Perda de peso no tratamento do câncer: o que fazer e o que evitar

Emagrecer durante o tratamento oncológico nem sempre é seguro — e às vezes a perda de peso é o primeiro sinal de que algo precisa de atenção. Entenda quando agir, quando manter e como conversar com sua equipe sobre nutrição, IMC e até medicamentos como Ozempic durante o câncer.

A perda de peso no tratamento do câncer é uma das preocupações mais frequentes nas consultas oncológicas — e também uma das mais mal compreendidas. Para alguns pacientes, emagrecer parece desejável; para outros, o peso cai sem nenhuma intenção. Em ambos os casos, é preciso cautela: o peso corporal influencia diretamente a tolerância à quimioterapia, o risco cirúrgico, a resposta imunológica e a qualidade de vida durante todo o cuidado.

Diferentemente do que ocorre na população geral, em que perder peso costuma ser visto como benefício, a perda de peso no tratamento do câncer precisa ser avaliada com critério individual. Excesso de peso é fator de risco para vários tipos de câncer, mas isso não significa que emagrecer durante o tratamento seja sempre seguro. Por outro lado, perder peso sem querer raramente é um sinal positivo — costuma indicar desnutrição, caquexia ou progressão da doença e exige avaliação rápida.

Este guia, elaborado pelo Dr. Hugo Tanaka, oncologista clínico em São Paulo, reúne cinco cuidados essenciais para pacientes e familiares que enfrentam essa dúvida. As recomendações são baseadas em diretrizes de sociedades como ASCO, American Cancer Society, National Cancer Institute (NCI) e nas orientações do Instituto Nacional de Câncer (INCA).

1. Não tente perder peso sozinho durante o tratamento

Tentar emagrecer por conta própria durante o câncer é arriscado. Dietas restritivas, jejuns prolongados, suplementos de internet e medicamentos sem prescrição podem interferir na quimioterapia, comprometer a cicatrização e levar à perda de massa muscular — exatamente o oposto do que o corpo precisa nesta fase.

Oncologista Dr. Hugo Tanaka em consulta com uma paciente, fazendo anotações sobre o tratamento oncológico e explicando sobre a perda de peso no tratamento do câncer.
O acompanhamento com o oncologista e a equipe multidisciplinar é essencial para decidir, com segurança, sobre peso e nutrição durante o tratamento.

A regra é simples: qualquer decisão sobre peso deve ser discutida com seu oncologista e, idealmente, com um nutricionista oncológico. Cada caso é único — o paciente com câncer de mama em hormonioterapia tem necessidades diferentes do paciente em quimioterapia para câncer de pâncreas, por exemplo. Saiba mais sobre o que faz o oncologista e como é a consulta.

Quem deve cuidar do peso e da nutrição durante o câncer?

O ideal é uma equipe multidisciplinar trabalhando em conjunto. O oncologista clínico coordena o tratamento e avalia as repercussões clínicas do peso; o nutricionista oncológico monta o plano alimentar adequado a cada fase; e, quando necessário, somam-se endocrinologista (especialmente em pacientes com diabetes, obesidade ou em uso de medicamentos para emagrecer), fisioterapeuta (para preservar massa muscular e funcionalidade) e psicólogo (alimentação tem forte componente emocional, ainda mais durante o câncer). Profissionais com experiência específica em oncologia conhecem as particularidades de cada protocolo de quimioterapia e radioterapia, o que faz enorme diferença na prática.

Mesmo pacientes com obesidade e indicação clínica de emagrecimento precisam de acompanhamento individualizado — não basta cortar calorias. O objetivo é preservar massa magra (músculo) enquanto se perde gordura, e isso só é possível com alimentação adequada em proteína e acompanhamento profissional.

Pessoas com obesidade podem emagrecer durante o tratamento do câncer?

Em alguns casos sim, mas com critério individualizado. A decisão depende do tipo de tumor, da fase do tratamento, das comorbidades associadas e da composição corporal — não apenas do número na balança. Em pacientes em quimioterapia ativa, a prioridade costuma ser estabilizar o peso e preservar massa muscular para tolerar bem o tratamento. O emagrecimento estruturado tende a ser mais seguro após a fase aguda, dentro de um plano supervisionado por equipe especializada. Mesmo nessas situações, o foco é qualidade da perda (mais gordura, menos músculo), e não velocidade.

2. Entenda: peso saudável no câncer não segue as regras gerais

A fórmula popular “gastar mais calorias do que se consome” não se aplica diretamente ao paciente oncológico. O câncer e seus tratamentos aumentam o gasto energético basal, alteram o metabolismo de proteínas e podem comprometer a absorção de nutrientes. Em muitas situações, o paciente precisa de mais calorias e mais proteína do que antes — mesmo estando menos ativo.

