Tipos de câncer

Câncer de Colo do Útero

O câncer de colo do útero é uma doença que se desenvolve na parte inferior do útero, a região que conecta o corpo uterino à vagina. Esta condição oncológica está intimamente relacionada à infecção pelo papilomavírus humano (HPV) e representa um importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo.

Apesar de ser uma doença grave, o câncer de colo do útero apresenta características que o tornam único: é altamente prevenível através de vacinação e rastreamento, e quando diagnosticado precocemente, oferece excelentes chances de cura. A compreensão sobre esta neoplasia e suas formas de prevenção pode salvar vidas.

Tipos de Câncer de Colo do Útero

O câncer de colo do útero se manifesta principalmente em duas formas histológicas distintas:

Carcinoma de Células Escamosas: Representa aproximadamente 70-80% dos casos. Origina-se nas células escamosas que revestem a parte externa do colo uterino (ectocérvice). Este tipo está fortemente associado à infecção persistente por HPV de alto risco.

Adenocarcinoma: Corresponde a cerca de 20-25% dos casos e se desenvolve nas células glandulares que produzem muco na parte interna do colo (endocérvice). Também está relacionado ao HPV, mas pode ser mais desafiador de detectar em exames de rastreamento.

Existe ainda o carcinoma adenoescamoso, uma forma menos comum que apresenta características de ambos os tipos. A zona de transformação, região onde os dois tipos de tecido cervical se encontram, é o local onde a maioria dos cânceres se origina.

Sintomas

Nas fases iniciais, o câncer de colo do útero raramente produz sintomas, o que reforça a importância fundamental dos exames preventivos. Quando sintomas aparecem, a doença frequentemente já progrediu além dos estágios iniciais.

Os sinais que podem indicar a presença de câncer de colo do útero incluem:

Sangramento vaginal anormal: Este é o sintoma mais comum e pode manifestar-se como sangramento após relações sexuais, entre períodos menstruais, após a menopausa, ou menstruações mais intensas e prolongadas que o habitual.

Corrimento vaginal alterado: Aumento do corrimento, que pode apresentar odor desagradável, coloração rosada, amarronzada ou sanguinolenta.

Dor durante relações sexuais: Desconforto ou dor pélvica durante o ato sexual (dispareunia).

Dor pélvica: Desconforto persistente na região pélvica, não relacionado ao ciclo menstrual.

Em estágios mais avançados, quando o tumor se dissemina para estruturas adjacentes ou órgãos distantes, podem surgir:

Dor lombar persistente, dificuldade para urinar ou sangue na urina, inchaço nas pernas (linfedema), alterações do hábito intestinal ou sangramento retal, perda de peso inexplicada e fadiga intensa.

É fundamental ressaltar que estes sintomas não são exclusivos do câncer de colo do útero e podem estar relacionados a diversas outras condições. No entanto, qualquer sangramento vaginal anormal deve ser prontamente avaliado por um ginecologista.

Fatores de risco

A infecção persistente pelo HPV constitui a causa principal do câncer de colo do útero, estando presente em praticamente todos os casos. Existem mais de 100 tipos de HPV, mas os tipos 16 e 18 são responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de câncer cervical.

Diversos fatores aumentam o risco de desenvolvimento desta neoplasia:

Infecção por HPV de alto risco: Transmitida principalmente por contato sexual, a infecção persistente pelos tipos oncogênicos do vírus é o fator de risco mais importante.

Tabagismo: Mulheres fumantes apresentam risco aproximadamente duas vezes maior. Substâncias do cigarro danificam o DNA das células cervicais e comprometem a capacidade do sistema imunológico de combater a infecção por HPV.

Sistema imunológico comprometido: Condições como HIV/AIDS ou uso de medicamentos imunossupressores reduzem a capacidade do organismo de eliminar a infecção pelo HPV.

Uso prolongado de anticoncepcionais orais: O uso por mais de cinco anos está associado a discreto aumento do risco, que diminui após a interrupção.

Múltiplas gestações: Ter três ou mais gestações completas aumenta o risco, possivelmente devido a alterações hormonais e trauma cervical.

