Esta é uma das dúvidas mais importantes — e exige clareza. O daraxonrasibe ainda é considerado um medicamento em fase de avaliação regulatória. Nos Estados Unidos, a agência reguladora (FDA) liberou o acesso ao remédio por meio de um programa especial, enquanto analisa sua aprovação definitiva.
No Brasil, até o momento, o daraxonrasibe ainda não tem aprovação da Anvisa e não faz parte da rotina de tratamento. Isso significa que ele ainda não está disponível em farmácias ou pela maioria dos planos de saúde e do SUS. As possibilidades de acesso, hoje, passam por estudos clínicos ou por avaliações individuais — e mudam com o tempo. Por isso, a recomendação é discutir cada caso com um oncologista de referência. Saiba mais sobre o tratamento de câncer no pâncreas em São Paulo e as opções disponíveis atualmente no país.
Quem pode se beneficiar e o papel do teste genético
O daraxonrasibe foi estudado em pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam passado por uma primeira linha de tratamento. Como o medicamento atua sobre o gene RAS, o teste genético do tumor (também chamado de perfil molecular) tem papel cada vez mais importante: ele ajuda a identificar quais pacientes têm maior chance de se beneficiar de terapias direcionadas.
Esse mesmo raciocínio se aplica a outras alterações genéticas relevantes na doença. Você pode entender melhor esse tema no nosso conteúdo sobre câncer de pâncreas hereditário e fatores genéticos. Sociedades médicas como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e a ASCO recomendam que a investigação molecular seja considerada no planejamento do tratamento de tumores avançados.
Em resumo
O daraxonrasibe para câncer de pâncreas metastático representa um dos avanços mais promissores dos últimos anos para uma doença historicamente difícil de tratar. Ainda assim, é um medicamento novo, em análise pelos órgãos reguladores e não disponível na rotina brasileira. A melhor decisão é sempre individualizada e construída junto com o seu médico, considerando o tipo do tumor, o perfil genético, a sua condição clínica e os seus objetivos de tratamento.


Se você ou alguém da sua família convive com o câncer de pâncreas e deseja uma avaliação especializada, agende uma consulta com o Dr. Hugo Tanaka para discutir o melhor caminho para o seu caso.
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- Câncer de pâncreas hereditário: genética, fatores de risco e prevenção
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Perguntas frequentes sobre o daraxonrasibe
O que é o daraxonrasibe?
É um medicamento oral, tomado em comprimido uma vez ao dia, da classe dos inibidores de RAS(ON). Ele foi desenvolvido para bloquear a ação do gene KRAS alterado, que faz o câncer de pâncreas crescer.
Para que serve o daraxonrasibe no câncer de pâncreas?
Ele foi estudado como tratamento para o câncer de pâncreas metastático em pacientes que já haviam recebido uma linha anterior de terapia. Nos estudos, ajudou a controlar a doença por mais tempo e a prolongar a sobrevida.
O daraxonrasibe é melhor que a quimioterapia?
No estudo de fase 3 RASolute 302, o daraxonrasibe quase dobrou a sobrevida em comparação com a quimioterapia (cerca de 13 contra 7 meses, em média) e causou menos efeitos colaterais graves. Ainda assim, a melhor escolha depende de cada caso e deve ser definida pelo oncologista.
Quais são os efeitos colaterais do daraxonrasibe?
Os mais comuns são erupções na pele, diarreia, feridas na boca e cansaço. Em geral, são leves a moderados e podem ser controlados com acompanhamento médico e ajustes de dose.
O daraxonrasibe já está disponível no Brasil?
Até o momento, não. O daraxonrasibe ainda não tem aprovação da Anvisa e não faz parte da rotina de tratamento no Brasil. Nos Estados Unidos, está acessível por um programa especial enquanto passa por avaliação regulatória.
É preciso fazer teste genético para usar o daraxonrasibe?
O teste genético (perfil molecular) do tumor é cada vez mais importante para identificar quem pode se beneficiar de terapias direcionadas, como as que atuam no gene RAS. Converse com seu oncologista sobre essa investigação.
O daraxonrasibe cura o câncer de pâncreas?
Não. No câncer de pâncreas metastático, o objetivo do tratamento é controlar a doença e manter a qualidade de vida pelo maior tempo possível. O daraxonrasibe mostrou um avanço importante nesse controle, mas não é considerado uma cura.