Fatores que influenciam as necessidades nutricionais durante o tratamento incluem:

  • Tipo de tratamento: a radioterapia, por exemplo, pode elevar substancialmente as necessidades calóricas e proteicas.
  • Localização do tumor: cânceres do trato digestivo (estômago, esôfago, pâncreas, intestino) frequentemente prejudicam a alimentação.
  • Efeitos colaterais: náuseas, mucosite, alterações de paladar e diarreia reduzem a ingestão.
  • Idade, sexo, altura, comorbidades — todos entram na conta.
Quantas calorias um paciente oncológico precisa por dia?

Não existe um valor único. Em termos gerais, as necessidades costumam variar entre 25 e 35 kcal por quilo de peso por dia, com 1,2 a 1,5 g de proteína por quilo por dia — valores que podem ser ainda maiores em radioterapia, no pós-operatório ou na vigência de inflamação importante. O cálculo correto considera peso atual e peso habitual, altura, idade, sexo, tipo de câncer, fase do tratamento e nível de atividade, e deve ser feito por nutricionista oncológico. Fórmulas genéricas de internet costumam subestimar as necessidades reais do paciente em tratamento.

Em vez de seguir uma dieta padrão, o ideal é construir um plano alimentar adaptado à fase do tratamento. Quando a alimentação por boca já não é suficiente, existem recursos como suplementos orais hipercalóricos e, em casos selecionados, a nutrição parenteral no câncer, que pode reverter quadros graves de desnutrição.

Suplementos alimentares ajudam a manter o peso no tratamento?

Depende do tipo de suplemento e da situação do paciente. É comum confundir produtos muito diferentes sob o mesmo nome “suplemento”. Vamos esclarecer cada grupo:

  • Suplementos nutricionais orais (geralmente ajudam): são produtos vendidos em farmácia, ricos em calorias e proteínas, usados como complemento da alimentação quando o paciente não consegue comer o suficiente — por falta de apetite, alterações de paladar ou cansaço. Indicados pelo nutricionista ou médico, ajudam a evitar a perda de peso involuntária e a preservar massa muscular.
  • Vitaminas e minerais em doses normais para corrigir deficiência (podem ajudar): quando exames de sangue mostram falta de uma vitamina ou mineral específico — como vitamina D, vitamina B12, ferro ou ácido fólico —, a reposição em doses adequadas é não só permitida como necessária. Essa correção faz parte do bom cuidado oncológico e deve ser orientada pela equipe.
  • Vitaminas e antioxidantes em altas doses (devem ser evitados durante o tratamento): o problema não é a vitamina em si, mas as megadoses. Doses muito acima do recomendado de vitamina C, vitamina E, betacaroteno e produtos antioxidantes “fortificados” podem proteger não só as células saudáveis, mas também as células tumorais — reduzindo o efeito da quimioterapia e da radioterapia. Por isso, o INCA recomenda evitar suplementos antioxidantes em altas doses durante esses tratamentos. A American Cancer Society e o National Cancer Institute (NCI) fazem a mesma recomendação.

Resumindo: vitamina não é vilã. Repor o que está em falta, dentro das doses certas, faz bem. O que deve ser evitado durante a quimioterapia e a radioterapia são as megadoses de antioxidantes — geralmente em fórmulas “turbinadas” ou prescritas por conta própria. Antes de tomar qualquer suplemento, mesmo os de farmácia ou “naturais”, mostre a embalagem para sua equipe.

3. Não use apenas o IMC ou a balança para decidir se deve emagrecer

O Índice de Massa Corporal (IMC) é uma ferramenta útil, mas tem limitações importantes no contexto oncológico. Ele não distingue gordura de músculo, não avalia força e não considera a redistribuição corporal que ocorre durante o tratamento. Um paciente pode estar com IMC “normal” e, ainda assim, ter sarcopenia — perda de massa muscular — um marcador independente de pior prognóstico em câncer.

Da mesma forma, o número na balança pode enganar. Edemas (inchaço), ascite e retenção hídrica por corticoide mascaram a real composição corporal. Um paciente pode estar “pesando mais” e, ao mesmo tempo, perdendo músculo.

A avaliação correta envolve:

  • Composição corporal (bioimpedância, dinamometria, exames de imagem como a tomografia em L3 quando disponível);
  • Histórico de perda de peso involuntária (perdas superiores a 5% em 6 meses são clinicamente relevantes);
  • Funcionalidade (força, mobilidade, capacidade de realizar as atividades diárias);
  • Comorbidades associadas (hipertensão, diabetes, dislipidemia, osteoartrite, apneia do sono).
Qual a diferença entre desnutrição e caquexia?

Embora frequentemente usados como sinônimos, são conceitos distintos. A desnutrição é a redução do estado nutricional por ingestão insuficiente ou má absorção de nutrientes e, em geral, responde bem ao suporte nutricional adequado. A caquexia oncológica é uma síndrome mais complexa, marcada por inflamação sistêmica desencadeada pelo próprio tumor, perda involuntária de músculo e gordura, e resposta apenas parcial à alimentação isolada. A caquexia exige abordagem multidisciplinar combinando suporte nutricional, manejo dos sintomas, atividade física orientada e, quando aplicável, tratamento da doença de base. Reconhecer essa diferença é essencial porque muda a estratégia terapêutica.

