É o tipo de câncer de pele mais agressivo, mas, quando diagnosticado precocemente, apresenta altas taxas de cura
O melanoma é o tipo mais grave de câncer de pele e se origina nos melanócitos — as células responsáveis pela produção de melanina, o pigmento que dá cor à pele, aos cabelos e aos olhos. Embora represente menos de 5% de todos os casos de câncer cutâneo, ele é responsável pela maioria das mortes relacionadas a tumores de pele, em razão de sua alta capacidade de se espalhar para outros órgãos (metástase).
No Brasil, segundo a Estimativa 2026–2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a projeção é de mais de 9 mil novos casos de melanoma por ano, com crescimento progressivo da incidência, especialmente entre adultos jovens e populações de pele clara. Apesar da agressividade biológica, o melanoma detectado em fase inicial tem chance de cura próxima a 97% — o que torna o autoexame da pele e o acompanhamento dermatológico periódico as armas mais poderosas contra a doença.
Em minha prática clínica como oncologista em São Paulo, a abordagem do melanoma envolve sempre uma equipe multidisciplinar composta por dermatologistas, cirurgiões oncológicos, patologistas, radioterapeutas e oncologistas clínicos. A personalização do tratamento, baseada no estadiamento, na análise molecular do tumor e nas características individuais do paciente, é o que define o sucesso terapêutico nos dias de hoje.

Os melanomas são classificados de acordo com o padrão de crescimento, a localização anatômica e o comportamento biológico. Conhecer o subtipo é fundamental para orientar o tratamento e estimar o prognóstico.
Melanoma extensivo superficial: é o subtipo mais comum, representando cerca de 70% de todos os casos. Costuma surgir em áreas do corpo expostas ao sol de forma intermitente, como tronco em homens e pernas em mulheres. Apresenta, inicialmente, crescimento horizontal (ao longo da epiderme) antes de invadir camadas mais profundas. Manifesta-se como uma mancha ou lesão com bordas irregulares e cores variadas, que pode evoluir de uma pinta preexistente ou surgir como uma lesão nova.
Melanoma nodular: corresponde a cerca de 15% a 30% dos casos e é considerado o subtipo mais agressivo, por apresentar crescimento vertical (em profundidade) desde o início. Surge como um nódulo firme, geralmente de cor escura, podendo ser azulado, marrom ou preto. Em alguns casos, é amelanótico (sem pigmento), o que dificulta o reconhecimento. Sua rápida evolução exige atenção redobrada.
Lentigo maligno melanoma: representa entre 4% e 15% dos casos e acomete, principalmente, pessoas idosas com pele cronicamente danificada pelo sol. Manifesta-se em áreas muito expostas, como rosto, orelhas e couro cabeludo. Costuma evoluir lentamente ao longo de anos, a partir de uma mancha plana que vai se escurecendo e aumentando de tamanho (lentigo maligno, considerado a fase in situ).
Melanoma acral lentiginoso: é o subtipo mais comum em indivíduos de pele negra, asiática e hispânica, embora possa ocorrer em qualquer grupo étnico. Surge em regiões sem exposição solar direta, como palmas das mãos, plantas dos pés e sob as unhas (melanoma subungueal). Por sua localização pouco visível, costuma ser diagnosticado tardiamente, o que prejudica o prognóstico.
Melanoma amelanótico: variante rara, caracterizada pela ausência de pigmento. Apresenta-se como lesão rósea, vermelha ou cor da pele, o que pode ser confundido com outras condições cutâneas benignas. Exige alto grau de suspeição clínica e biópsia para confirmação diagnóstica.
Existem ainda formas raras de melanoma que não se originam na pele:
O melanoma pode se manifestar como uma mancha nova na pele ou como uma alteração em uma pinta preexistente. A maioria dos melanomas, no entanto, surge como lesão nova — e não a partir de pintas antigas. Por isso, qualquer alteração cutânea persistente deve ser avaliada por um especialista.
A principal ferramenta de identificação de lesões suspeitas é a regra ABCDE, adotada mundialmente por dermatologistas e oncologistas e amplamente divulgada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) em suas campanhas anuais de conscientização:
Outro sinal de alerta é o chamado “sinal do patinho feio” — uma pinta que se destaca visualmente das demais lesões cutâneas do paciente, mesmo que isoladamente não pareça preocupante. Sempre que houver dúvida, a avaliação dermatológica com dermatoscopia é fundamental.
Diferentes condições podem aumentar o risco de desenvolvimento do melanoma. Entre as mais relevantes, destacam-se:
O diagnóstico do melanoma combina avaliação clínica, exame dermatoscópico e confirmação histopatológica por biópsia. Em casos mais avançados, exames de imagem e testes moleculares complementam a investigação.
Exame clínico dermatológico: avaliação completa da pele, couro cabeludo, mucosas, unhas e regiões interdigitais. O dermatologista analisa a lesão suspeita com base na regra ABCDE e na comparação com outras pintas do paciente.
Dermatoscopia: técnica não invasiva que utiliza um aparelho de aumento com luz polarizada para avaliar estruturas internas da lesão, aumentando significativamente a acurácia diagnóstica. O mapeamento corporal digital pode ser recomendado para pacientes com múltiplos nevos ou alto risco.