Primeira gestação precoce: Engravidar antes dos 17 anos está associado a maior risco.

Outras infecções sexualmente transmissíveis: Clamídia e herpes genital podem atuar como cofatores.

Histórico familiar: Embora a maioria dos casos não seja hereditária, ter parentes de primeiro grau com a doença pode aumentar ligeiramente o risco.

Diagnóstico e prevenção

O processo diagnóstico do câncer de colo do útero envolve várias etapas, começando pelos exames de rastreamento e progredindo conforme necessário.

Exame de Papanicolaou (Citologia Oncótica): Este exame de rastreamento coleta células do colo uterino para análise microscópica. Pode detectar alterações celulares antes que se transformem em câncer, além de identificar células cancerosas em estágios iniciais.

Teste de HPV: Detecta a presença de tipos de alto risco do vírus. Pode ser realizado isoladamente ou em conjunto com o Papanicolaou, aumentando a sensibilidade do rastreamento.

Colposcopia: Quando o Papanicolaou mostra anormalidades, a colposcopia permite visualizar o colo uterino com ampliação especial. Durante o exame, o médico pode aplicar soluções que tornam áreas anormais mais visíveis e realizar biópsias direcionadas.

Biópsia: A confirmação diagnóstica de câncer de colo do útero requer análise microscópica de tecido. Diferentes tipos de biópsia podem ser realizados: biópsia dirigida por colposcopia, curetagem endocervical (para avaliar o canal cervical) ou conização (remoção de fragmento cônico do colo).

Exames de Estadiamento: Uma vez confirmado o diagnóstico, exames adicionais determinam a extensão da doença. Podem incluir radiografia de tórax, tomografia computadorizada, ressonância magnética da pelve, tomografia por emissão de pósitrons (PET-CT), cistoscopia (para avaliar a bexiga) e retossigmoidoscopia (para avaliar o reto).

Estadiamento

O estadiamento do câncer de colo do útero classifica a doença de acordo com sua extensão, orientando decisões terapêuticas e fornecendo informações prognósticas. O sistema mais utilizado divide a doença em quatro estágios principais:

Estágio I: O câncer está confinado ao colo uterino. Subdivide-se em IA (microscópico, detectado apenas por microscopia) e IB (lesões maiores visíveis clinicamente).

Estágio II: O tumor se estendeu além do colo, mas não atingiu a parede pélvica ou o terço inferior da vagina. Pode envolver a parte superior da vagina ou os tecidos ao redor do colo (paramétrios).

Estágio III: O câncer alcançou a parede pélvica, compromete o terço inferior da vagina, ou causa hidronefrose (bloqueio do ureter levando a comprometimento renal). Inclui casos com linfonodos pélvicos ou para-aórticos comprometidos.

Estágio IV: Representa doença avançada, com extensão para bexiga, reto ou órgãos distantes. O IVA indica invasão de órgãos pélvicos adjacentes, enquanto IVB indica metástases distantes.

O estadiamento preciso é fundamental para selecionar o tratamento mais adequado e estimar o prognóstico.

Tratamento

O tratamento do câncer de colo do útero é individualizado, considerando o estadiamento da doença, características histológicas, idade da paciente, condições clínicas gerais e desejo reprodutivo.

Cirurgia

Para estágios iniciais (IA1 a IIA), a cirurgia representa frequentemente o tratamento de escolha:

Conização: Remove um fragmento cônico do colo contendo a lesão. Pode ser curativa em casos muito iniciais (IA1) e permite preservação da fertilidade.

Traquelectomia Radical: Remove o colo uterino e parte superior da vagina, preservando o corpo uterino. Opção para casos selecionados em mulheres jovens que desejam preservar fertilidade.

Histerectomia Simples: Remoção do útero e colo. Indicada para estágios muito iniciais sem invasão linfovascular.

Histerectomia Radical: Remove útero, colo, tecidos adjacentes (paramétrios), parte superior da vagina e, frequentemente, linfonodos pélvicos. Tratamento padrão para estágios IB1 a IIA.

A cirurgia pode ser realizada por via aberta, laparoscópica ou robótica, dependendo da experiência cirúrgica e características do caso.