4. Manter o peso muitas vezes é a melhor meta na perda de peso no tratamento do câncer

Para boa parte dos pacientes em tratamento ativo, a meta realista não é emagrecer — é estabilizar o peso. Pequenas oscilações de cerca de 1 a 1,5 kg para mais ou para menos são esperadas e não preocupam. O que importa é a tendência ao longo do tempo.

Manter o peso ajuda a:

  • Preservar força e massa muscular para tolerar a quimioterapia;
  • Reduzir o risco de complicações em cirurgias oncológicas;
  • Diminuir a chance de internações prolongadas e infecções;
  • Sustentar o sistema imunológico durante imunoterapia;
  • Melhorar a qualidade de vida e a disposição no dia a dia.

Para isso, a recomendação prática é simples: cerca de dois terços do prato com vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas e sementes; e o terço restante com proteínas magras (peixe, frango, ovos, laticínios) ou proteínas vegetais. Hidratação adequada, fracionar as refeições em 5 a 6 vezes ao dia e priorizar alimentos densos em nutrientes nos dias de maior apetite costumam fazer enorme diferença.

5. Avise sua equipe se está perdendo peso sem querer — ou usando medicamentos para emagrecer

É normal perder peso durante a quimioterapia?

Pequenas oscilações são comuns, mas perdas superiores a 5% do peso em poucos meses não são consideradas normais. Náuseas, alterações de paladar, mucosite, diarreia e cansaço podem reduzir a ingestão e levar ao emagrecimento progressivo. A perda de peso sem esforço durante o tratamento é, na verdade, um sinal de alerta — pode indicar progressão da doença, intolerância ao tratamento, depressão ou caquexia oncológica, associada a pior resposta terapêutica e menor sobrevida. Avise sua equipe assim que perceber a queda: quanto antes, mais simples é reverter.

Náuseas, vômitos e inapetência têm hoje excelente controle farmacológico, e estratégias como adequação do esquema antiemético, ajuste de doses e suporte nutricional especializado costumam recuperar o paciente rapidamente. Confira também as estratégias para controlar o enjoo da quimioterapia.

Posso usar Ozempic, Mounjaro ou outros remédios para emagrecer se tenho câncer?

Esses medicamentos exigem avaliação especialmente cuidadosa em pacientes oncológicos. O uso de análogos de GLP-1, como semaglutida (Ozempic®, Wegovy®) e tirzepatida (Mounjaro®), cresceu muito no Brasil e impacta o tratamento do câncer em várias frentes:

  • Podem intensificar náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia;
  • Reduzem o esvaziamento gástrico — o que pode interferir em jejum pré-procedimentos e na absorção de medicações orais;
  • Promovem perda de peso significativa, incluindo perda de massa muscular, em pacientes que muitas vezes já estão fragilizados;
  • Têm contraindicações específicas em pacientes com histórico de carcinoma medular de tireoide e neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM-2).

Se você usa qualquer medicamento para emagrecer — injetável, oral ou “fórmula manipulada” —, informe ao oncologista antes de iniciar o tratamento e durante todo o seguimento. Na maioria das situações, a recomendação é suspender o medicamento durante a quimioterapia ativa e reavaliar após o término do tratamento, com acompanhamento conjunto entre oncologista e endocrinologista.

Para entender em detalhe o que a ciência diz sobre risco, proteção e uso seguro desses medicamentos, veja nosso artigo completo sobre Ozempic e câncer: o que a ciência diz sobre risco, proteção e uso seguro.

Quando procurar o oncologista com urgência

Procure avaliação rápida da sua equipe se você apresentar:

  • Perda involuntária de mais de 5% do peso em 1 mês;
  • Incapacidade de se alimentar por mais de 48 horas;
  • Vômitos persistentes ou diarreia que não cedem;
  • Fraqueza intensa, tontura ou quedas;
  • Sinais de desidratação (boca seca, urina escura, ausência de urina).

Se você ou um familiar enfrenta dúvidas sobre peso, nutrição e tratamento oncológico, agende uma consulta para uma avaliação personalizada.

Oncologista em São Paulo - Dr. Hugo Tanaka

Dr. Hugo Tanaka
Oncologista Clínico
CRM 163241 | RQE 100689 – Oncologia Clínica

Oncologista clínico e pesquisador atuante em São Paulo, com sólida formação acadêmica que inclui doutorado e mestrado em oncologia clínica e atendimento multidisciplinar.
Especialista certificado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), desenvolve práticas médicas integradas com foco em atendimento humanizado e ágil, sempre baseado em diretrizes internacionais.

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