Biópsia excisional: é o padrão-ouro para confirmação diagnóstica. Consiste na remoção completa da lesão com margem mínima, seguida de análise histopatológica. A biópsia incisional é reservada para lesões muito grandes ou em localizações anatômicas especiais.
Exame histopatológico: o laudo deve conter informações essenciais para o estadiamento e o planejamento terapêutico, como a espessura de Breslow (profundidade da invasão em milímetros), presença de ulceração, índice mitótico, invasão linfovascular, perineural e margens cirúrgicas.
Biópsia de linfonodo sentinela: indicada para melanomas com espessura superior a 0,8 mm ou com fatores de risco adicionais. Identifica o primeiro linfonodo de drenagem do tumor e permite estadiamento preciso da doença regional.
Exames de imagem: em pacientes com melanoma avançado ou com suspeita de metástase, podem ser solicitados tomografia computadorizada, ressonância magnética, PET-CT com FDG e ultrassonografia de linfonodos.
Testes moleculares: a pesquisa de mutações somáticas — especialmente no gene BRAF, presente em cerca de 40% a 50% dos melanomas cutâneos — é fundamental para decisão sobre terapia-alvo. Outras alterações relevantes incluem mutações em NRAS, KIT e NF1.
Segundo o National Cancer Institute (NCI), o estadiamento do melanoma segue a classificação TNM da American Joint Committee on Cancer (AJCC), em sua oitava edição, e considera três variáveis principais: características do tumor primário (T), comprometimento de linfonodos (N) e presença de metástases à distância (M).
Os principais fatores prognósticos histopatológicos são a espessura de Breslow, a presença de ulceração e o índice mitótico. Com os avanços da imunoterapia e da terapia-alvo, mesmo pacientes com doença metastática apresentam hoje sobrevida prolongada, algo inimaginável há uma década.
A prevenção do melanoma envolve medidas simples, mas efetivas, reforçadas anualmente pela campanha Dezembro Laranja da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Entre as principais recomendações, destacam-se:
O tratamento do melanoma é planejado individualmente com base no estadiamento, nas características moleculares do tumor e nas condições clínicas do paciente. Nas últimas duas décadas, conforme sintetiza a American Cancer Society (ACS), a oncologia experimentou uma verdadeira revolução no manejo dessa doença, com o surgimento da imunoterapia e da terapia-alvo.
Cirurgia: é o tratamento principal para melanomas em estágios iniciais. Consiste na ressecção ampla da lesão, com margens de segurança que variam conforme a espessura de Breslow (1 cm para tumores finos e até 2 cm para tumores mais espessos). A cirurgia pode ser complementada pela biópsia de linfonodo sentinela, que orienta o estadiamento regional.
Linfadenectomia: a remoção dos linfonodos regionais era historicamente indicada quando havia comprometimento do linfonodo sentinela. Hoje, com estudos como o MSLT-II, a linfadenectomia completa tem indicação mais restrita, sendo frequentemente substituída por vigilância ativa com ultrassonografia e terapia sistêmica adjuvante.
Imunoterapia: transformou o tratamento do melanoma nos últimos anos. Conforme as diretrizes de tratamento do NCI, medicamentos inibidores de checkpoint imunológico, como pembrolizumabe e nivolumabe (anti-PD-1) e ipilimumabe (anti-CTLA-4), estimulam o sistema imunológico a reconhecer e destruir as células tumorais. São indicados como terapia adjuvante em estágios III e IV ressecados e como tratamento de primeira linha para doença metastática. A combinação de nivolumabe com ipilimumabe ou com relatlimabe (anti-LAG-3) aumenta as taxas de resposta em casos selecionados.
Terapia-alvo: indicada para pacientes com mutação BRAF V600, representa outro pilar do tratamento moderno. As combinações de inibidores de BRAF e MEK — como dabrafenibe + trametinibe, vemurafenibe + cobimetinibe e encorafenibe + binimetinibe — promovem respostas rápidas e duradouras, tanto na doença adjuvante quanto na metastática.
Radioterapia: pode ser utilizada em situações específicas, como consolidação após cirurgia em casos de alto risco de recidiva local, controle de metástases cerebrais (radiocirurgia estereotáxica), ósseas ou cutâneas sintomáticas.
Quimioterapia: perdeu espaço como tratamento de primeira linha com a chegada das novas terapias, mas ainda pode ser considerada em casos selecionados de doença refratária ou em situações paliativas específicas.
Tratamento de metástases cerebrais: historicamente associado a prognóstico reservado, o melanoma com metástases cerebrais hoje pode ser tratado com combinações de imunoterapia (nivolumabe + ipilimumabe) e radiocirurgia estereotáxica, com taxas de controle intracraniano significativamente superiores às do passado.
Seguimento: o acompanhamento pós-tratamento é fundamental. Ele envolve exames dermatológicos periódicos, exames laboratoriais e de imagem, e orientação sobre fotoproteção e autoexame. O risco de um segundo melanoma é de 5% a 10% ao longo da vida, o que reforça a importância da vigilância continuada.