Radioterapia

A radioterapia pode ser empregada como tratamento principal ou adjuvante:

Radioterapia Externa: Dirige radiação de fonte externa para a pelve, tratando o tumor primário e linfonodos regionais.

Braquiterapia: Coloca material radioativo diretamente no colo uterino ou próximo ao tumor, permitindo altas doses de radiação com menor exposição de tecidos normais.

Frequentemente, ambas as modalidades são combinadas para otimizar resultados.

Quimioterapia

A quimioterapia desempenha diferentes papéis no tratamento do câncer de colo do útero:

Quimiorradioterapia Concomitante: Combina quimioterapia (geralmente cisplatina) com radioterapia, potencializando os efeitos da radiação. Tratamento padrão para estágios IB2 a IVA.

Quimioterapia Neoadjuvante: Administrada antes da cirurgia para reduzir tumores volumosos.

Quimioterapia Paliativa: Para doença metastática ou recorrente, visando controle da doença e melhora de sintomas.

Terapias-Alvo e Imunoterapia

Avanços recentes incorporaram novas opções para doença avançada ou recorrente:

Bevacizumabe: Anticorpo que bloqueia a formação de novos vasos sanguíneos tumorais. Pode ser adicionado à quimioterapia em doença metastática.

Imunoterapia: Pembrolizumabe, um inibidor de checkpoint imunológico, demonstrou benefícios em tumores com alta instabilidade microssatélite ou PD-L1 positivo.

Prevenção

O câncer de colo do útero é uma das neoplasias mais preveníveis através de medidas comprovadamente eficazes:

Vacinação contra HPV: Protege contra os tipos virais mais oncogênicos. Idealmente aplicada antes do início da vida sexual (entre 9 e 14 anos), mas beneficia mulheres até 26-45 anos. No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos.

Rastreamento Regular: O exame de Papanicolaou deve ser realizado regularmente a partir dos 25 anos. Detecta lesões pré-cancerosas que podem ser tratadas antes de evoluírem para câncer.

Práticas Sexuais Seguras: Uso de preservativos reduz (mas não elimina completamente) o risco de transmissão de HPV.

Não Fumar: Evitar o tabagismo diminui significativamente o risco.

O rastreamento adequado pode prevenir até 80% dos casos de câncer de colo do útero nos países que implementam programas organizados.

Prognóstico

O prognóstico do câncer de colo do útero depende fundamentalmente do estágio ao diagnóstico:

Para estágios iniciais (I), as taxas de sobrevida em cinco anos superam 90%. Estágios II apresentam sobrevida de aproximadamente 60-75%. Estágios III têm sobrevida de 30-50%, enquanto estágio IV apresenta taxas de cerca de 15-20%.

Outros fatores influenciam o prognóstico: tipo histológico, tamanho tumoral, comprometimento linfonodal, invasão linfovascular e resposta ao tratamento.

Mesmo em estágios avançados, tratamentos modernos oferecem possibilidades de controle prolongado da doença e melhora significativa da qualidade de vida.

Acompanhamento após o tratamento

Após completar o tratamento, acompanhamento rigoroso permanece essencial para detectar recidivas precocemente e manejar efeitos tardios das terapias.

O seguimento tipicamente inclui consultas regulares com exame físico e ginecológico (a cada 3-6 meses nos primeiros 2 anos, depois semestralmente até 5 anos, e então anualmente), citologia vaginal (para pacientes que preservaram a vagina), e exames de imagem quando indicados clinicamente.

Efeitos tardios do tratamento podem incluir menopausa precoce (após remoção dos ovários ou radioterapia), disfunção sexual, linfedema de membros inferiores, e complicações urinárias ou intestinais relacionadas à radioterapia.

O câncer de colo do útero representa uma condição para a qual temos ferramentas excepcionalmente eficazes de prevenção e tratamento. Vacinação, rastreamento regular e acesso a cuidados ginecológicos de qualidade podem praticamente eliminar mortes por esta doença. Se você tem dúvidas sobre prevenção ou apresenta sintomas preocupantes, procure um ginecologista ou oncologista para avaliação adequada.

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